Presente para um príncipe

Bebé a dormir

 O príncipe dos bebés era largamente esperado. Nunca mais aparecia, nunca mais o casal era progenitor. Nunca mais eram pai e mãe. Até esse dia de começos de ano, em que o príncipe nasceu. Todo descendente é o príncipe do lar, nos tempos em que os matrimónios casavam para durar. Havia tempo para tomar conta dos pequenos ou crianças, ensinar, cuidar, fazer vez caso o príncipe da casa chorar durante a noite. Não havia separação de deveres: eram dois os progenitores, pelo que dois deviam tomar conta do largamente esperado bebé. Em desespero, a hipotética mãe fez uma promessa: se tiver um filho, chamar-se- ia como o santo milagreiro, como terceiro nome.

Primeiro tinha que ser o nome do pai, a seguir, o do pai do novo pai ou da nova mãe. Finalmente, o nome do milagreiro santo que tinha feito possível essa conversação de casados sem filhos, a pais cheios de crianças. Eram os costumes dos tempos. Costumes que despareceram não por falta de acreditar em divindades, mas pela invenção dos bebés provetas ou a descoberta da inseminação artificial, o milagre dos nossos tempos. Os costumes mudaram, mas obrigações mantinham-se firmes.

Às vezes acontecia em que um ou outro acalmavam ao bebé chorão que acordava durante a noite, não se podiam contar: ou por falta de leite – os bebés mamam abundantemente de duas em duas horas, ou por catarros pelo frio do tempo ou por contágio de outros filhos de amigos dos pais, a seguir era a dor das gengivas por ter a primeira dentição, até acabar com o bebé na mesma cama dos pais, quente, agasalhado e calmo. Era a volta ao ventre de mãe, com um pai vigiante que meio dormia para a mãe descansar. Hábito reprovado por qualquer adulto que, nestes tempos, passa a ser pai. O príncipe dos bebés tinha que aprender a sua autonomia para, mais tarde, ser um adulto que se souber defender dos ataques da vida. Desde a entrada a zona euro da comunidade de nações, todo ser humano precisa entender a sua forma de vida, deixar de gatinhar e andar a pé firme pelas vias dos financistas ou ser esse bebé um investidor quando for adulto.

Mas, apenas um bebé? Para andar só por essas estradas de vida chamadas lucro com mais-valia? Era necessária uma companhia quer para brincar primeiro, quer para se apoiar entre as alternativas que a moeda europeia manda: investir antes de ficar empobrecido no fim da vida, esse bilhete que nasce connosco no dia da nossa entrada ao mundo que é só o das finanças e lutas pelo lucro. Nada me custa dizer, que hoje em dia, não há famílias, há apenas corporações de investidores unidos por laços consanguíneos. A família acabou. É uma empresa, aliás, sempre o foi sem reparar que o carinho dos descendentes, é parte da sangria dos pais que devem fornecer moeda para a criança crescer como deve ser para desenvolver a economia da nação. Quem assim não acredite, cai em falência.

Falência que, no caso do príncipe dos bebés, foi salva pela rapariga que, anos mais tarde apareceu na vida corporativa do futuro investidor. Havia anos de diferença entre os dois, quase cinco. Diferença que ajudava a mais nova a entender a vida de uma forma diferente, saber lidar com a bancarrota e colocar o seu dinheiro no sítio certo e a hora adequada.

O príncipe dos bebés adorava essa companheira, a que denominava Irmã Chefe e ouvia as suas recomendações para um viver melhor. Apenas que o príncipe dos bebés não ouvia: queria apenas carinho e compreensão. Mal a viu na vida, a venerou. Não podia passar um segundo sem a bebé rainha. Com calma e compreensão, acompanharam-se na cronologia da vida e ouvia o que devia ser feito, a rainha bebé sabia como aconselhar e orientava ao príncipe nos afazeres da realidade. Realidade diferente: o príncipe gostava de poemas na vida, ela, de sarar aos doentes de dinheiro.

Os anos foram passando, os livros do príncipe cresciam, trabalhava imenso com crianças que sofriam de abandono dos pais, que antes que depois, os mandavam ao infantário e assim ficarem livres para a procura do lucro e tomar conta dos outros que vinham atrás dos primeiros a nascer. A família desapareceu, apenas poucas horas para estarem juntos. O santo milagreiro não podia fazer mais: sabia transformar a vida que não aparecia na mãe que pedia, mas de economia, nem meia página de Adam Smith de 1775, ainda menos de Marx e seus escritos de 1846, a sua afamada Ideologia Alemã, em que define a alienação, usado e louvado por Ratzinger ou Bento XVI e por muitos de nós, especialmente pelo pequeno grupo de políticos denominados de esquerda, mundo no qual em que depositamos parte da nossa soberania, que defendem o salário sempre recortado pelos ricos e pelos governantes que mandam em nós e fazem-nos morrer de fome e de dívidas. A irmã rainha soube-se acautelar, o príncipe dos bebés, nem por isso, vivia no mundo da luta pela solidariedade e fraternidade, que nada rende em mais-valia.

A bebé rainha foi um presente para o príncipe. Um presente de todo tamanho que, ainda que mais velho, a ouvia como se for um Mozart e a sua ópera A Flauta Mágica…  que gostava de ouvir, enquanto a bebé mais nova lia o jornal para se orientar nos seus investimentos. Folha que todos nós devíamos estar á par.

Jack Goody, Meyer Fortes, Malinowski, Durkheim, os meus santos padroeiros passaram a outra vida. E nós também….

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