Deja-vu

Cresce aqui todos os dias a preocupação pelas consequências do implante de próteses mamárias de baixa qualidade : No Reino Unido são já cerca de 50.000 as mulheres que vão ter de arranjar meios para as remover e estima-se que no resto do mundo sejam mais de 300.000.

Começa compreensivelmente na Imprensa o clamor para que o fabrico desses implantes   passe a ser severamente regulado : Prova-se mais uma vez que confiar em que os escrúpulos morais se sobreponham à ganância pelo lucro  pode ter efeitos dramáticos para tantas vidas.

A empresa fabricante desses implantes , a francesa PIP , é um novo Lehman Brothers ,   mas agora num campo que se julgava ainda sagrado : Um roubou as carteiras , esta sem qualquer pejo arriscou a saúde de tantas mulheres para no final do ano apresentar cada vez melhores resultados financeiros .

E se a miragem do crédito fácil arruinou povos e estados , vê-se agora que a procura a qualquer preço da beleza física pode ter efeitos não menos devastadores mas , quer num caso quer noutro , é na falta de valores da Sociedade que devemos procurar a última responsabilidade.

A medicina estética tornou-se uma poderosa industria e muitos médicos a servem  e dela se servem  . Retocar , cortar ou aumentar o corpo , tornou-se mais do que uma moda , tornou-se uma mania colectiva . Em certos círculos o não ter feito várias plásticas é para as mulheres um motivo de embaraço . Eu conheço algumas que mudam de visual de tal maneira e com tal rapidez que , se não fosse a minha idade me  desculpar pela falta de memória , passaria pelo constrangimento de não  as reconhecer .

Tudo isto me fez lembrar uma história contada há tempos por Jonathan Sacks, o Rabino-Chefe da Comunidade Britânica .  Conta ele que nos tempos bíblicos havia duas escolas talmúdicas em Israel : A Escola de Shammai e a de Hillel ; Os seguidores da primeira eram conhecidos como brilhantes pensadores , mas também  por serem algo teimosos e irredutíveis. Pelo contrário os de Hillel eram tolerantes e pacientes na defesa dos seus pontos de vista . Um dia um aceso debate  separou-os  em posições que  não pareciam conciliáveis ; Nas cerimónias de casamento judaicas havia que proclamar : “A noiva é bela e graciosa …!”

Os de Shammai argumentavam “E se não é ?” , “Estaremos a mentir!” . Ao que os de Hillel retorquiam “No dia do casamento , aos olhos do noivo , toda a noiva é certamente bela e graciosa ! “

Diz Lord Sacks que felizmente foram estes últimos a ganhar o debate , e que a crença de que a verdadeira beleza não é a física , que se perde com o tempo , mas a espiritual que sempre perdura , se tornou desde então central na fé judaica como mais tarde também na  de Cristo . Creio mesmo não haver língua que não tenha o equivalente ao ditado português “Quem o feio ama…”

E como assim é , crentes ou não , todos deveríamos saber que sem amor não há verdadeira beleza ,  e que criar esta jamais estará ao alcance do bisturi .

manuel.m

Comments

  1. clara says:

    que raio de moralismo! como em tudo, quando há exagero, está mal.
    mas que mal tem, uma mulher que teve que tirar uma mama, querer, até por uma questão de equilíbrio, voltar a tê-la? mesmo postiça?
    o que está mal, é esses moinantes andarem a fazer dinheiro à custa da saúde dos outros. Mais nada. e se são médicos e consideram que determinada cirurgia pode prejudicar uma pessoa, que não a façam!!! se a pessoa é maluca e quer fazer plásticas atrás de plásticas, devia ter alguém consciente, o médico, que lhe dissesse: NÃO!
    Bolas! Não é vir agora com moralismos, já a virar tudo ao contrário, porque todas as mulheres querem fazer montanhas de plásticas e assim não dá!!!! Haja paciência. Essas malucas são uma minoria!!!! e malucos, já agora….

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