O terrorismo começa na infância

mizade

Vários conceitos são debatidos hoje em dia em relação à infância. Cronologia da vida que começa aos quatro meses da conceição do ser e acaba, no dizer dos meus santos padroeiros, por outras palavras os cientistas que leio e debato, pelos quatro ou cinco anos. Com a entrada da criança no entendimento da História, na racionalidade de não ser o único na terra, nem o mais amado entre todos os seus pares e/ou membros de família. Em síntese, no entendimento de ser mais um membro do grupo social que o acolhe, ama, forma e educa ou faz dele um membro da heterogeneidade social.

Época em que começa a entender que há os bons e os maus seres no grupo que lhe cabe viver, os de mal comportamento social por causa da sua educação, classe social, os sem alternativas para saber ser solidários, usando a sua liberdade ou livre alvedrio ou resolução e determinação da vontade; arbítrio, sendo um parecer, juízo, opinião, vontade, determinação (que não dependem de regra, praxe ou lei, mas da prudência ou retidão.retidão.retidão da pessoa). Debate sobre arbítrio que se tem prologado durante séculos no Ocidente. Começando nos Evangelhos cristãos e na teoria patrística dos fundadores da fé cristã, como o Bispo Africano, cidadão romano, Agostinho de Hipona, quem escrevera em 412 da nossa era o livro A Cidade de Deus, lido por mim na versão de 1988, Editorial Porrúa, Argentina. Esta entrada na História coloca ao ser humano num problema, um dilema: tem ou não liberdade para se comportar entre os seus pares de forma igualitária, ou todo comportamento é ditado pela divindade? Para a infância, o caso é menos problemático, especialmente antes de começar o seu uso de razão: tem adultos que opinam, ditam, definem o comportamento. Para a infância a divindade mora no lar. O assunto é a decisão: ou faz como entende, o faz como é definido pelos mais velhos. Fazer como entende, deriva da sua interpretação do mundo, fundamentalmente diferente a os ditada dos que sabem e aprendem no decorrer do tempo. A infância não tem experiência para seu agir de solidariedade mecânica, nem está capaz de se comportar de forma orgânica. Por esses motivos, não é apenas corrigido, bem como pode ser punido, com essa ideia do adulto que as palavras com sangue entram.

 A criança entra na História com corpo e sentimentos de simpatia e antipatia para os seus pares. Ou apenas com sentimentos românticos de solidariedade simpática perante factos que não entende.

Não consigo esquecer o fuzilamento de um delinquente: tinha eu cinco ou seis anos, ele, 40. Era para mim um herói nacional apenas pela tristeza que causava no meu entendimento e sentimento o poder de outros, mais bem formados, lidos e estudados. Eu tinha lido Shakespeare, Mitos Gregos, Dickens, Neruda, Mistral, aliciado pelos doces pais de um querido lar. Face ao homicida que não sabia ler nem escrever e não tinha trabalho. O seu saber era beber e bater: a palavra [1]Tucho Caldera era a alcunha do seu nome, sendo tucho uma munição ou bala de grosso calibre.

 Era o meu herói apenas hoje e dia entendo porque, carecia de sentimentos emotivos: nem soluçou na leitura da sentencia de morte dos Doutos Magistrados do Tribunal da Burguesia que comandavam o país. A sua vida não foi fácil, abandonado pelo pai primeiro, mal tratado pela mãe a seguir, um Chaplin do Século XX. A sua escola foi a rua, a luta com os iguais, a mendicidade, a fuga ao saber denominado erudito ou, como gosto dizer, ao saber público que faz de um ser humano uma entidade obediente à lei. Se assim não fosse, seriam os orfanatos, a cadeia para menores, escola de aprendizagem da pedofilia e da homossexualidade. Dois conceitos que os meus santos padroeiros não apenas tinham condenado, bem como denominado de aberração sexual. Talvez, até ao dia de hoje, pelos Católicos Fatimizados que habitam a nossa terra ou pelos industriais capazes como dizem Gracchus Nöel Babeuf no seu Manifeste de Plébéiens (1785); Sylvian Marechal, no seu Le Manifeste dês Égaux (1795); Marx e Engels no Le Manifeste Communiste (1848) o Menchevique Durkheim (1885) no seu Manifesto Socialista (1924) que criticam um segundo conceito: o saber dos proprietários dos meios de produção em retirar a mais-valia do resultado do trabalho dos que nada têm, exceto a sua capacidade e força de trabalho e muita família que possa juntar bens e uma certa riqueza no viverem juntos e compartilharem o teto e a panela, como disse Jack Goody em 1996.

Manifestos não aplicados à vida do Tucho Caldeira, o meu herói, como entendi bem mais tarde, após ter lido os manifestos referidos antes. Babeuf um homem que lutou pela igualdade, foi guilhotinado pelo seu manifesto, Marechal foi expulso do partido de Babeuf, os Jacobinos e exilado, Marx na pobreza e fora do seu país, alcoolizado. Todos tinham começado as suas vidas num berço de ouro e acabam da forma proscrita que relato. O Tucho Caldera não tinha mais alternativa que a de ser criminoso, como criminosos eram considerados os sábios citados antes. É evidente que os atentados contra a vida social eram diferentes, mas não era isso o que a burguesia pensava: todos atentavam contra as suas posses e deviam morrer da forma mais canibal possível.

É assim que o terrorismo nasce na infância. No meio da obediência à lei, à família, à interação, especialmente, às ideias religiosas. As que ordenam uma subordinação que mata o inimigo, de outras ideias, os de outras práticas sociais, de outros comércios. Os que, por defenderem a sua causa divinizada, fazem o bem enquanto organizam as formas de trabalho que permitem o pensamento e a definição de outros conceitos mencionados no começo de este texto. A defesa que os pais precisam organizar, à Friedman, é estar perto do sítio no qual a sua criança cresce. A divisão do trabalho, definida em 1892 por Durkheim, passa dos liberais e socialistas para os que trabalham para sustentar a casa, os que organizam comités de vigilância e evitam o assalto ou atropelo das suas crianças e docentes. Os Direitos Humanos não apenas definem a integridade da pessoa, bem como a vida sem temor, livre, longe do medo vivido por todos nós em datas como as do 11 de Setembro.  

Dickens, Shakespeare, e todos os citados, não são sujeitos do que a minha antiga estudante, hoje Ministra da Educação, gostava de ver: uma população capaz de perceber a História pelo entendimento dos seus acontecimentos, pelo facto da arrogância de um dos seus grupos que ataca primeiro por causa de uma riqueza, ataque ripostado, e a organização de um imenso grupo de países, maior do que no Século XIX que entra em luta. O Século XVII é a libertação da submissão do ser humano ao ser humano, o XIX o da delimitação de fronteiras de Países e Identidades, o século XX a apropriação possível da mais-valia, enquanto o século XXI que começamos, a aprendizagem da defesa pessoal pelos próprios membros da família.

A arrogância e a raiva começam na infância, da forma que analisamos com Alice Miller em The Natural Child Project. A criança natural é a que atropela até a sua submissão. O motor de partida é o erotismo insatisfeito que é aprendido ao entender a História. Especialmente com o desenvolvimento do conceito resiliência, do que vamos tratar em outro texto.

É assim que o terrorismo é reconhecido na infância: é um conceito múltiplo, heterogéneo, aplicado conforme as conveniências de quem tem o poder e faz de seres abandonados pela História, criminais. Terrorismo começa na infância, no por o comportamento das crianças, mas porque, em quanto crescem, a luta de classes continua. Há os sábios penalizados por conveniência dos que mandam, há os que matam porque assim aprenderam a vida. O Tucho Caldera fica no meio dos próceres que atentam contra o que é deles e do seu lucro…


[1] Carnicero de San Felipe eliminó brutalmente a su “amigo” en 1947 para apoderarse de su abultada fortuna
El Tucho Caldera asesinó y cortó en 19 partes a empresario árabe
Sádico homicida utilizó documentos falsos para casar a su hija con el veterano palestino, dueño de un emporio de telas. Lo enterró oculto en cajitas de sombreros
Marcelo Garay V .A história pode ser lida no Jornal La Cuarta de Agosto de 1947, em: http://www.lacuarta.cl/diario/2006/06/14/14.06.4a.CRO.CRIMEN.html

 

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