Falta de olho

A visita do Papa Bento XVI a Espanha, ficou desde logo marcada pela conversa da despesa de 25 milhões de Euros.

Esquecem os preocupados da despesa que a visita papal trouxe a Espanha milhares de fiéis de todo o mundo que lá vão gastar dinheiro em restaurantes, museus e hotéis – como os chineses do Futre. Além da projecção mediática usufruída por Espanha que ainda ganhou em tomar de perto as palavras de um Papa universitário e com um pensamento sobre a actualidade digno de ser estudado.

Dos revoltados espanhóis sobre os custos da visita papal, gostaria de saber quantos já não se importam de comprar bilhetes de futebol e sustentar clubes com salários megalómanos para os tempos em que vivemos?

Nestas coisas é preciso ter um pouco mais de visão. Ou de olho, mas com cuidado não vá Mourinho meter o dedo…

Comments


  1. Estou consigo! Vamos fazer do Estado o motor da economia. Eu bem tenho defendido isso ultimamente, mas acusam-me de tudo e mais alguma coisa. Tem razão quando aponta que a visita do Papa poderá causar um efeito semelhante àquele que Futre desejava para o Sporting com a contratação de um jogador chinês. (Espero que não se ofenda por pôr fazer uma comparação entre o Papa e um jogador chinês, mas já que tinha ao de leve tocado no assunto.) Voltando ao assunto do papel do Estado na economia, não podíamos apostar em algo mais dinamizador e produtivo do que uma visita Papal?, só assim para tentar fazer a economia funcionar “à séria”? Ou então, mantendo o Papa, e já que com o patrocínio do Estado, porque não fazer “à grande” e trazer também representantes de outras religiões, como a muçulmana ou judaica, e mesmo até sectores representativos de opiniões ateias e agnósticas? Isso sim é que devia ser “chamar gente” e pôr o turismo a funcionar, respeitando ainda todas as opiniões e não usando o Estado para impingir apenas uma. Que tal?


  2. Só mais uma coisa. Acha mesmo que quem está por detrás dos protestos, entre outros o movimento 15-M que deverá ser quem mais “nervos” causa a certas sensibilidades, vai assim tanto “à bola” com o futebol para andar a derreter em bilhetes? Tenho algumas dúvidas, mas se o diz… Além de que, quando é o Estado a gastar, depreende-se que deverá ser em nome de todos os cidadãos, quando se trata de uma pessoa (mesmo que seja manifestante, curiosamente também são pessoas), trata-se de um “agente privado”, logo a comparação com o Estado é como que a puxar um pouco para o demagógico.Trata-se apenas da minha opinião, espero que não se ofenda.

  3. Nightwish says:

    Demagogia, leva-o vento… então estou mesmo a ver os visitantes a madrid a gastar cada um milhares de euros. É certinho.
    Mas não devia o estado estar afastado da economia? Ou o estado mínimo é só quando é para coisas que não gostamos? E para receber o Dalai Lama, também vai gastar 25 milhões ou a igualdade vai para as malvas e nem receção oficial tem?


  4. NR
    Eu não defendo que o Estado tenha de ser o motor da economia.
    Parece-me, sim é que por vezes se dá muita importância ao detalhe e menos à visão geral das coisas. Sei que 25 milhões de Euros é muito dinheiro principalmente em tempos de crise, mas duvido que alguém tenha feito as contas de quanto a economia espanhola privada – e, reflexamente, a pública também desde logo em matéria fiscal – vai embolsar com os milhares de fiéis que para lá foram ou os ganhos colaterais e futuros em termos de turismo e de divulgação cultural.
    Por ouro lado, o Papa é Chefe de Estado e de um Igreja que congrega milhões de fiéis em todo o mundo. A sua visita é por isso mobilizadora e mediática. O que não impede, obviamente, que outros sejam convidados. Duvido é que sejam tão mobilizadores de fiéis e, assim, de consumidores.
    Por fim, a analogia com Futre foi mera ironia. Para alguém que tanto uso fez da ironia nos seus dois comentários, que em nada me ofenderam, certamente percebeu isso.


  5. Deve de haver separação entre a Igreja e o Estado, levámos séculos a chegar a esta conclusão, as razões são inúmeras e estão muito bem estudadas, pelo que nem vale a pena tentar começar a explicar este assunto numa caixa de comentário, tudo o resto não passa de retórica. O estado espanhol não deveria ter feito mais do que faz nas visitas de qualquer outro chefe de estado. Os crentes poderão gastar o dinheiro que queiram a receber o Papa.

    Obviamente não me oponho às visitas do Papa, seja onde for, tantas quantas ele deseje.


  6. J. Mário Teixeira, percebo a sua posição e aceito-a. No entanto, e como deve imaginar, mantenho a minha opinião e faço minhas as palavras de Helder Guerreiro. Parece-me importante a separação entre Estado e Igreja.

  7. Konigvs says:

    Já tudo foi dito pelo Helder Guerreiro. O Papa é chefe de Estado do país Vaticano, e desse ponto de vista merece todo o respeito e deve ser recebido como outro chefe de estado qualquer. Andar o Estado laico a gastar 1 cêntimo que fosse a patrocinar a vinda de um chefe religioso é totalmente desrespeitoso para com todos os outros cidadãos de outras religiões ou não crentes. O dinheiro que a vinda do senhor possa trazer não está em causa, o que está em causa é o respeito pelas pessoas.

    E já agora em jeito de provocação a ideia do Futre é totalmente errada. Se ele quisesse centenas de voos com chineses a aterrar em Portugal para visitar devia contratar o melhor jogador de ping pong do mundo e não um jogador de futebol – como se o futebol fosse uma modalidade que os chineses idolatrassem!! Contratar o melhor jogador chinês de futebol teria a mesma relevância, que na China qualquer clube chinês contratar o melhor jogador português de basebol!!
    Vão ver as maiores audiências das modalidades desportivas na China e depois digam-me qualquer coisa!!


  8. Defendo a separação entre Estado e Igreja e em nada no meu texto se pode concluir o contrário. Apenas não comungo da mera lógica contabilística de um visita papal.
    Como me parece mero oportunismo aproveitar a mesma para exigir rigor de custos quando ainda há poucos anos ninguém ligava a isso. E ninguém ligava a isso – ao rigor dos custos – pela simples razão que a maior parte andava encantada com o dinheiro fácil, a viver da ilusão do crédito ao desbarato tantas vezes para comprar por inveja ou futilidade.
    O problema não é a separação entre o Estado e a Igreja. Não é isso que motiva os protestos. O que os motiva é começarem a sentir que lhes está a sair bem caro do corpo as péssimas opções de vida que foram tomadas ao longo de anos, a par de políticas coniventes com os interesses financeiros todas elas tomadas por Governos eleitos democraticamente.
    Vivemos a ressaca da desilusão e na hipocrisia de se apontar dedos sem se ser capaz de se fazer qualquer contrição.


  9. Boa pergunta, Helder Guerreiro, com a qual terminas o teu comentário. Boa pergunta.
    Quanto à visão contabilística, não sou a favor que se desvalorize. Não concordo, sim, que se valorize daquela forma reduzindo uma visita papal a números. Por isso a falácia não me diz respeito.
    Falácia, e bem perigosa, é não se asumir que povos inteiros endividaram-e às cegas, Governos eleitos democraticamente (não foram ditaduras) foram cúmplices com os interesse da banca, e tudo caminhou de braço dado para o abismo do endividamento a favor de credores que agora mandam e desmandam em nações cada vez menos soberanas.
    Ou se encara isto com realismo e contrição ou continuaremos a viver na ilusão cada vez mais cara. Esta, sim, é a contabilidade que me preocupa. Mas isso já é assunto para outro artigo.

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