Pôr os cornos


A imponente espanhola de família francesa, a fidelíssima Rainha D. Mariana Vitória de Bourbon, terá rejubilado, ruidosamente fazendo roçagar em fru-frus, as sedas do seu vestido de Corte versalhesca. Pelos salões do Paço da Ribeira, marcava-se então o novo passo da ordem, distanciando-se este assim do pretérito reinado joanino, onde as Pompadours lusas se enclausuravam em conventos, embora dentro destas santas portas, trajassem tão bem ou ainda melhor que a agora viúva Rainha D. Maria Ana de Áustria, igualmente gozando as delícias do conforto dos móveis, diamantes e outros luxos que os Magnânimo fazia chegar de Paris. Para nem sequer mencionarmos as mulas carregadas de lembranças que a Petronilha levou, quando D. João nela fartamente se rebolou. Bem vistas as coisas, bem podiam os lisboetas dependurar cornos sobre as entradas das igrejas e conventos, pois a bem do zelo pelo natural e humaníssimo furor uterino dalgumas donzelas involuntariamente votadas à clausura, a Majestade não resistia em sorver os prazeres discricionária e platonicamente reservados ao Senhor mais alto, ou seja, o guloso usufruto do enxame de freiras e monjas que faziam abarrotar conventos dentro e fora de portas.


 

Eis chegado ao trono D. José e naquele ano de 1751, o entusiasmado e culto Rei, ansiava pela boa governança de um Portugal que nos sonhos da sempre invejosa Europa, significava um inesgotável filão de ouro e diamantes brasileiros. As questões de decência imperiosamente surgiriam como um claro sinal de mudança ditada por um outro tempo e outra vontade. Isto, porque Lisboa, precisamente naquela área que após a reconstrução seria conhecida por “Baixa Pombalina”, foi pontilhada de tascas e tabernas de excelente má fama, onde se misturava uma inextricável amálgama de marujos, tropas a soldo, comerciantes, burgueses, um ou outro nobre disfarçado de comum mortal, e sobretudo por hordas de marafonismo, fosse ele genuíno e de leitosa e farta peitaça, ou aquele outro mais alternativo, de elevada estatura, barba mal disfarçada por cheirosos alvos pós e voz a fazer de fina num falsete, mas de cavernosa sonoridade. Enfim, em comércio de carniça de cama, Lisboa rivalizava com Londres e decididamente batia Amesterdão. Até os Inquisidores deste comércio o sabiam e a ele recorriam volta e meia.
Então, a 15 de Março de 1751, El-Rei decreta “contra o delicto de pôr os cornos”, verificando-se até à data uma profusão de cornaduras popularmente apostas “nas portas, e sobre as casas de pessoas casadas, ou em partes, em que claramente se entende se dirige este excesso contra as mesmas pessoas; e por desejar evitar estes delictos, de que resulta atrocíssima injuria áquelles, contra quem se comettem”… Assim exigia a tranquilidade pública e a quietação necessária entre os casados.
Botar cornaduras sobre as entradas dos actuais condomínios de luxo ou não, eis uma bela ideia que nestes nossos dias, transformaria Portugal numa colossal réplica de um qualquer anúncio de uma Ovibeja à escala nacional. Mais ainda, passando sobre memórias de outros tempos, talvez não fosse má ideia desatarmos a mosquear a cara para naquelas igrejas do nosso tempo, vulgarmente apodadas de Colombos, Vascos da Gama ou Amoreiras, declararmos a disponibilidade para isto ou para aquilo. Pois, já se sabe que para isso existe o bluetooth e a “chatroomaria” da internet. Se D. José sonhasse um centésimo daquilo que dois séculos decorridos os seus súbditos gozariam, talvez não se tivesse modestamente contentado com a capitosa marquesinha nova de Távora. Afinal, tanto alarido público e um ignominioso cadafalso erguido pelo faca-de-mato sem escrúpulos Pombal, por tão pouco.

Comments

  1. manuel.ferreira says:

    PORTUGAL É O MELHOR PAÍS DO MUNDO…
    Na INVEJA…há tanta que podemos exportar…
    Na MALEDICÊNCIA…todos adoram dizer mal de alguém ou de alguma coisa , mas poucos são capazes de propor algo concreto de positivo e construtivo…
    Na MESQUINHICE…pode estar 99% muito bom…que todos vão falar do 1% que não está bom…
    Na CULPABILIDADE…gostam sempre de encontrar os outros culpados pelo que está mal , e nunca assumem culpa própria de nada…
    Na RAIVA…daqueles que conseguem vencer , ter sucesso , ser melhores , ou sair da carneirisse habitual…
    Na CASMURRICE…são tão teimosos que ainda hoje acreditam no socialismo esquerdista que colocou os Russos , os Chineses , os Cubanos na maior das Misérias…e que esses povos já baniram dos seus países…
    MAS AGORA ESTAMOS EM 2012………O PRIMEIRO ANO DO NOSSO FUTURO GLORIOSO e por isso vamos todos mudar radicalmente para um NOVO PARADIGMA…
    PRODUZIR mais , melhor e mais barato…
    EXPORTAR o dobro das nossas importações…
    CRIAR novos produtos que o mundo inteiro quer comprar…
    INOVAR a forma de pensar , agir e olhar o mundo e as pessoas…
    DESENVOLVER uma nova filosofia politico-fiscal , única , inovadora e diferente …onde Trabalho Produção Poupança Investimento…NÃO PAGUEM IMPOSTOS INJUSTOS…e apenas hajam impostos sobre Consumo Poluição Vícios…esses sim justos…
    Enfim…..SER MELHORES…E FAZER MAIS….CRIANDO UM MUNDO NOVO ONDE O HOMEM CAMINHE LIVRE E RESPONSAVEL…

  2. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Manuel Ferreira – parece que não ouve nem vê nem pensa nem observa nem analisa nem anda neste mundo, e criou um mundo àparte de ilusão e cor de rosa – nada lhe bate à porta – não tem porta ?? até parece uma exposição de escultura que vi ao ar livre em que num montinho ahavia uma PORTA só com a moldura da porta sem porta e denominada UTOPIA e podia-se “brincar” saindo e “entrado” para LADO NENHUM – Boa ??? BOA !!!

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.