De um recorte de jornal.
Há dias, revendo recortes velhos e amarelos, um deles chamou-me à atenção. Não propriamente pelo motivo pelo qual o guardei em 16 de junho de 2006 (David Mourão-Ferreira) mas, justamente, pelo que descobri nas costas do mesmo.
Havia retalhado um quadrado com referência ao documentário Duvidadávida dedicado ao poeta quando se completavam dez anos após a sua morte. Nessa sexta-feira, sublinhei na folha do jornal: “Que dúvida Que dívida Que dádiva/Que duvidadávida afinal a vida”. No documentário produzido pela RTP, podia ouvir-se a voz de Mourão-Ferreira numa das últimas entrevistas, já muito doente, a dizer-nos “o quão extraordinário é a vida e a maravilha que é estarmos vivos”.
Há poucos dias, como ia dizendo, vi, com outros olhos (ou efetivamente pela primeira vez), o outro lado: uma foto do actor João Castro encenando Na Morte de Marilyn, um poema de Ruy Belo. Tirei da estante o único livro que tenho de Ruy Belo (A Obra Poética) e ah! lá estava ele:
Morreu a mais bela mulher do mundo
(…)
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
(…)
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
(…)
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
(…)
«Um recorte tem dois lados» – digo de mim para mim. «Um recorte de jornal que hoje não nos diz absolutamente nada (ou muito pouco), um dia pode transformar-se numa revelação. O recorte é o mesmo, igual a si mesmo ao longo do tempo. Quem o revê é que muda e é saboroso ver as diferenças».
Vou ter saudades dos jornais em papel, porque sei que a sua maior riqueza ultrapassa largamente o dia da sua edição.








Tive amigas que eram amigas de David Mourão Ferreira mas eu não – só conhecia a sua obra e o extraordinário programa na TV que não perdia nunca – mas quiz o acaso que o encontrasse em Fiumicino no guichet onde um ilatiano me aldrabava e o meu latim não chegava e ele, atrás de mim, ajudou – E viagei com ele de Roma a Lisboa – que maravilha que foi – não se calou – e depois desapareceu de novo mas foi fantástico aquele encontro tão cordial e rico de palavras cheias enquanto durou – também guardo “recortes” tantos que quando os não aproveito para fim especial, tenho mesmo de me desfazer deles – e é pena – contam histórias do tempo e da vida – tenho de mudar de casa