A Batalha dos Três Reis


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Cavaleiros Árabes. Foto Mohamed Bachir Bennani

A Batalha de Alcácer-Quibir foi o resultado de uma política desastrosa levada a cabo por um rei imprudente, que arrastou para a ruína a sua nação. Uma política impulsiva e obsessiva, destituída de uma estratégia consistente, que tinha a conquista de Marrocos como seu objectivo principal, objectivo que a História já tinha provado ser impossível.

Após a batalha de Alcácer-Quibir, de Oued El-Makhazin ou dos Três Reis, Portugal e Marrocos nunca mais seriam os mesmos.

Para Portugal, Alcácer-Quibir ficará para sempre como o maior desastre militar da sua história e pelo nascimento do mito do sebastianismo, que marca este povo triste e fatalista, à espera que alguém que o virá salvar num dia de nevoeiro. Para Marrocos, a batalha de Oued El-Makhazin ou dos Três Reis foi um dos momentos de glória da sua história, que ocorreu num período que marcou decisivamente a afirmação da sua nacionalidade e unidade territorial.

Fès

A Medina de Fez

Portugal sempre soube que não lhe era possível conquistar Marrocos e, principalmente, mantê-lo no seu poder. Estas duas frases de David Lopes sintetizam bem esta realidade:

“Um reino português em Marrocos era sonho irrealizável com os nossos parcos recursos em gente e dinheiro”. (LOPES, 1989, pág. 12)

O próprio infante D. Henrique, o grande defensor e impulsionador da política expansionista de Portugal em Marrocos tinha consciência disso.

“Não vemos (…) D. Henrique fechar os olhos às realidades e querer conquistar um país que Portugal, de pouca população e pobre, não podia abarcar. Um realista que ele sempre se revelou não podia ter tão estulta pretensão; e se algum dia teve esse sonho, filho da inexperiência primeira, deve ter acordado dele quando o mar imenso se começou a abrir diante das suas caravelas. Os perigos eram aí, afinal, menores e as vantagens maiores.” (LOPES, 1989, pág. 12)

Portugal podia, quanto muito, manter praças-fortes na costa de Marrocos, que mesmo assim se mostraram extremamente dispendiosas para os cofres do reino. Tinham que ser abastecidas por mar, dependendo totalmente de uma logística exterior, e exigiam a cobrança de impostos especiais em Portugal, extremamente impopulares. O isolamento das praças foi também a causa para a sua decadência comercial, já que são abandonadas pelos comerciantes que as habitavam e passa a vigorar um boicote à entrada de mercadorias.

Existia inclusivamente uma grande dificuldade em recrutar homens para defender e habitar nas praças de Marrocos, recorrendo-se em grande parte a condenados que alcançavam o perdão após a sua permanência aí de um ou mais anos.

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Mazagão

As praças-fortes eram sobretudo um investimento sem retorno palpável, apenas mantido por razões estratégicas, já que asseguravam a navegabilidade das naus livre das pilhagens dos piratas norte africanos, garantiam a segurança do Sul de Portugal contra possíveis ataques do reino de Fez e asseguravam no contexto regional a hegemonia estratégica de Portugal em relação a Espanha. O próprio facto de que Portugal poderia “asfixiar” o Reino de Fez cortando-lhe o acesso ao mar cedo se revelou como uma ilusão, já que os portugueses nunca tiveram o controlo efectivo da costa de Marrocos e o Reino de Fez não dependia do mar como se poderia supor.

Marrocos revelou-se “um sorvedouro de gente e dinheiro”. (MORENO, 1994, pág. 15)

“O declínio do poder português em Marrocos começou já no reinado de D. Manuel (…) o adversário tomara consciência da sua força e, quer nas praças do Norte, quer nas do Sul, fazia a vida nelas cada vez mais dura e difícil; por outro lado a desorganização económica delas tornava mais precária a sua conservação. Mas aparentemente o edifício mostrava a fachada intacta ou com leves fendas; no interior, porém, caía em ruínas.” (LOPES, 1989, pág. 67)

No início do século XVI a pobreza instala-se e começam os saques aos armazéns de víveres, enquanto os ataques do exterior são cada vez mais frequentes. O desastre da Mamora de 1515 marca o fim da expansão portuguesa em Marrocos e a conquista de Santa Cruz do Cabo Guer em 1541 é o pretexto para a política de abandonos que se seguiria. A conquista de Fez pelos Xerifes Sádidas e a unificação do país sob a sua bandeira foi o prenuncio da derrota que se aproximava.

Num espaço de nove anos as possessões portuguesas na costa marroquina ficam reduzidas a Ceuta, Tânger e Mazagão.

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Marraquexe

Entre 1574 e 1576 reina por morte de seu pai Mulay Mohamed Al-Moutaouakil, filho varão de Abdallah Al-Ghalib. Acontece que, segundo a tradição, deveria ser proclamado sultão o irmão do defunto, Abu Marwan Abdelmalik Al-Mouatassem Billah, que não aceita que o poder seja ocupado pelo seu sobrinho.

Abdelmalik, ou Mulay Abdelmalik, o Mulai Maluco das crónicas portuguesas, combateu no exército otomano e conta com o apoio do sultão turco, que procura instalar o poder otomano em Marrocos. Abdelmalik invade Marrocos à frente de um forte exército, conquista Fez e Marraquexe, e derrota as forças de Mulay Mohamed perto de Rabat.

Apesar de chamado pelos portugueses de Maluco, o sultão Abdelmalik, de maluco não tinha nada. Era reconhecidamente um homem tolerante, prudente e sensato, e os cronistas da época “são unânimes em elogiar as suas qualidades morais, isto é, de tolerância, prudência e experiência, coisas que a escola da adversidade dá, aos que sabem ler no seu livro”. (LOPES, 1989, pág. 77-78)

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D. Sebastião. Autor desconhecido

Sobre D. Sebastião escreveu Oliveira Marques:

“Aos catorze anos de idade, D. Sebastião tomou conta do governo. Se não fora rei, teria porventura sido um zeloso e violento missionário. Enfermo no corpo e no espírito, importava-se pouco com o ofício da governação, perdido antes em sonhos de conquista e de expansão da Fé. Conquistar Marrocos era a sua ambição número um, mas outros projectos de imperialismo em terras pagãs preenchiam-lhe a imaginação. Ousado até aos limites da loucura, o rei não concedia lugar ao planeamento cuidadoso, à estratégia ou à retirada, igualando tudo isso a medo ou cobardia. Desprezava os velhos e os prudentes, rodeando-se de um grupo de jovens aristocratas, quase tão loucos e pouco maduros como ele próprio.” (MARQUES, 1973, pág. 421)

Ao ser arredado do poder, Mulay Mohamed, “o esfolado” (como adiante se verá), pede auxílio a Filipe II de Espanha e a D. Sebastião de Portugal. D. Sebastião era um obcecado com a crescente ameaça dos turcos à Península, propondo ao seu tio Felipe II de Espanha uma intervenção conjunta em Marrocos, que atacasse o porto de Larache, principal abastecimento por mar à cidade de Fez e importante base de pirataria e da armada turca.

Felipe acede sem grande entusiasmo e sob forte pressão dos castelhanos para não apoiar os portugueses, pela imprudência que tal empresa acarretava, impondo como condição que fossem incluídas no exército tropas europeias experimentadas. Para os espanhóis a empresa de D. Sebastião não era uma prioridade. O seu inimigo eram os turcos e a sua guerra travava-se contra eles no Mediterrâneo. Para além disso, uma vitória portuguesa contra o rei de Marrocos não era propriamente do interesse de Espanha. Acresce ainda o facto de que D. Sebastião não tinha herdeiros, e a sua morte poderia significar a tão desejada União Ibérica.

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Larache

Das conversações entre portugueses e espanhóis, realizadas em Guadalupe em 1576 o rei de Espanha prometeu “auxiliar o sobrinho com gente e navios, isto é, 50 galés e 5.000 homens, mas pôs-lhe certas condições para isso, a saber: a expedição far-se-ia até Agosto seguinte de 1578; nela tomariam parte, para além das forças espanholas, 15.000 homens, pelo menos, recrutados pelo rei de Portugal, metade de tropas portuguesas e o restante alemães e italianos, sendo 6.000 os primeiros e 2.000 os segundos. Esta exigência foi feita pelo Duque de Alba, encanecido na guerra europeia, bem mais difícil que a colonial, a única em que os portugueses se exercitavam e para a qual levavam gente do campo sem preparação para a grande guerra.” (LOPES, 1989, pág. 79)

Mas Abdelmalik era um estratega nato e dispensa oficialmente o exército turco, matando dois coelhos de uma cajadada _ livra-se dos otomanos, principal ameaça para a independência de Marrocos, e faz com que Felipe II não apoie mais a empresa de D. Sebastião, dado que os otomanos deixavam de ser uma ameaça directa para Espanha. D. Sebastião decide avançar sem o apoio de Espanha e a empresa de Alcácer-Quibir custaria aos cofres portugueses “mais de um milhão de cruzados, cerca de metade das receitas anuais do Estado.” (MARQUES, 1973, pág. 422)

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O Baluarte do Caranguejo em Tânger

A versão de David Lopes sobre o encontro de Guadalupe não é confirmada por Luís Costa e Sousa que afirma que “verificando que falharam todas as tentativas para dissuadir o sobrinho, o monarca castelhano recusou-se liminarmente a prestar qualquer auxílio militar oficial – e substancial. Foi proibido o levantamento público de voluntários espanhóis, e que não seriam poucos, segundo se depreende das palavras dos cronistas (…) A situação chegou ao extremo quando Felipe II mandou prender os oficiais que tomaram a iniciativa de levantar tropas em Espanha.” (SOUSA, 2009, pág.20)

Fosse como fosse, a verdade é que de facto apenas participaram no exército português 500 espanhóis comandados pelo capitão Aldana, que se integraram nas suas fileiras já em Marrocos.

A obsessão de D. Sebastião pela guerra com Marrocos já se manifestara quatro anos antes de Alcácer-Quibir, no final do verão de 1574, quando vai para Lagos e daqui passa com um pequeno exército para Ceuta. De Ceuta dirige-se a Tânger onde trava algumas escaramuças com mouros que para lá convergem ao saber da sua presença na cidade.

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Arzila

O pedido de socorro de Mulay Mohamed é assim o pretexto de que precisa para organizar o seu ataque em grande escala. O sultão deposto oferece a D. Sebastião “todo o litoral que ele possuía no mar oceano com seis léguas pela terra firme, com as cidades e povoações que aí havia, entre elas Arzila, Safim, Larache (…) depois acrescentou a isso (…) Alcácer-Quibir, Tetuão. Além disso prometeu que deixaria pregar na Berbéria a fé de Jesus Cristo. Mandou-lhe entregar desde logo Arzila… e, finalmente, consentia que D. Sebastião fosse coroado imperador de Marrocos”. (LOPES, 1989, pág. 80)

Começam os preparativos para organizar o exército. Para além da nobreza de Portugal, os aventureiros, o exército era sobretudo composto por gente sem experiência militar, recrutados no reino através das ordenanças, e mercenários.

A constituição do exército português varia conforme os autores.

David Lopes estima em 17.000 homens de infantaria e cavalaria e 36 peças de artilharia. “No campo inimigo haveria cerca de 40.000 homens de cavalaria e 8 a 9 mil de infantaria, sem contar uma maior chusma de irregulares, com 26 peças de artilharia”. (LOPES, 1989, pág. 80)

Segundo Laurent Henninger, as forças portuguesas compunham-se de 14.000 soldados de infantaria e 2.000 de cavalaria, enquanto o exército de Marrocos dispunha de 20.000 soldados de infantaria e 41.000 cavaleiros.

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“Piqueiros” castelhanos

Luís Costa e Sousa é bastante específico em relação à constituição dos dois exércitos. “Para a expedição de 1578 a Marrocos foi reunida uma frota considerável que contava cerca de 750 navios, entre os quais 5 galeões e cerca de outros 50 bem armados”, 20.000 homens e os necessários mantimentos. (SOUSA, 2009, pág.45). Os soldados recrutados através das ordenanças eram na sua maioria do Sul do país, supostamente num total de 12.000 homens, mas que “no final apenas foi possível levantar 9.000” (SOUSA, 2009, pág.65). Os mercenários eram cerca de 2.800 alemães e valões, comandados pelo coronel Martim de Borgonha, entre 1.600 e 2.200 castelhanos, comandados por D. Alonso de Aguilar, e 600 italianos, comandados pelo coronel Thomas Stukeley. Esta força foi reforçada com veteranos das guarnições de Tânger e Arzila, comandados pelo capitão Alexandre Moreira, com os 500 castelhanos do capitão Aldana e com 250 cavaleiros e 400 atiradores do sultão deposto Mulay Mohamed.

“A todos estes soldados mercenários e recrutas das ordenanças, juntou-se aquilo que se pode considerar a nata do exército, entre 600 e 1.400 fidalgos voluntários e veteranos dos teatros de operações de todo o império, e em conjunto com os veteranos contratados constituíam a componente de choque do exército português.” O seu comandante era o coronel Cristóvão de Távora. (SOUSA, 2009, pág.65)

Na vanguarda do exército ia a artilharia e a elite da infantaria, mercenários, aventureiros e veteranos. Pelos lados, “as mangas de arcabuzaria”. A segunda linha do exército, chamada ‘batalha’, comandada pelo coronel Vasco da Silveira, era constituída pela ‘gente bisonha’, os soldados com menos treino e de menor confiança. Atrás vinha a ‘carriagem’, “500 carros, 100 com a alimentação dos soldados que constituía de ‘biscoito’, 200 com cevada, pólvora e munições, 40 com outras tantas pipas de água, 5 com o dinheiro dos soldos para os soldados, e os restantes distribuídos pelos terços.” (SOUSA, 2009, pág.67)

Forte da Ponta da Bandeira

O Forte da ponta da Bandeira em Lagos

A rectaguarda era constituída pelos soldados recrutados no Algarve, posicionados na ala esquerda, comandados por Francisco de Távora, e pelos do Alentejo, na direita, comandados por D. Miguel de Noronha, e, entre estes, os não-combatentes. A rectaguarda era reforçada com mosqueteiros e alguma artilharia ligeira.

As duas alas do exército eram ocupadas pela cavalaria, metade da qual pesada, ou seja, cavalos encobertados de couraças. A ala esquerda era comandada por D. Sebastião e a direita pelo Duque de Aveiro. O mestre de campo era D. Duarte de Meneses.

O exército marroquino dispunha de 24 peças de artilharia, camufladas no cimo de uma colina. A infantaria ocupava o centro do exército, num total de 15.000 a 20.000 homens. “Na frente, encontravam-se os contingentes em quem o xerife menos confiava, na direita 3.000 atiradores andaluses e 3.500 ou 4.000 atiradores berberes pelo lado esquerdo” e os irregulares do exército otomano, comandados pelo alcaide Guifer. “Logo atrás estavam as tropas regulares de maior valor, cerca de 4.000 ‘azuagos’ comandados pelo alcaide Hassan (…) mas sobretudo 1.000 turcos de Argel e 2.5000 ‘elches’ atiradores, aqueles em que Abdelmalik depositava maior confiança.”, comandados por Mohamed Tabá. (SOUSA, 2009, pág.70)

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Chefchauen, cidade andalusa

Uma nota sobre estas designações: os “andaluses” eram mouros expulsos da Península, os “gazulas” eram berberes do Anti-Atlas, os “azap” eram soldados do exército turco, os “azuagos” eram mercenários do Oeste da Argélia e os “elches” eram cristãos renegados, convertidos ao Islão.

No centro do exército estava o sultão e a sua guarda pessoal, formada por turcos e renegados, comandados por Ali Mussa, e à sua frente a fanfarra, destinada a incentivar as tropas e atemorizar o inimigo. Na rectaguarda vinham as bagagens e tropas irregulares de pouco valor.

Nas alas vinham entre 10.000 e 20.000 cavaleiros, fundamentais na táctica otomana para envolver o exército inimigo. A ala direita ou “mão direita”, a mais prestigiada era comandada por Mulay Ahmed, irmão de Abdelmalik e futuro sultão de cognome Almançor, e a esquerda comandada por Mohamed Zarco. Na frente da vanguarda vinham os ‘espahis’, atiradores a cavalo, em número de 1.000 a 6.000, comandados por Ahmed Lataba. (SOUSA, 2009, pág.73)

Contas finais, e considerando também o resultado da batalha, em termos de prisioneiros e mortos, as forças em presença dão a vantagem aos marroquinos na proporção de cerca de 3 para 1, ou seja, 61.000 homens para apenas 24.000 dos de Portugal.

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Representação da batalha de Alcácer-Quibir publicada por Miguel Leitão de Andrade na obra “Miscelânea” em 1629

Mas Alcácer Quibir foi mais do que um confronto de tropas. Foi um confronto de tácticas, que nesta época, europeus e muçulmanos aperfeiçoavam, adaptando-se às novas realidades que a generalização das armas de fogo obrigava.

O exército português adoptava a formação em quadrado, munindo a infantaria de “picas”, longas lanças de cerca de 5 metros e de arcabuzes e mosquetes, com descargas de fogo controladas. Os soldados eram recrutados e organizados em companhias através das “ordenanças”, recrutamento obrigatório dos homens com idades entre 10 e 60 anos, que se deveriam exercitar todas as semanas, domingos e dias santos. A cavalaria vai perdendo o seu caracter de tropa de choque frontal, para adquirir um papel de protecção das alas das companhias de infantaria.

O exército marroquino do período Sádida era fortemente influenciado pelo modelo otomano, se bem que com algumas diferenças. A sua principal característica reside na formação luada ou em crescente, com grande preponderância da cavalaria nas alas para envolver o exército inimigo, constituída por vassalos do sultão, e um núcleo central de infantaria, a “mazagania”, geralmente apoiada em tropas capturadas ou convertidas, correspondendo aos “janízeros” turcos. Eram sobretudo andaluses, elches ou tropas mercenárias do Atlas e da Argélia.

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Larache

D. Sebastião foi aconselhado a empreender um ataque mais contido, dirigido apenas ao porto de Larache, com uma força menor, sem se aventurar no interior do país e, sobretudo, sem participar directamente na batalha. Foi-lhe mesmo dito que a sua presença atrairia uma força maior, incluindo a de tropas turcas. Esta posição de prudência do lado português teve correspondência do lado marroquino, tendo Abdelmalik, enfermo, proposto a D. Sebastião por três vezes que abandonasse a ideia de invadir Marrocos, concedendo-lhe o Porto de Larache na terceira proposta, o que o rei português recusou. (NEKROUF, 1984, pág. 127).

O exército português parte de Lisboa no dia 24 de Junho de 1578, fazendo escala na cidade de Lagos e daí uma segunda escala em Cadiz, de onde parte a 7 de Julho rumo a Tânger, onde se reúne às tropas do sultão deposto Mulay Mohamed. Três dias depois desembarcam em Arzila, cidade recentemente devolvida aos portugueses por Mulay Mohamed como adiantamento pela ajuda de D. Sebastião para o reconduzir no trono de Marrocos.

Em Arzila D. Sebastião comete o seu primeiro erro táctico, ao obrigar as tropas a seguir por terra, quando o podia ter feito por barco, desembarcando junto a Larache. Para além do esforço cometido, o facto de encaminhar o exército para ao interior do território inviabilizava o apoio logístico e da artilharia naval, facto que os seus capitães mais experientes lhe fizeram notar. O exército de Marrocos estava perto, mas não se aproxima da costa para evitar a artilharia dos navios portugueses.

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Localização da Batalha de Alcácer Quibir no Norte de Marrocos

Se bem que a distância não fosse exagerada, convém não esquecer que se estava no início de Agosto e a logística era de difícil transporte. O exército sai de Arzila no dia 29 de Julho e no dia 1 de Agosto à noite ”a boiada foi atacada pelos cavaleiros mouros que sempre acompanharam a marcha da coluna, e embora sem resultados de gravidade, houve que recolher os animais extraviados.” (SOUSA, 2009, pág.54)

No dia seguinte a coluna prepara-se para atravessar a ponte romana sobre o Oued El-Makhazin, conhecido nas crónicas portuguesas como Rio Mocazím, o Rio da Ponte das crónicas de Bernardo Rodrigues. Esperavam-nos uma força de 4.500 cavaleiros que lhes barraram o caminho, obrigando o exército a desviar o seu caminho e atravessar o Makhazin no dia 3, cerca de 1 quilómetro a Poente da ponte romana, o que atrasou muito e dificultou a progressão das tropas. Abdelmalik aproveita então para enviar “alguns milhares de cavaleiros, entre oito a dez mil lanças”, que os portugueses repeliram com alguma facilidade. Os dois exércitos ficaram nessa altura à vista um do outro, mas não foi dada ordem de ataque de nenhum dos lados e Abdelmalik recolheu as suas tropas ao seu acampamento, situado mais a Sul. Os portugueses acamparam então numa colina que fortificaram segundo as indicações do arquitecto italiano Filipe Terzi, a cerca de 3 quilómetros do acampamento dos marroquinos, perto da confluência do Oued El Makhazin com o Oued Loukkos.

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Localização da Batalha de Alcácer Quibir

Nessa noite de 3 de Agosto realiza-se um conselho de guerra, no qual D. Duarte de Meneses, homem experimentado na guerra em torno das praças, propõe um ataque nocturno para surpreender o inimigo. Outras opiniões se manifestam logo na manhã seguinte, num outro conselho de guerra, como a de aguardar mais um dia ou dois na esperança que Abdelmalik falecesse, o que podia afectar a moral inimiga. Oura possibilidade era a de abandonarem o local e juntarem-se à frota em Larache, mas essa alternativa podia levantar o ânimo dos mouros e precipitar a batalha durante a retirada.

“D. Sebastião estava furioso (…) Que se desenganassem, não tinha vindo para conquistar Larache, mas para dar batalha ao ‘maluco’.” (SOUSA, 2009, pág.77-79)

Ainda se colocou a possibilidade de adiar a batalha para a tarde, por causa do calor, mas a opinião geral foi travá-la assim que possível. E assim foi. Às 9.00 horas o exército pôs-se em marcha em direcção ao acampamento de Abdelmalik, seguindo ao londo do leito seco de um afluente do Oued Loukkos, o Oued Rur, que lhe protegia o flanco direito de qualquer ataque vindo desse lado. Pouco depois desviou-se para a esquerda, posicionando-se em campo aberto. Abdelmalik, acampado a Sul do Oued Rur, atravessou o rio e posicionou o seu exército frente ao português, e colocou a sua artilharia camuflada numa colina.

“Na frente, Miguel Leitão de Andrade observou a manobra dos cavaleiros inimigos, estendendo as pontas do exército em redor do nosso de modo que nos vinham a rodear em forma de meia-lua, tomando-nos a todos no meio.” (SOUSA, 2009, pág.86)

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Morabito nos campos de Alcácer Quibir

Pouco passava das 10.00 horas a batalha começou com os disparos da artilharia marroquina, que estava equipada com canhões de grande porte, à maneira turca, como o célebre “Sidi Mimoun”, hoje em exibição no museu militar da cidade de Fez.

Enquanto a artilharia flagelava a hoste portuguesa, a cavalaria moura atacava a rectaguarda. D. Sebastião ordena que se posicione a artilharia portuguesa e dirige-se à rectaguarda para dar ânimo às tropas. Reina a confusão nas hostes portuguesas. “O ar fica obscurecido pela poeira dos cavalos e o fumo dos canhões.” (HENNINGUER, 2004, obra citada)

A vanguarda portuguesa, composta sobretudo por “piqueiros”, começa a ser flagelada por arcabuzes e mosquetes, impacientando-se pela ordem “Santiago!” para avançar. Finalmente a ordem chega e a elite do exército português avança decidida pelo centro do terreno, colocando a vanguarda do exército de Abdelmalik em debandada e procurando apoderar-se da artilharia inimiga. Ao mesmo tempo a cavalaria acobertada portuguesa põe em fuga a “mão-direita” comandada por Mulay Ahmed. Abdelmalik tenta montar o seu cavalo, mas morre antes de o conseguir. Os portugueses gritam “vitória, vitória, vitória, o ‘maluco’ é morto.” (SOUSA, 2009, pág.95)

O inesperado acontece então, já que a vanguarda do exército português adianta-se em demasia, perdendo o contacto com a segunda linha, e ficando exposta à possibilidade de ser envolvida pela cavalaria marroquina. Os veteranos abandonam os piques e começa a luta corpo-a-corpo. É então dada ordem de retirada, o que provoca o caos total. Muitos veteranos ficam parados, outros recuam atónitos, instala-se a confusão.

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Representação da Batalha de Alcácer Quibir. Autor desconhecido

Ao meio-dia, Redouan, lugar-tenente de Abdelmalik, encobre a morte do seu amo e percebe que chegou o momento de virar a sorte a seu favor. Reúne as suas tropas, repele a cavalaria de D. Sebastião, que recua, e cerca a vanguarda do exército português, que é parcialmente dizimada. A vanguarda do exército de Portugal retira em pânico e entra em choque com a segunda linha.

Entretanto a cavalaria de marroquina envolve o exército português como uma tenaz, fazendo com que os poucos cavaleiros de D. Sebastião vão acudir a rectaguarda, deixando o centro do exército à mercê da torrente que sobre ele se abate. Às 4.00 horas a derrota portuguesa é total em todas as frentes, e D. Sebastião reúne um grupo de sobreviventes para uma derradeira e inútil resposta. Nessa altura as munições de pólvora dos portugueses explodem, criando um cenário apocalíptico de fumo e fogo.

O rei foge com um pequeno grupo de fidalgos, mas é cercado. Recusando a rendição, acaba por ser morto com um golpe de espada na cabeça. “D. Nuno de Mascarenhas presenciou o final do seu rei.” D. Duarte de Meneses e D. Teodósio “Não quiseram acreditar ao ouvi-lo dizer que vira morrer o rei, já no fim da batalha, e como!” (SOUSA, 2009, pág.111)

O corpo de D. Sebastião foi identificado nessa noite perante o novo sultão Almançor por Sebastião Resende, seu moço de câmara, Miguel Leitão de Andrada, D. Duarte de Meneses, D. Teodósio, D. Miguel de Noronha, Belchior Amaral e D. Duarte Castelo Branco:

“O novo xerife saiu da tenda, ao mesmo tempo que os portugueses, estupefactos, viram o turco que trazia a azémola deixar cair D. Sebastião aos pés de Almançor. O corpo, coberto de sangue, suor e terra, trazia uma profunda ferida na testa acima da sobrancelha (…) D. Duarte de Meneses não conseguiu conter as lágrimas, e enquanto chorava convulsivamente o Almançor ordenou que levassem o cadáver para junto dos restantes prisioneiros.” (SOUSA, 2009, pág.112)

D. Duarte de Meneses, chorando, indignou-se pela forma como Almançor tratou o corpo do rei, ao que o sultão respondeu:

“Recompõe-te, porque para o teu rei já não há remédio; deves saber que é a usança de guerra perderem uns para ganharem outros. E também nós perdemos o melhor rei que jamais haveremos de ter.” (SOUSA, 2009, pág.112)

Estátua D. Sebastião

Estátua de D. Sebastião em Lagos, de João Cutileiro

No rescaldo da batalha faz-se a concentração dos milhares de prisioneiros e a morte daqueles que não aceitam a rendição. Estima-se que terão morrido 8.000 portugueses e 16.000 feitos prisioneiros. Menos de uma centena conseguiria fugir. Do lado marroquino terão morrido 3.000 homens.

Entre os mortos contam-se os três reis em presença no campo de batalha, daí um dos vários nomes pelos quais é conhecida _ Batalha de Alcácer Quibir, Batalha de Oued El Makhazin e Batalha dos Três Reis:

Abdelmalik, que sucumbiu à sua enfermidade.

Mulay Mohamed, afogado no Oued Loukkos, pelo qual tentou fugir, mas não sabia nadar. O seu corpo foi esfolado, as entranhas cheias com palha e exibido nas principais cidades de Marrocos.

D. Sebastião, cujo corpo os portugueses testemunham ter morrido em combate e que foi colocado num ataúde 4 dias depois, sendo levado para Alcácer Quibir, onde se tentou uma última identificação, impossível de realizar pelo estado de decomposição e inchaços devido às feridas que lhe provocaram a morte.

O corpo do rei Sebastião, foi, segundo auto existente, entregue a 4 de Dezembro de 1578 em Ceuta, onde permaneceu na Igreja do Mosteiro da Santíssima Trindade, sendo trasladado em 1582 para Lisboa, encontrando-se actualmente no Mosteiro dos Jerónimos.

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Vista de Ceuta

Felipe II sempre conseguiu a sua União Ibérica, que durou 60 anos. Mas com ela criou-se o Mito do Sebastianismo, nascido da esperança de um regresso de D. Sebastião para devolver o país aos portugueses. O mito iria perdurar na história e ganhar força nos tempos mais difíceis da vida de Portugal, sob a forma da crença na vinda de um salvador, como nos anos que antecederam a restauração de 1640 ou durante as invasões francesas. É uma ajuda para aceitar as dificuldades e viver com elas.

“O Sebastianismo traduz a nostalgia de uma idade de ouro que passara e o sentimento de humilhação nacional de um povo ocupado pelo estrangeiro, bem como a espera messiânica duma comunidade incapaz de resolver os seus destinos.” (SECS, 1978, obra citada)

Das praças marroquinas que detinha à data da batalha, Portugal só voltaria a recuperar Tânger e Mazagão, já que Ceuta ficaria até aos nossos dias nas mãos de Espanha. Tânger seria oferecida em 1662 à Inglaterra como dote do casamento da princesa Catarina com o rei Carlos II e Mazagão seria abandonada em 1769 e a sua população transferida para Vila Nova de Mazagão na Amazónia.

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O Forte das Cegonhas de Larache, construído por prisioneiros de Alcácer Quibir

Quanto aos cerca de 16.000 prisioneiros de Alcácer-Quibir, muitos foram resgatados, outros encarcerados e utilizados como trabalho escravo, mas outros, os que se integraram na sociedade marroquina, exerceram funções importantes nas obras públicas, no exército e na administração.

Marc-André Nolet atribui uma importância capital aos renegados portugueses convertidos após a Batalha de Alcácer Quibir, afirmando que foram utilizados pelo Sultão Ahmed El Mansour na construção do Estado marroquino moderno e na própria garantia da independência de Marrocos face aos turcos e espanhóis:

“Ele utilizou renegados como funcionários, militares, governadores, enfim, como homens para todo o serviço no Estado. Os fundos de que dispôs graças à Batalha dos Três Reis, combinados ao grande número de cativos que resultaram dessa batalha e aos aprisionamentos feitos no mar pelos corsários, deram-lhe uma base sólida para atingir os seus fins. O Estado teve aliás algum sucesso e Marrocos resistiu, do século XV ao século XIX, tanto ao imenso Império Espanhol, como ao imenso Império Otomano. Nenhum dos dois titans conseguiu pôr a mão no país que estava, contudo, situado entre os dois rivais”. (NOLET, 2008, pág. 109)

Do lado de Marrocos, o grande legado de Alcácer-Quibir foi sem dúvida a afirmação da sua independência nacional e unidade territorial.

“Para os cronistas árabes ao serviço do vencedor, Ahmed al-Mansur Saadi, que era irmão do rei morto, tratou-se de construir uma memória oficial exaltando a vitória sobre os cristãos, mas marcando igualmente a independência do príncipe saadi em relação ao sultão otomano.” (ROYAL MOROCCAN ARMED FORCES, 2007, página electrónica citada)

Bibliografia:

HENNINGER, Laurent “La bataille de l’Alcazar Kébir, 4 août 1578 : un épisode oublié de la “révolution militaire” des Temps modernes”, Revue historique des armées, nº 235, 2004

LOPES, David. “A Expansão em Marrocos”. Editorial Teorema, Lisboa, 1989 (Publicação original BAIÃO, António, CIDADE, Hernâni e MURIAS, Manuel . “História da Expansão Portuguesa no Mundo, 3 vols. Editorial Ática. Lisboa, 1937)

MARQUES, A. H. de Oliveira. “História de Portugal”. Edições Ágora, Lisboa, 1973

MORENO, Humberto Baquero. “O Infante D. Henrique: Uma Vida de Descobrimentos”. Jornal de Notícias, suplemento de 4 de Março de 1994

NEKROUF, Younès. “La Bataille des trois Rois”. Albin Michel. 1984

NOLET, Marc-André. “Les Rénégats: Leur Constribution à la Construction de l’État Marocain du XVI au XVIII Siècle”. Université du Quebec à Montreal, 2008

ROYAL MOROCCAN ARMED FORCES. ”La Bataille des trois Rois”. Auteur invite. 27.09.2007. http://far-maroc.forumpro.fr/t961-la-bataille-des-trois-rois

SECRETARIA DE ESTADO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL (SECS). “O Sebastianismo: Breve Panorama dum Mito português”. Terra Livre. Lisboa, 1978

SOUSA, Luís Costa e. “A Batalha de Alcácer Quibir 1578. Visão ou Delírio de um Rei?”. Pedro de Avilez Editor, Tribuna. Lisboa, 2009

WIKIPEDIA. “Bataille des Trois Rois”. Página actualizada em 07.11.2016. https://fr.wikipedia.org/wiki/Bataille_des_Trois_Rois#Nekrouf1984

Comments

  1. jorge fliscorno says:

    Excelente!

  2. Excelente.
    Gostaria no entanto de um esclarecimento sobre o início das hostilidades. Li ou ouvi que teriam aconselhado Sebastião a esperar, uma vez que o rei de Marrocos estaria em agonia e logo morreria, o que desorientaria as suas tropas. Sebastião não esperou e atacou de imediato. Que verdade há nisto?
    Considero que Portugal morreu em Alcácer Quibir. Portugal (com poucas ou nenhumas probabilidades de ser um reino) começou por vontade de um homem que se fez rei. Terminou pela vontade de outro homem/rei. Dir-se-ia um suicídio, terminada que estava a missão de Portugal (aqui entramos na esfera mística). A partir daí fomos colónia castelhana e, depois, colónia inglesa, até sermos hoje colónia franco/alemã.

    • Frederico Mendes Paula says:

      De acordo com a pesquisa que fiz o sultão Abdelmalik estava de facto enfermo à data da batalha, mas os factos são narrados de diversas formas. Há autores que dizem que ele permaneceu na sua liteira durante a batalha e sucumbiu no final dela. Outros dizem que ele mesmo doente saltou para o seu cavalo e liderou o combate inicialmente, após o que morreu. Outros dizem que ele já estava morto no inicio da batalha, mas o seu lugar-tenente Redouan ocultou o facto para não desanimar as tropas. De qualquer forma parece-me que se tratou de uma batalha em que as tropas marroquinas estavam muito motivadas, não só pela recente unificação do país, como pelo facto de lutarem directamente contra um rei estrangeiro. Caso Abdelmalik tivesse falecido uns dias antes da batalha o seu irmão Ahmed al-Mansur, futuro sultão, tomaria o seu lugar.
      Quanto à morte de Portugal em Alcácer-Quibir, concordo que o país nunca mais foi o mesmo…

  3. José Galhoz says:

    O texto sobre Alcacer Quibir é muito elucidativo, mas teremos de ser cuidadosos nos paralelos com a actualidade. É evidente que temos agora novos colonizadores (com os alemães em destaque); numa “união europeia” tão desigual e com mecanismos de “desenvolvimento” à medida dos mais ricos, era inevitável a presente situação, para Portugal e muitos outros. Quanto a mim, a diferença reside aqui – como a riqueza não chega para todos, mais dia menos dia, muitos países vão sentir essa colonização na pele e talvez se rebelem a valer (em vez de insistirem no slogan idiota de que “não somos a Grécia”).

  4. Frederico Mendes Paula says:

    4 questões se me colocaram ao escrever este artigo:
    1. o carácter voluntarista, mimado, irresponsável e despótico de D. Sebasti-ao, que faz lembrar muitos políticos actuais que por serem eleitos sabem tudo sobre tudo.
    2. a forma seguidista e resignada com que o país seguiu este louco…fez-me lembrar outros momentos da história em que um povo caminhou para o suicidio como os carneiros para o matadouro.
    3. parece-me muito obvio que houve “mão espanhola” nesta história, apesar de Felipe II inicialmente ter apoiado D. Sebastião.
    4. e se Alcácer-Quibir tivesse sido ganha? Mulay Mohammed entregava as praças a Portugal? e se entregasse o que faria Portugal com elas, tendo em conta que 30 anos antes as tinha abandonado por incapacidade de as gerir?

    • Daniela Major says:

      Caro Frederico:

      Esse ponto 3 interessa-me, até pela natureza dos meus interesses. Podia desenvolver um pouco mais? De resto muito bom texto.

      • Frederico Mendes Paula says:

        Cara Daniela
        A “mão espanhola” em Alcácer-Quibir é para mim evidente. O facto de Felipe II não apoiar D. Sebastião na batalha significava que tinha a ganhar com a sua derrota, já que abria caminho à sua proclamação como rei de Portugal. Não esquecer que após a batalha utilizou inicialmente o suborno dos nobres portugueses como arma, mas no final preparou um exército comandado pelo Duque de Alba para tomar o poder pela força. O que não é tão evidente, mas não deixa de ser verdade, é que se Felipe II não apoiou D. Sebastião é porque os turcos não constituíam uma ameaça para Espanha, ou seja, ele tinha um acordo com os turcos, provavelmente já estabelecido após a batalha de Lepanto de 1571. E de facto após Alcácer-Quibir os turcos deixam de ser uma ameaça, seja para a Península Ibérica, seja para as praças de Ceuta, Tânger e Mazagão. Inclusivamente foi de certa forma suspeito o papel de mediador que ele teve no pós-batalha ao nível do resgate de corpos e de prisioneiros. Uma coisa é certa _ a grande ameaça turca ao Mediterrâneo Ocidental desvaneceu-se com a perca da soberania de Portugal.

  5. Excelente artigo, obrigado. Por culpa destes posts estou agora a ler este livro, serve para nos abrir os olhos a muitas realidades que nos são escondidas ao longo de toda a vida.

    • Também estou de acordo com a dívida que temos para com a civilização islâmica. Mas venho sempre em defesa dos meus. É preciso não esquecer que a Europa ficou destroçada, a uma escala hoje inimaginável, após a queda do império romano. Ficou também sem acesso aos grandes centros do saber antigo. O mundo islâmico ocupava todo o território desde o Afeganistão até ao cabo da Roca, e viajavam muito neste vasto território onde estava o saber antigo. A Europa chafurdava nos pântanos dos seus vales e florestas. Mas no século XII era já uma luz que se acendia, mesmo antes da renascença. É preciso cuidado porque nestas coisas também há ainda muita propaganda, tal como esse epíteto de “Dark Ages” que os americanos adoram.

      • Frederico Mendes Paula says:

        Caro Xico
        As civilizações vão e vêm ciclicamente e todas elas dão os seus contributos para o progresso da humanidade e para as suas misérias. Não há bons nem maus, e todos são bons e maus.
        Relativamente ao sentimento de pertença que exprime quando fala dos “meus” é evidente que cada um sente quem são os seus. Eu pessoalmente sinto que os “meus” são os do Sul da Europa e do Norte de Africa. No fundo, os herdeiros das civilizações do Mediterrâneo. É aí que encontro as minhas raízes e afinidades. A Europa em si não me diz absolutamente nada.

  6. Foi bom pra eles, foi mau pra nós, todos os povos cometem erros durante a sua existência, mas não acho que seja o Sebastianismo que nos prejudica hoje em dia, e essa história do triste fado e do nevoeiro, não passa de treta, aqui o que falta são homens de verdade, que governem este País, pelo País e não pelos interesses deles, isso era o que se devia invocar todos os dias, denunciar tanta ladroagem e deixarem-se cá agora de Sebastianismos, anda aí muita gente que nem sabe o que isso é, além disso o pobre Rei actuou por PATRIOTISMO, estava era mal dirigido, e devido há sua juventude deixou-se arrastar para aquela ‘aventura’ desventura!!! PASSADO!!! vamos é falar do agora, do futuro que isso é o que é importante, alguém tá lá agora h espera dum D. SEBASTIÃO??? eu acho que quem fala nisso é que está saudoso desses tempos! ponto final por hoje, e vamos ver a realidade com olhos de ver!!! Boa Noite:)

  7. Frederico, vim aqui consultar pequenos dados que me interessam para uma história humorística.
    Todavia, fiquei impressionado com o seu ponto de vista em relação aos “nuestros hermanos”… igualzinha à minha….
    Um Abraço.

  8. Henrique says:

    O que era interessante aqui de pensar era do quanto a história seria diferente se D.Sebastião não se armasse em xico-esperto e tivesse ganho a batalha. Quais as consequências para o Norte de África? Onde é que parariam estas conquistas? Veriamos a relatinização e recatolicização do Magrebe? Interessante fazer o jogo dos ses.

    • Frederico Mendes Paula says:

      Ganhar a batalha, se é que isso alguma vez seria possível, não significaria ganhar a guerra. À data da batalha Portugal já tinha evacuado 9 das 12 praças que tinha na costa de Marrocos por incapacidade de as gerir. Como disse David Lopes “um reino português em Marrocos era um sonho irrealizável, com os nossos parcos recursos em gente e dinheiro”. Convém também não esquecer que o objectivo da batalha era colocar no poder o anterior sultão destronado.

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  3. […] Sebastião invade Marrocos e no seguimento da derrota na batalha de Alcácer-Quibir Portugal é integrado na coroa […]

  4. […] Com a derrota do grande exército português (04 de agosto de 1578) e seu aliado marroquino,  o jovem e valoroso rei não mais foi visto, nem seu corpo. Com as despesas da guerra,  pagamento do resgate dos cativos de guerra (16 000 soldados) e a morte do rei, que não deixara sucessor, gerou-se um vácuo de poder e grande embaraço no quadro político da Metrópole. Logo anos depois Portugal é dominado pela coroa espanhola por 60 anos.   […]

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