Antropologia da criança. Losotros haulamos doh’s idiomas

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Para Ana Paula Vieira a Silva, no dia do seu aniversário, Antropóloga que me acompanhara a escrever em português, antiga discente dos cursos noturnos que ela e eu apoiávamos, hoje amiga íntima. Como este texto, o primeiro escrito para a Página, no primeiro numero, no dia 28 de Setembro de 1998 comigo em trabalho de campo entre os Picunche, na Cordilheira dos Andes, altura Chile

1. É o que diz Marcelo Castro Morales, o puto de dez anos que estuda comigo. O puto, uma das quinze crianças a quem a escola C 40 de Pencahue permite pesquisar, comigo, no frio Inverno chileno.

Nós falamos duas línguas, o castelhano e a huasa. Viva polémica é desenvolvida entre todos, dentro da pequena sala que nos cederam para os trabalhos de análise para a minha investigação. Trabalho como o Director do Complejo Educacional de Pencahue, ou Escola C40 no jargão oficial, diz que é o meu trabalho com as crianças: ensinar o-não-sabe-o-quê desse estrangeiro, sábio Doutor, às 15 crianças, escolhidas de entre o melhor dos 1.600 estudantes do pré-primário à opção pré-universitária, da população de 9.000 habitantes dos seis sítios rurais e industriais pelos quais a comunidade chilena-picunche se estende em 1.000 Km 2 de superfície.

Quinze crianças que falam entre elas enquanto eu falo, que dão pontapés eles a elas, que elas delatam, que eles agarram, que elas ouvem, que eles já sabem, que elas ficam calmas, que eles se batem enquanto olham inocentes nos meus olhos, que…

Pegamos no caderno, no lápis e na borracha e vamos para a rua, hoje com nomes. De capitães. Do Conquistador do Chile, Pedro de Valdivia. Ruas que eles conhecem pelo nome dos seis espanhóis que o seu imaginário de 90 anos, lhe fantasiara que aí tinham andado.

E esses olhos pretos, das caras cor de óleo escuro, ficam brilhantes. De ir porta a porta pelas casas da vila central da espalhada comuna. E vão ficando surpreendidos quando entendem o seu contexto. É o que Marcelo Castro disse no primeiro minuto do nosso trabalho: nas suas casas ninguém sabia quem era a pessoa que dava nome à rua, assim como não sabiam a idade da casa. Mas, a Francisca Castro e outras das descendentes de Castro que aí moram, ocorre-lhe perguntar pela idade e genealogia da pessoa: o que Gustavo Cáceres, e Javier Muñoz, e Yarin Contardo repetem, batendo à porta de outros lares. Estes, de entre os quinze, de 10 e 11 anos, que o senhor Diretor mandou trabalhar comigo neste frio e cumprido Inverno. Os seus apontamentos, acumulam contradições entre o livro de texto do 5º ano básico e o saber cultural que orienta ideias, interação e disciplina entre adultos e infância. Que desloca a fala quotidiana do haulamos para a oficial do hablamos (falamos). Duas línguas, dois saberes.

2. Marcelo tem razão, falam duas línguas. Dentro das duas, mais outras duas, a huasa cheia de adjetivos que em público não e a jargão picunche, com esse som de soluços para ninguém entender. Pencahue, palavra mapudungum dos nativos picunche de Vale das Cordilheiras, foi abatida em 1569 pelos colonizadores judeus, mouros, ciganos, galegos, lusitanos, que a Coroa Castelhano-leonesa alastrou e conquistou na Península Ibérica desde o séc. XV. E que os, ignorados por eles, mestiços chilenos, denominam a Tera do Cabaço, na província e cidade de Talca, do original Tralca ou Trovão. Abatida em 1569 pelas armas, os seus 1.500 anos de saberes, ideias, tecnologia, a sua cosmovisão que regula a vida social, pela da poderosa aliança política da dita Coroa e a Tiara do Papado Católico Tridentino. Nada do dito, exprimido ou sabido pelos doutos investigadores-crianças, docentes, e futuros desempregados, ou discentes que não queriam estudar, porque não adiantava para o lucro da sua vida. Das ruas de Pencahue, e saber que íamos falar quatro línguas em duas, a castelhana oficial, a predominante castelhana do séc. XVI que troca L por R, e F por J, O por U ou a castelhana huasa com palavras mapudumgún e a das palavras proibidas que perderam hoje em dia a força de insultar devido a serem escritas e a ninguém se irritar pelo seu uso, porém, que me ensinaram uma língua que eu não conhecia: a chilena, que é mestiça.

Percorremos a área até chegarmos ao cemitério indígena de Huenchumali (irmão-irmã) a primeira redução dos nativos aí fechados para aprenderem a doutrina europeia, que Dalí tão lindamente desenhara nos anos 60 (vide a capa do meu livro de 1990 ª) Escher, hoje Fim de Século: Fugirás à Escola… ). Aí, nessa igreja de barro de 1569, no cemitério Picunche dos seus ancestrais espancados, violados, queimados, abatidos, acorrentados, estes meus quinze putos pencahuinos entenderam a diferença entre o que é preciso saber para ganhar dinheiro para se reproduzirem no neoliberalismo e o que é preciso saber para o convívio, a afetividade, a comunicação entre seres humanos que, ou conhecem a sua identidade, ou não conseguem os apoios emotivos da população da terra, para sobreviverem neste país, série de controlo de economias, saberes e medicinas, antes de serem usados na etnia etnocêntrica da Europa. É o que, com Paulo Freire, Meyer Fortes e Jack Goody, fomos fazendo, Antropologia da Educação, ou a análise in situ da formação do saber. Ao que o meu amigo Pierre Bourdieu resiste como domínio da Pedagogia. E que nós teimamos em aprender no convívio com a infância.

Doutor Raúl Iturra.

Professor Catedrático de Antropologia Social, I.S.C.T.E., Lisboa.

Membro do Senado da Universidade de Cambridge.

Professor Visitante da Universidade do Porto.

Professor Visitante do Instituto Profesional del Valle Central,

Talca, Chile (Convénio Chile-Portugal).

Pencahue, 20.08.98

Reescrito a 19 de Dezembro de 11

lautaro@netcabo.pt

Nota: este texto não foi revisto por Ana Paula, saio dum computador que quase nem força tinha para cruzar tanto vale, montanhas d pico de 7.000 mil metro, que João Paulo Serralheiro teve que adivinhar e telefonar pelos buracos negros que o texto continha. Assim foi publicado tal como foi enviado. É louvor para quem pesquisa entre Picunche, vê e escreve ensaio, experimenta enviar  e a generosidade do José Paulo. Uma façanha do investigador escritor, morto de frio nos Andes….

É o meu presente para Ana Paula que mal viu o texto, começou a fixar todos os meus até  o dia de hoje…

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