O problema dos políticos: deram-lhes colo, quiseram mais mama

Nos anos 70 fazia-se política por causas e com paixão. Podem os mais novos duvidar mas era assim, à esquerda e à direita.

Depois veio a década de 80 e cada um (embora nem todos) se fez à vidinha, tratando de pensar em si e desistindo de lutar também pelos outros. Nessa altura os partidos do poder viram-se perante um problema: era preciso um estímulo financeiro para segurar os bons quadros, as tais elites que fugiam para as empresas. Ou lhes pagamos, ou ficamos com os medíocres, afirmavam.

E assim nasceram as mordomias, o aumento dos vencimentos pelo exercício de cargos públicos, e a cereja: subsídios vitalícios e de reintegração. Fazes uns mandatos e ficas com uma base para toda a vida, pá.

Santa ingenuidade, rapidamente se percebeu que os tais estímulos eram inúteis quando ex-ministro se tornou na mais rentável profissão do mundo. Não se seguraram as míticas elites, antes a força magnética do tacho atraiu o que de pior pode haver: gente medíocre, oportunistas em grau superlativo, canalhas puros e duros, alguns hoje caídos em desgraça, o que nem sequer corresponde a  terem sido os piores.

O poder local reproduz o nacional e a vida partidária ficou semeada de cunhas, dos empenhos para o emprego do meu filho, veja lá que o rapaz até tem um curso, etc. Ao mesmo tempo as tais elites, no fundo o típico empresário chico-esperto, trataram de comprar os que estavam à venda, e esses eram quase todos; aliciaram-nos com regalias, tiveram os políticos que mereciam, ou estavam à espera que sobrasse alguém com cheiro de santidade e querendo contribuir para o bem-comum?

À margem ficou o PCP, e mais tarde o BE, agarrados a um princípio sagrado: em política só valem os que lutam por uma causa sem da sua militância retirarem lucros, e os seus deputados mantêm o vencimento que recebiam no anterior emprego. Claro que meio mundo desconhece este facto e levam injustamente por tabela quando agora nasce a raiva geral contra os políticos. Danos colaterais provocados por uma comunicação social que sempre foi a voz do dono, dono que nunca entendeu esta espécie de frugalidade franciscana, num mundo onde a ganância desmedida é cultura.

Agora que muito nevoeiro se dissipa, a pergunta é: vai continuar a votar em quem faz da política mamadeira, ou ainda falta muito para abrir os olhos e podemos voltar à política como maioritariamente se fazia na década de 70?

Comments


  1. Infelizmente viajar no tempo faz parte apenas do nosso imaginário. Be we can dream, can we?


  2. I mean, “But we can dream, can we?”


    • Não é bem assim meu caro: certas circunstâncias mudam a atitude das pessoas. Vi um povo submisso virar um povo revoltado em poucas semanas. E a despeito de todos os disparates, de toda a repressão que ainda vivia debaixo da pele de cada um, do analfabetismo, das dificuldades de comunicação em todos os sentidos, muita coisa mudou.
      Não pretendo viajar no tempo, mas sei que são essas circunstâncias históricas que determinam o comportamento do humanos. E a História chegou a um ponto em que é isso, ou viajamos mesmo mas até à década de 30.

      • Carlos says:

        Não se precipite: já viu em que deu a tal revolta? As coisas não são assim tão lineares…


  3. Culpar única e exclusivamente os políticos corruptos e oportunistas pela situação actual do nosso país e dos outros é altamente redutor.
    Os políticos são apenas um elo fraco, muito fraco, numa cadeia de eventos que nos está a arrastar para a próxima guerra. Paulatinamente foi delineada e implementada uma estratégia que visa subjugar as populações aos interesses de uma elite que embora pertencendo a um clube restrito não hesita em partilhar um pouco dos seus recursos para mobilizar mais candidatos para a sua causa.
    Quer gostemos ou não de teorias da conspiração a verdade é evidente. Assistimos dos dois lados do Atlântico a manobras concertadas para condicionar e controlar as populações. Hoje é mais fácil fazê-lo recorrendo à economia do que pela força das armas. Aliás estas ainda continuam a ser utilizadas apenas em situações em que não foi possível trazer para o sistema a classe dirigente desses países.
    A corrupção da classe política é apenas um meio de manter condicionada essa mesma classe e obrigá-los a cumprir a agenda que lhes foi destinado cumprir.


  4. Está cheio de razão, infelizmente.

    Só para completar: e os seus deputados mantêm o vencimento que recebiam no anterior emprego ficando o Partido com o resto.

  5. Buiça says:

    Deixemo-nos de romantismos.
    Quando se fazia política com paixão o país faliu, insistia em gastar mais do que tinha e entrou em bancarrota.
    Logo em 77 e depois, como a paixão não abrandava, de novo em 83.
    3 anos depois entramos na CEE e começamos a receber ajuda externa a fundo perdido de modo regular, passa a haver para todos e em vez de paixão são precisos caldinhos para “bem” a distribuír.
    Por volta do ano 2000 dois fenómenos: por um lado o dinheiro deixou de ser gratuito e por outro vamos entrar no Euro tornando impossível camuflar incompetências com batota no valor da moeda.
    Caldinho são sempre coisa que não acaba sem violência então toca a endividar o país para os manter.
    Pelo caminho algum desapaixonado deve ter feito alguma coisa menos errada na gestão do país que desta vez demorou quase 10 anos a chegar à bancarrota do costume.

    Entretanto o muro já caíu há mais de 20 anos, “esquerda” e “direita” são relíquias que vão servindo apenas para entreter em lutas ridículas quem se recusa a tratar do essencial, que é gerir bem o país.
    Não é propriamente uma ciência oculta, há que saber quanto o Governo tem por ano e onde o vai gastar.
    Se o gastar todo em salários dos governantes é a cleptocracia e não há nem saúde, nem educação, nem polícia, defesa ou justiça.
    Se gastar um bocadinho em cada uma destas funções públicas e não sobrar mais nada, já não é mau de todo.
    E por aí em diante.
    Pelo caminho se deixar os cidadãos em paz para empreenderem o que bem entenderem na procura do conceito de felicidade de cada um, desde que paguem os seus (razoáveis) impostos, tanto melhor.

    Agora estamos falidos outra vez e é bom lembrar que estamos a receber ajuda do exterior para manter minimamente o nível de vida. É fácil de ver que só nos livramos deles quando o nosso Governo reduzir os gastos ao nível da receita que consegue angariar.
    Ora com os cortes todos para 2012 ainda vamos ficar curtos, ou seja com défice, sendo que ainda por cima grande parte dos cortes são extraordinários e não se repetem.
    É fácil perceber que até chegarmos a um honroso zero a zero, temos uns 10 anos de emagrecimento da despesa do Estado pela frente.
    Será que vamos todos empobrecer? Quem depender do Estado, sem dúvida, e quantos mais dependerem mais demorada será a tarefa!
    Quem não quiser dar o seu contributo ou prefira enriquecer que se faça à vidinha: tenha uma ideia e aposte nela, procure fazer mais e melhor e ser pago por isso por quem esteja disposto a pagar, etc.

    Ah, e espero que já tenhamos aprendido pelo menos isto: cada vez que se elegerem incompetentes para gerir os dinheiros públicos, são mais 5 a 10 anos de sofrimento adicional para todos. Tal como não me parece que o actual Ministro da Saúde tenha sido um desses casos quando esteve à frente dos Impostos, também o Ministro Gaspar não me parece incompetente. Veremos se os deixam trabalhar, pelo menos têm o mérito de olharem para os problemas de frente. Sem paixão, se quiserem.

    Cumps,
    Buiça


    • Eu também gostava de viver num mundo assim, sem a crise de 73 e suas recidivas, sem sistema financeiro mundial, sem bancos descapitalizados, etc etc.
      Era tudo mais fácil de entender, pois era.

    • Carlos says:

      Inteiramente de acordo. Só espero é que não sejam precisos 10 anos para arrumar a casa, mas que vai demorar tempo, vai.

  6. Fernando says:

    Eu creio que não estamos a arrumar a casa. Talvez a por uns moveis em local que não estavam e a tirar outros para outro local.
    Nao se esta a atacar o mal nacional pela raiz, mas sim apenas pela rama.
    Portugal nao tem dinheiro, coisa que toda a gente sabe. Todavia continua-se a pagar pensoes elevadas etc.,despesas astronomicas com a Assembleia e Presidencia da Republica. Seria exaustivo inumerar aqui o que tem de ser eliminado ou alterado. No Pais onde vivo ( com um sub-solo rico e nao so) a pensao que o Governo paga tem dois escaloes: um para casal e outro para single. Se um trabalhador atraves do seu trabalho acumulou riqueza, pura e simplesmente nao tem pensao alguma.
    Em Portugal isto geraria uma revolta. Mas vao preparando as armas….

  7. moimeme says:

    pcp??? ahahahah…. os que eu conheço ou são sindicalistas e ajudaram a afundar fábricas que estavam à rasca, sem nunca vergarem a mola ou são funcionárias públicas que nos dias de greve picam o ponto e passam o dia a moer a pinha a quem não quer fazer greve…. (note-se que quando faço greve não ponho os pés no meu local de trabalho, é simplesmente asqueroso armarem-se em defensores dos trabalhadores quando fazem parte e dependem do sistema vigente para alcançarem proventos e alcavalas…)

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  1. […] roubada a um artigo do João José Cardoso altamente recomendado no âmbito das origens da problemática da mordomia […]