O português da selecção

Ao assistir à conferência de imprensa de Paulo Bento, ouvi, pela enésima vez, um português usar “sobre” quando devia usar “sob” (a frase proferida pelo seleccionador nacional incluía qualquer coisa como “ganhámos sobre o ponto de vista colectivo”). Há pouco tempo, pudemos assistir à prestação infeliz de Cristiano Ronaldo a tratar o Presidente da República por você e a terminar com um “tá?”.

Não sendo propriamente um purista, e sabendo que a língua não é um sistema imutável, continuo a defender a importância da normatividade e continuo a acreditar que falar (ou escrever) bem não é apenas – nem sobretudo – uma questão estética, mas é, muito mais do que isso, um factor fundamental para uma comunicação eficaz, com o mínimo de ruído e o máximo de rigor.

Na polémica sobre o acordo ortográfico, faz-me muita confusão que existam pessoas informadas, cultas, apreciadoras e/ou cultoras do bom português que se limitam a olhar para esta e outras questões da língua portuguesa com uma leviandade assustadora, ainda mais num país em que a língua é maltratada por entidades várias, desde a comunicação social aos responsáveis por elaborar programas de Português.

Calculo que a máquina da selecção nacional inclua especialistas em marketing, estilistas, cozinheiros, massagistas, psicólogos, para além de outros profissionais ligados ao futebol propriamente dito, mas, diante das insuficiências que jogadores e treinadores continuam a revelar, não faria sentido que os cuidados com a sua imagem obrigassem ao recurso a um consultor de língua portuguesa? Quando os defensores do acordo ortográfico se preocupam com a internacionalização do português, não seria muito mais importante que a mesma língua fosse bem tratada por aqueles que são ídolos dos jovens? Talvez sejamos um país condenado a dar mais valor a um bom fato do que a uma frase rigorosa.

Comments


  1. “Uma coisa é uma coisa …outra coisa é outra coisa.”

    “Você” é um tratamento muito digno, tal como o “tu”! O grande problema é o TOM com que é dito ou escrito. Há gente que é muito hábil no uso do tom, outros que amesquinhando se amesquinham, no trocadilho do tom.

    Mas, convém perceber primeiro: uma coisa é uma coisa … outra coisa é outra coisa.

    • afonso says:

      ó nabo…n´ã ..ó nabais tanta merda com o portugues dos futebolistas……e o pRotugues dos politicos e até gente das artes letras etc..etc …..e aqueles golinhos do cr7 ….nao te cairam bem…tas com azia …oi ..hem ….nao entendi……gooooooooooooooooooooooooooooooolo

      • António Fernando Nabais says:

        ó afonso, pá, que trocadilho espectacular com o meu nome, man! Conseguiste-te lembrar disso sozinho ou pediste ajuda à família? Você é o máximo, tá?

  2. maria celeste ramos says:

    “”””Talvez sejamos um país condenado a dar mais valor a um bom fato do que a uma frase rigorosa”””” e assim vai a qualidade escolar – não sei que grau escolar têm os jogadores de futebol a quem se pede que sejam os melhores do mundo a chutar a bola – Mas haver MINISTRA da agricultura a dizer HADEM e não só, e outros como alguns ministros e deputados, e outras bizarrias de concordância de verbos e de sílabas tónicas que pronunciam como átonas e, aí, é que fico a ter a certeza de que ou os professores ensinaram mal tais senhores porque já não aprenderam para eles, e muito menos para ensinar. Eu notei o “você” de ronaldo para com o presidente cavaco silva e fiquei a pensar se estes “também embaixadores do país” não poderiam ter tempo e dinheiro e espaço para serem “ajudados a ser corrigidos” e haver iniciativa dos seus dirigentes de aprendizagem de certas formas de comportamento de acordo com as circunstâncias, já que certamente nem sabem que erram. E se Roaldo e outros aprenderam castellano e inglês foi de iniciativa própria ou mandaram-nos ??? então porque não também aprender tantas coisas importante para estar dentro e fora do país ?? A lingua poruuguesa não merece ser maltratada e muito menos merece a aberração do acordo ortográfico – mas com um secretário de estado da cultura quem nem sabe quem é Joana Vasconcelos que foi a 1ª mulher do mundo a expor em Versailles depois de já ter exposto em Veneza e o sec estado da Cultura “nem sabia nem deu por nada ou não ligou” , dá medida do cuidado destes ministros “acidentais” – E há jornais onde os jornalistas que são universitários dão boas calinadas na sintaxe – Isto não invalida que jogadores de futebol (ou de outros deporto””””Talvez sejamos um país condenado a dar mais valor a um bom fato do que a uma frase rigorosa”””” ) não tenham também preparação escolar conveniente

    • Pedro Marques says:

      Eles também se orgulham em ser broncos, e não saberem nada de cultura, da língua portuguesa… O que interessa é ter um bom carro, uma boa gaja, o cabelinho cheio de gel e pronto.

  3. Marão says:

    Sobre o ponto de vista colectivo? Ganhamos!

  4. Pedro Marques says:

    A tal ignorância que muitos governantes agradecem, por isso é que estas cavalgaduras são ricas e não se mostram interessadas em lutar pela falta de emprego/trabalho, pela precariedade… Enfim são uns bonecos bem engraçados que até ajudam bem o estado a caminhar na sua luta nazi, e imperialista!

    • xico says:

      São tão ignorantes como aqueles que os querem ver a lutar pela falta de emprego e pela precariedade. Como se já não houvesse bastante e não fosse necessário lutar contra tais coisas e não por elas. Deixem os homens jogar à bola, sob ou sobre o chapéu dos pseudos intelectuais.


  5. Fernando, dou-te o exemplo do treinador do Benfica: Quando o homem decidir tornar-se escritor, poeta, jornalista, fico preocupado. Claro que poderia, eventualmente, falar um pouco melhor. Acontece que as pessoas nascem onde nascem, muitas vezes em meios sociais onde se aprende a falar “erradamente” desde sempre. O facto de homens destes, de origens humildes e proletárias, chegarem onde chegou o exemplo que te dou é notável e merece respeito. Além disso, sabe comunicar – e bem – ainda que com alguns pontapés no idioma.
    Concordo que uma boa prática da língua seria desejável, mas prefiro um treinador que fale mal e ganhe jogos, um médico que dê erros gramaticais e acerte no diagnóstico e no receituário, do que o contrário.
    O que eu não posso aceitar é, como me aconteceu, receber um mail de uma professora do meu filho – de inglês – com dez erros de português numa dúzia de linhas.

    • António Fernando Nabais says:

      Pedro, é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa e, começando pelo fim, é claro que é muito mais grave um erro de um professor do que um do Cristiano Ronaldo ou do Jorge Jesus.
      Não me passa pela cabeça criticar alguém apenas por falar mal e o facto de alguém ser analfabeto ou menos letrado não desqualifica ninguém como pessoa ou, até, como profissional (dependendo da profissão, obviamente). O mundo está cheio de académicos e de intelectuais execráveis e de homens e mulheres maravilhosos que não sabem ler ou que acreditam, como a minha avó, que é o Sol que anda à volta de Terra.
      Se for obrigado a escolher, também quero que o treinador ganhe jogos e que o médico acerte no diagnóstico (embora o Abel Salazar tenha afirmado que “Um médico que só perceba de Medicina nem bom médico é”).
      Aquilo para que quis chamar a atenção foi para o facto de que os jogadores da selecção são ídolos da juventude. Há o cuidado de os vestir com os melhores figurinos, de os pôr a contactar com a população, em manobras de relações públicas, mas não há a mínima preocupação de os pôr a comunicar de um modo minimamente correcto. Sei perfeitamente que o Ronaldo aprendeu a falar nos balneários, porque foi aí que viveu até hoje e que, portanto, é natural que não saiba dirigir-se a um Presidente da República, mas custava muito alguém, sabendo disso, dar-lhe duas ou três indicações acerca de protocolo e de vocabulário? Nada disso acontece, porque ninguém, a começar pelo Ronaldo e a acabar na estrutura organizativa da selecção, dá importância a isso.
      Voltando ao princípio e nunca desculpando um professor que dê erros, é fácil adivinhar que situações constituem mais um obstáculo a convencer um aluno de que deve falar melhor ou exprimir-se com o máximo de correcção.

      • António Fernando Nabais says:

        O comentário foi escrito à pressa e nota-se. Entre outras coisas, falta um “destas” depois de “situações”, no último parágrafo.

  6. palavrossavrvs says:

    Fulanos da Selecção Nacional, contratem-me, já! LOL

    • António Fernando Nabais says:

      Ó J., desculpa lá, mas eu ofereci-me primeiro. Vais como meu assessor e é um pau!

  7. Jorge Saraiva says:

    Metade de Portugal diz sobre (não sei se escreve…) quando devia dizer sob! Estão incluídos alguns supostamente mais cultos que os jogadores de futebol, como sejam os políticos, pivots e comentadores televisivos, só para amostra…

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