As Imputações de Jerónimo

Não tenho dúvidas de que um dos efeitos perversos da austeridade é a morte apressada de muitos de nós  os mais velhos e as mais velhas  de repente confrontados com apertos imprevistos, limites de mobilidade para tratamentos e outras paredes mais altas no labririnto geral da sobrevivência precária de cada qual  medicação que já não se toma, alimentação correcta que já não se faz, gripe que passa a agudizar o mal crónico que os vai ceifar. Mas ontem, quando Jerónimo imputou ao Governo Passos essas mortes, essas microtragédias, recordei-me naturalmente que justiça, justiça, seria recuar ainda mais e não apontar o dedo oportunista nem à Troyka nem ao Governo. Se recuarmos no tempo e nos actores, imputaríamos tudo o que Jerónimo quisesse a esses que agora andam com pronunciamentos piedosos e sensibilidade na garganta. É fácil.

Comments

  1. eyelash says:

    para quem não é fácil é para o povo humilde. quanto aos outros, venha o diabo…

  2. eyelash says:

    para quê, andar a branquear as actuações sujas de uns com as actuações sujas de outros?!


  3. Sim, agora sentimos a falta de dinheiro, o trabalho inútil, o presente ameaçado e o vazio do futuro.
    Agora as consequências de décadas de doutrinas erradas fazem-se sentir e espelham na e pela sociedade os seus danos colaterais.
    Os adultos em idade produtiva explorados, obrigados a trabalhar demasiadas horas, não só as horas efectivas de trabalho mas também as deslocações do e para o local de trabalho e que não conseguem dar um acompanhamento parental aos seus filhos, crianças que são despejadas de manhã cedo ás portas das instituições encarregues de realizar a compensação devido ao facto dos pais estarem obrigatoriamente ausentes 10 a 12 horas por dia, compensação essa deficitária, originando uma geração auto-educada entre pares e programas de televisão.
    As crianças filhas da geração superprodutiva são vítimas sem a mínima consciência que o são, mas também o são os idosos, os pós produtivos, vítimas de uma sociedade que não tem espaço nem tempo para a sua existência pois são vistos como absorções de recursos, peças sobressalentes numa máquina imparável de renovação material.
    Morrem sós porque os seus familiares não têm tempo para cuidar deles, morrem sós porque a doutrina corrente não lhes dá valor, antes um empecilho ao equilíbrio orçamental apesar dos baixos rendimentos com que sobrevivem, morrem sós por que as instituições que os deviam acolher fazendo a tal compensação tornam a dignidade um luxo ou são insuficientes.
    As vítimas da geração superprodutiva somos todos nós porque é certo que transitamos por todas as fases da máquina produtiva.

  4. palavrossavrvs says:

    O povo humilde está para além da angústia, eyelash! Por isso deixa-se ir pela vida abaixo.

  5. palavrossavrvs says:

    Por isso é que as imputações são exercícios cínicos, embora a montante disto esteja políticas que determinam parte da nossa tragédia.

  6. palavrossavrvs says:

    A massa dos mais vulneráveis está exposta à roda dentada da despersonalização, Horizonte XXI. Parece que todas as políticas convergem na repressão de haver gente e consumo e impactos ambientais no planeta, condomínio só de ricos.

  7. joao says:

    Não estou a entender bem. Não se pode ser mais claro?

  8. joao says:

    Quem são os “esses”?


  9. Não tenho dúvidas de que um dos efeitos perversos da austeridade é a morte apressada de muitos de nós …ao contrário da agonia prolongada por anos que era anteriormente ministrada…vegetais sem actividade cerebral com 95 anos que eram dialisados

    operações às cataratas aos 98 anos?
    mortos cerebrais (um termo discutível ) acima dos 80 anos mantidos vivos artificialmente durante meses 36 meses num caso?

    intervenções cirurgicas de duvidoso valor e de problemática acrescida em gente debilitada com 80 e 90 anos?


  10. finalmente velhotas em emagrecimento rápido e desidratadas a quem é receitado medicamenta anti-colesterol ?
    quando já não fabricam o suficiente para repor membranas celulares?

    omeprazol porque têm de o tomar devido aos efeitos secundários do nimed sobre a mucosa…do piloro e afins?

    iste tá tude parvo ó quê?
    provavelmente é tudo ex-colegas do Pequito Rebelo (o neto, não o original)


  11. Esses são Seguro e a Esquerda da boca para fora.


  12. Tem-se criado uma certa ideia que a austeridade de agora é apenas e só uma consequência direta dos “erros do passado”…
    É uma ilação perigosa que desresponsabiliza de alguma forma os dirigentes actuais. Parte do problema que se vive já não é APENAS “herança”. É também já resultado do “trabalho” igualmente pateta dos que sucederam ao antes. Trabalho pateta, trapalhão, e até ridículo senão patético. Veja-se a anedota do Carnaval com o qual o “País” teve de suportar os custos de mais uma dia no calendário da despesa pública contra um retorno mais do que duvidoso…
    Além de medidas económicas e reformas no geral, governar implica também uma forte dose de motivação, apontar horizontes, alimentar a esperança, enfim, liderar! O poder atual especializou-se na castração, no discurso negativo, na expiação pública… O País reagiu fechando-se sobre si mesmo em contrição. O mercado interno contrai-se, as empresas fecham, o emprego vai-se… Assim, apontar a situação que vivemos exclusivamente ao passado além carecer de sustentação técnica é também uma leviandade falaciosa.
    Para mim, o “estado de graça” terminou…


  13. Recuar no tempo é necessário, porque quem não sabe História está condenado a repetir os erros do passado. Mas o passado não se pode mudar, enquanto o presente e o futuro podem. Utilizar erros passados dum actor para legitimar erros presentes doutro actor é bloquear o futuro.

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