Quem quer casar com a Educação?

Esta semana, vários cidadãos, em Torres Vedras, Peniche e Caldas da Rainha, manifestaram-se em defesa dos serviços hospitalares que lhes estão a ser retirados, devido a um governo que olha para qualquer serviço público do mesmo modo que um pirómano olha para uma floresta.

O que me impressiona positivamente neste movimento é o facto de ser constituído por cidadãos que consideram que a Saúde é uma questão que não se restringe a uma corporação profissional, é um assunto que diz respeito a todos e dirá sempre. Calculo que, no mínimo, todos estes cidadãos desejem ser suficientemente saudáveis para nunca ir a um hospital, mas imagino-os suficientemente previdentes para saberem que poderão precisar de ir e, sobretudo, suficientemente solidários para terem a certeza de que haverá sempre um concidadão que precisará de recorrer a serviços hospitalares e que não deverá ficar afastado deles por pouco dinheiro ou por muitos quilómetros.

Entretanto, para meu grande desgosto, não estarei hoje em Lisboa, a participar na manifestação de professores. Não sei se será bem-sucedida, mas não é sobre isso que quero escrever, hoje.

Nuno Crato é o rosto da destruição da Escola Pública e fá-lo com uma desfaçatez que pode ser confundida com tranquilidade. A face mais visível dessa destruição está no desperdício insensato de recursos humanos, através do despedimento de milhares de professores contratados que dão aulas há vários anos. Usando de estratagemas antipedagógicos, como o aumento do número de alunos por turma e a criação de mega-agrupamentos, Nuno Crato poderá dizer que poupou milhares de euros, mas tê-lo-á feito à custa de valores inalienáveis. Se tivesse consciência, nunca mais conseguiria dormir ou olhar-se ao espelho.

De várias maneiras, os professores têm alertado para todos estes problemas, mas, por diversas razões, todos esses alertas ganham aparências de corporativismo egoísta, o que sossega políticos desonestos (passe a redundância) e afasta a opinião pública.

Há muitas críticas a fazer a sindicatos, professores e directores de escolas, mas não se pode dizer que não haja várias vozes informadas que, continuamente, chamam a atenção para os vários prejuízos que as políticas educativas causarão. Podem estar certos de que todos seremos vítimas dessas políticas.

Ser patriota não é colocar a bandeira nacional na varanda, quando joga a selecção: isso é folclore fácil e barato. Patriotas são os que se manifestam a favor dos serviços hospitalares. Patriotas são todos os que se manifestam a favor de todos.

Hoje, estarão vários professores em Lisboa. Manifestam-se a favor da Educação. Mesmo que estivessem todos os professores do país em Lisboa, seriam poucos, porque o problema não é só deles. Aquilo que o governo está a fazer à Educação é um crime. Quem não fizer nada contra isso é cúmplice.

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  1. […] tivesse sido muito maior. Na minha opinião, a indignação deveria estender-se, até, a todos aqueles que se preocupam com a Educação, área muito mais ampla do que todos os reais problemas laborais dos […]

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