A propósito de deslealdades

Confesso a incómoda náusea causada por essa espécie de epístola cavaquista, endereçada aos portugueses no prefácio do livro “Roteiros VI”. Ao estilo de carpideira, que chora o que não sente, o mais oco dos presidentes da actual república lamenta-se agora ter sido alvo de infame deslealdade por parte de José Sócrates. Invoca a violação do Art.º 201.º pelo ex-PM, ao omitir-lhe  a negociação e existência do PEC IV.

Sei desde longa data o que foi Sócrates, que Cavaco não demitiu. Tive o privilégio de nunca ter sido  seu apoiante ou votante. Ao contrário, fui crítico, aqui por exemplo.

Sinto-me livre de poder dizer que este enredo ao jeito de novela mexicana, a que ainda ultimamente o PR voltou a dar vida na visita ao navio-escola “Sagres”, é, como muitas outras novelas, um passatempo de mau gosto  e uma desforra política inoportuna e ofensiva para os portugueses.

Imagino Sócrates instalado em qualquer “bistrot” de luxo do Boulevard Saint-Michel, a saborear o revivalismo das tropelias passadas, em divertida tele-conversa com Silva Pereira. Como outros anteriores, incluindo o próprio Cavaco Silva, goza do estatuto de inimputável. Não é, de facto, o único.

Entretanto, por cá, essa plúmbea criatura chamada Cavaco, com ou sem Maria, saiu da Travessa do Possolo para promulgar as novas e mais restritivas normas de atribuição do subsídio de desemprego, ou seja:

  • Prazo máximo de 18 meses ou 26 meses para quem tiver mais de 50 anos de idade;
  • Redução do tempo de trabalho de 15 para 12 meses para requerer o subsídio – um ínfimo pingo de mel na medonha maldade;
  • Diminuição do valor máximo da prestação de 1258 para 1048 euros;
  • Inclusão no regime de subsídio de desemprego dos trabalhadores independentes que recebam 80% dos honorários de uma entidade – de notar que a duração de 12 meses é rara;

Bem sei que estas condições correspondem ao cumprimento do ponto 4.1 Prestações do Desemprego do ‘memorando de entendimento’ da troika, subscrito pelo triunvirato PS+PSD+CDS.

Todavia, também não ignoro que o Sr. Presidente da República teve conhecimento atempado do memorando. Estranhamente abdicou, desde o início, daquilo a que o próprio designou como “magistratura de influência”, quando sabia que, em nome do ‘Compromisso para a Competitividade e Emprego’, neste e em outros pontos do memorando, se visava o flagelo social de centenas milhares de cidadãos portugueses. Não estamos perante uma deslealdade presidencial grave? Claro que sim, Senhor Presidente!

Comments

  1. marai celeste ramos says:

    “Descansem em paz” como se diz a propósito de defuntos – o incómodo é que mesmo defuntos ainda dão pontapés

  2. Com papas e bolos se enganam os tolos…
    Este decorativo presidente não é mais do que um mero adereço numa peça de burlesco chamada democracia portuguesa.
    Por muito que alguns se esforcem em gritar aos ventos as iniquidades desta cambada política, parece que o povinho continua a afluir ao teatro de revista, bem mais fácil de digerir que os textos, do Becket ou Shakespeare.
    Por muito que nos custe (àqueles que gritam pela mudança) este é destino que nos está incutido no ADN. Parece que fomos sujeitos a uma manipulação genética e nos trocaram alguns cromossomas por outros provenientes do caracol.

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