Os Donos da Propaganda

A versão vídeo de Os Donos de Portugal (que enquanto livro é uma obra historiográfica notável, não sendo exactamente uma investigação académica) levantou na extrema- direita (e em alguma direita também) o que era de esperar: incapacidade de contestar os factos e a acusação repetida de que se trata de um trabalho de mera propaganda política.

Mesmo a anarco-direita (que encontrou ali argumentação contra o papel do estado na economia que muito lhe convém) torce o nariz, é da sua natureza, e ao que parece um documentário de tese tem de ter contraditório, sobretudo quando a tese não nos convêm. Não dizem o mesmo dos estafados comentadores do regime que invadem as televisões todos os dias, num saudável pluralismo de repetições.

Mas vejamos um exemplo de argumentação da extrema-direita:

José Meireles Graça acha que é um panfleto. E porquê? porque foi feito com “Eugénio Rosa, economista comunista, com perdão da cacofonia e da contradição nos termos, e Fernando Rosas, um historiador neo-marxista pós-moderno“. Exemplar. Sendo Fernando Rosas marxista assumido e muito pouco pós-moderno (mas não se pode pedir a toda a gente que saiba distinguir estas minudências), o problema está em quem diz, não no que demonstra. Se fosse um Medina Carreira (com um currículo anedótico ao pé destes dois) já seria sério? Que comunista não pode ser economista já desconfiávamos, aliás nem académico: no tempo em que os oposicionistas foram sistematicamente afastados das universidades, e quando até Adriano Moreira teve de usar um expediente ultramarino para criar uma instituição universitária na área das ciências sociais, é que era bom, não havia propaganda e a ciência prosperava em Portugal.

Depois acusa-se de não explicar os ses. Os se não fosse assim como teria sido são a última moda da extrema-direita,que lhe chama “história alternativa” ao que não passa de ucronia, neste caso em versão se não fosse assim se calhar não  tínhamos criado “uma base industrial“*. Faltou acrescentar que sem ditadura não teria havido desenvolvimento, mas a lata não chega para tanto. Ficamos pela clássica falácia:

 (…) as taxas de crescimento de Portugal nos anos 60 (não obstante uma guerra colonial que chegou a consumir 40% do orçamento do Estado, sem aumento significativo do endividamento público) se explicam por obra e graça do Espírito Santo (o da trilogia, não um prócer da família homónima).

Não, explicam-se pelo milagre da emigração: nos anos 60 o PIB per capita efectivamente cresceu: pudera, a população diminuiu, emigrando. Um mito tantas vezes desmontado e que provavelmente se vai repetir nesta década. O pormenor de o PIB propriamente dito crescer em pleno paralelo com o da generalidade do mundo e de ter sido a própria guerra que obrigou o ditador a alguma abertura económica, é um detalhe de comunas, claro. E sobretudo o facto de isso não ter acarretado uma melhoria efectiva na vida das pessoas, que viviam na mais cruel das misérias, é algo sem importância, o que conta é o mito. Patiño fez as suas festas, os donos de Portugal enriqueceram, e os seus fiéis súbditos ainda prosperam. Até um dia.

* no livro é feita uma referência a um dirigente angolano, pseudo-marxista, que justifica a cleptocracia naquele estado com a “necessidade de acumulação primitiva de capital”, ou seja: rouba-se à vontade para criar uma burguesia. Meireles Graça não diria melhor.

Comments

  1. sejamos Sérios.... says:

    é tão isento e tão factual

    como a associação 25 de abril é apolítica

    os donos de Putocale infelizmente não são os grandes grupos económicos portuguesses

    Qualquer industria farmacêutica ou de equipamento pesado…manda mais nos pequenos donos de putocale que esses grandes

    e a maior parte dos monopólios antigos Os Magalhães de Arouca Os Duarte Ferreira Do Tramagal que é deles?

    tal como os Ribeiro’S Telles e Friends já não são os donos da lezíria

    o mundo mudou as mentalidades nem por isso…

  2. sejamos Sérios.... says:

    só uma pequena equipa de 140 pessoas importou e vendeu mais ao estado entre 1995 e 2008? ou 07
    cerca de 150 mil milhões de eurros…..só na maquinaria da expo 98…e nas estradas
    foi muito mais do que a privatização da Galp e similares

    que o grupo amorim ganhou nestes anos com a galp e outras negociatas…e esses ganharam uns 10 mil milhões ou mais nestes anos…2 BPN’s migalhas

  3. sejamos Sérios.... says:

    logo esses donos de putocale nem na lista aparecem…nem têm casas na vizinhança da casa da coelha
    bom é capaz de haver duas…


  4. Vamos lá ser sérios: um troll sério existe? não. Existem comentadores, uma forma de estar na vida completamente diferente.
    Um troll caracteriza-se por exemplo na forma: 3 comentários seguidos, porque da cabecinha minúscula as caganuitas lhe saem sempre 3 ou mais vezes, é incapaz de defecar um cagalhão inteiro, coerente, em português (este troll que nos tem invadido tem uma língua só sua).
    Às vezes é mais canalha, já assinou com o nome de outros, por exemplo. O mail falso esse muda todos os dias, o troll sabe que existem filtros automáticos, mas nada o impedirá de prosseguir a sua missão na terra: fazer de uma caixa de comentários do Aventar um espaço só seu. É presunçoso, tanto quanto cretino, o nosso troll.
    A título de exemplo estas caganitas não serão apagadas. Obviamente o mesmo não sucederá com as restantes. Os trolls um dia desistem. É questão de tempo e paciência.

  5. Maquiavel says:

    Assim o pensava. Mas este é pior que chaga sarnenta. Faz o mesmo em vários blogues, e tem tido a sorte de näo lhe bloquearem o IP, ou pura e simplesmente o moderador apagar o “comentário”.

    Näo, JJC, quem näo sabe brincar fica de fora. Até pode ser que 1% do que eles escreve se aproveite, mas näo justifica toda a gente gramar com 99% de lixo. Até porque estes duendes urbanos vivem das reacçöes negativas, nem sequer ignorando eles param. Como qualquer erva daninha, corte-se pela raiz!

    Relativamente ao excelente artigo, só tenho a dizer uma coisa: que esperavas tu da direita serödia tuga, que nem Direita consegue ser? Olha na Noruega, muitos dos “cantores de praça” eram de Direita.


  6. Era óbvio que não ia gostar, mas sempre podiam arranjar uma argumentação mais composta. Agora imagina que em vez de 50 minutos o livro era desenvolvido, como bem podia ser, em 6 ou 7 episódios…

  7. Maquiavel says:

    Eram os mesmos argumentos serödios repetidos ad nauseam repetidos por cada episódio.
    Queres que gente desonesta intelectualmente arrange argumentação mais composta? Sonhas? Deles infelizmente só argumentação mais com bosta! 😀
    A sério, eu com 15 anos entendi o fundamento da Lei do Condicionamento Industrial, que basicamente é “o Salazar só deixava fazer uma companhia por cada sector industrial, logo quem a fizesse teria o monopólio, e isso mais do que compensava os entraves postos à implementaçäo da referida indústria”. Mas eles consideram que atribuir monopólios aos industriais näo é gozar da protecção do Estado. Claro. Näo esquecer que eles também viram o Monstro de Oslo “saudar de punho erguido”. Säo muito consistentes na sua cegueira.
    Quando o supostamente melhor que a Direita portuguesa apresenta é isto… näo admira que o Freitas tenha “semigrado” para o PS…

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  1. […] aqueles que fatalizam forçoso termos de passar fome e dificuldades, vivendo eles bem à larga, como sempre viveram. Mostrar-se o Camarada Passos sensível, ainda que simbolicamente, às nossas expectativas quanto a […]


  2. […] José Cardoso, no Aventar, April 27, 2012 at […]

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