Municipalização da Educação: uma reforma necessária e coerente?

” (…) discordo de reformas que correspondem a ficções políticas, a pseudo-utopias particulares baseadas em conhecimentos superficiais de realidades externas, quantas vezes em rápida desactualização, destinadas a satisfazer este ou aquele grupo específico de interesse ou o ego pessoal de políticos em trânsito.” – Paulo Guinote.

Opinião de um pai sobre a chamada avaliação de professores

O texto de João Fraga de Oliveira no Público de hoje merece uma leitura atenta, pelo que revela de poder de síntese e de sensatez. Eis o título: “Avaliação de professores: o “politiquês” em discurso directo?”

Vale a pena relembrar que a Educação não é um problema exclusivo dos professores, mas da sociedade. Vale a pena, ainda, relembrar que os problemas dos professores são, também, problemas da Educação e, portanto, da sociedade. Coisas fáceis de perceber, independentemente da área ideológica que se frequente.

A propósito de coisas fáceis de perceber, ou seja, a propósito de bom senso, realce-se e releia-se a seguinte proposta de João Fraga de Oliveira: “Apesar de ser controverso (qualquer candidato a professor é titular de inerente licenciatura, para o que aí, na universidade, deverá ser exigentemente avaliado), é de admitir que, para o início (e não já depois de vários anos) do exercício de uma profissão tão socialmente responsabilizante e responsabilizável como é a de professor (ainda para mais vinculado ao Estado), deva haver um processo (e não só, necessariamente, uma mera prova escrita) prévio de avaliação/integração, visando efectivamente garantir “conhecimentos e capacidades” fundamentais para o desempenho de tal profissão, tão fulcral do (no) ensino esta é.” (perdoe-se-me o abuso do bold, mas, repito, o bom senso merece ser realçado).

Quando pontual faz lembrar irrevogável

Tal como irrevogável foi o adjectivo escolhido por Paulo Portas para caracterizar a sua demissão, é lógico que Nuno Crato use “pontual” para classificar cada um dos vários problemas que continuam a ocorrer neste princípio de ano lectivo.

O problema de Crato não é a incompetência. Sobre Educação e escolas nada sabe e nada quer saber, do mesmo modo, afinal, que um assassino contratado não pode sentir pena das vítimas, sob pena de não conseguir assassinar, quebrando, desse modo, os compromissos assumidos.

Não é bonito encher um texto com hiperligações, mas não é possível ignorar o caos lançado sobre as escolas por um ministro que é tão sério como pontuais são os inúmeros casos que afectam a vida de alunos, pais e escolas. Há para todos os gostos: falta de professores e de funcionários, alunos sem aulas, manuais surpreendentemente desactualizados, tudo razões suficientes para que um ministro sentisse vergonha ou fosse demitido.

 Casos pontuais

Um caso pontual

Casos pontuais?

Novos manuais de Matemática e de Português lançam caos nas escolas

Mais de mil alunos de Tavira sem aulas por falta de resposta da tutela

Maior escola básica de Palmela fechada por falta de pessoal auxiliar

Mais de 500 turmas do 1º ciclo ainda sem aulas

Escolas recorrem a plano de substituição para ocupar alunos

Escolas: “Faltam preencher 1991 horários”

Maioria das escolas sem professores está na região de Lisboa

Nuno Crato defende que há alunos a mais

Escolas forçadas a recusar alunos

NUNO-CRATO-PORTRAIT-RETRATOMerece leitura muito atenta a notícia do Correio da Manhã acerca das imposições do Ministério da Educação, obrigando várias escolas a recusar a entrada de alunos no primeiro ano do Primeiro Ciclo.

Nuno Crato tem declarado que há menos alunos no sistema de ensino, como quando quer, por exemplo, justificar o despedimento de professores. Fico a aguardar pelo briefing em que venha explicar que sentido faz recusar a entrada de alunos numa escola em que o número de alunos tem diminuído ou tomar medidas destas a menos de um mês do início do ano lectivo.

É certo que a razão é conhecida. O Correio da Manhã faz, aliás, uma ligação entre estas restrições e a necessidade de cortar despesa. Não é que já não soubéssemos, mas ficamos sem ter a certeza se essa ligação provém de fonte ministerial, o que seria um momento de sinceridade absolutamente inédito, porque implicaria, finalmente, que Nuno Crato reconhecesse que não toma medidas a pensar nos alunos.

Note-se, ainda, que os alunos recusados e os respectivos encarregados de educação já tinham criado expectativas absolutamente legítimas, preparando-se para enfrentar os desafios de um novo ciclo de ensino. Mais uma vez, a insensibilidade do Ministro da Educação obriga educadores a tentar minimizar os estragos criados por políticos.

Nuno Crato põe alunos em risco

NUNO-CRATO-PORTRAIT-RETRATONuno Crato é um mero continuador de políticas iniciadas por Maria de Lurdes Rodrigues. O principais objectivos dos três últimos governos, no aparente âmbito da Educação, têm sido o de diminuir as despesas com pessoal e o de contribuir para o lucro de entidades privadas (a festa da Parque Escolar, com o PS, e as ajudas descaradas aos colégios, com o PSD). Pelo meio, os riscos que os alunos correm vão aumentando, especialmente se se tratar de jovens de meios desfavorecidos.

Em primeiro lugar, as condições de aprendizagem têm vindo a piorar. Entre muitos outros factores, temos a diminuição do tempo individual de trabalho dos professores e o aumento do número de alunos por turma. Os alunos correm, portanto, o gravíssimo risco de frequentar uma escola em que é cada vez mais difícil ensinar.

Para além disso, há riscos crescentes para a integridade física e psicológica dos alunos. Para isso concorrem, por exemplo, o fim do par pedagógico em disciplinas que exigem o manuseamento de materiais ou de instrumentos perigosos e um processo de despedimento de funcionários não docentes que está a atingir o seu auge a menos de um mês do início das aulas. É importante relembrar que cabe a muitos destes funcionários zelar pelos alunos nos espaços exteriores às salas de aula: tal como fez com os professores, Nuno Crato está a falsear números para poder despedir funcionários que, já se si, eram insuficientes para que as escolas pudessem funcionar satisfatoriamente. [Read more…]

O maior problema das escolas é o Ministério da Educação

Se o Ministério da Educação (MEC) tivesse algum poder sobre as salas de operações, qualquer cirurgião viveria em constante sobressalto, sem nunca ter a certeza se, no dia seguinte, sairia uma ordem de serviço que o obrigaria a operar com um talher de peixe ou se seria obrigado a substituir a anestesia por uma dose de bagaceira (em princípio, para o paciente).

Para quem não conhece a vida das escolas, pode parecer que exagero, mas a verdade é que o MEC é, desde há vários anos, uma fonte garantida de instabilidade e de desvario: todos os profissionais do ensino vivem cientes de que qualquer regra pode ser alterada em qualquer altura e de que as mudanças são, quase sempre, para pior. [Read more…]

Nuno Crato, o ministro da desunião

Tendo em conta o passado próximo, as desconfianças enunciadas pelo Paulo Guinote fazem sentido. No entanto, a atitude hoje assumida por várias entidades, exigindo ser recebidas em conjunto, teve o condão de obrigar Nuno Crato a definir-se.

Em primeiro lugar, mostrou-se manhoso, um político a sério, no sentido maquiavélico do termo, ansioso por conseguir dividir os adversários, lançando-os uns contra os outros. Depois, fez uma declaração que, parecendo explicar a sua atitude, serviu, na realidade, para manifestar o desejo de desunião: “Uma coisa são problemas salariais e falamos com os sindicatos; outra são as preocupações dos pais, e falamos com os pais; outra são as dos directores, como é o caso da organização de trabalho das escolas.”

A verdade é que, do ponto de vista de quem se preocupa com Educação, todas estas questões têm de interessar a todos. Um pai consciente deseja professores justamente remunerados; todos os professores e directores deverão ser sensíveis às preocupações dos pais; a organização de trabalho das escolas não diz respeito apenas aos dirigentes escolares, como é evidente. Note-se, entretanto, a armadilha insidiosamente estendida aos sindicatos e aos professores, reduzidos a uma gente materialista, preocupada, apenas, com o dinheirinho.

Nuno Crato definiu-se. É chegado o momento de todas as entidades e todas as pessoas ligadas à Educação fazerem o mesmo e, a propósito, não é demais lembrar que as manifestações e as vigílias são importantes, mas não são suficientes. Por isso, em minha própria representação, estarei, amanhã, às 17h, em frente à DREN.

Adenda: eu escrevi “amanhã, às 17, em frente à DREN”? Não é amanhã, é hoje. Até logo.

Mexa-se pela sua Educação!

O ditado é antigo: “É preciso uma aldeia inteira para se educar uma criança.” Se aceitarmos como bom este adágio, facilmente percebemos que a educação das crianças nos diz respeito a todos, independentemente da profissão ou da circunstância de sermos pais.

Qualquer prejuízo causado à Educação atinge cada um de nós. Se concluirmos que esse prejuízo nasce de políticas erradas e/ou mal-intencionadas, protestar é o dever mínimo de qualquer cidadão.

A progressiva destruição da Educação em Portugal tem sido denunciada por várias vozes, muitas delas – a maioria – vindas do interior da corporação docente. Os três últimos governos, assentes em máquinas de propaganda, têm conseguido isolar essas vozes, considerando que são corporativistas em defesa de privilégios injustificáveis. Importa que os restantes cidadãos ouçam atentamente e reflictam.

Os problemas profissionais dos professores constituem alguns dos muitos problemas da Educação em Portugal. A partir do próximo ano, o aumento de alunos por turma, a criação de escolas gigantescas e desumanizadas e a expulsão de recursos humanos preciosos colocarão em risco a qualidade da educação das gerações futuras.

Estes problemas não serão resolvidos num dia ou numa noite, mas é importante que a vigília do próximo dia 18 tenha a participação de todos os que estejam verdadeiramente preocupados com a Educação. Isso inclui professores e não exclui ninguém.

Para mais informações, aproveitem o facebook. E o Aventar, claro.

Quem quer casar com a Educação?

Esta semana, vários cidadãos, em Torres Vedras, Peniche e Caldas da Rainha, manifestaram-se em defesa dos serviços hospitalares que lhes estão a ser retirados, devido a um governo que olha para qualquer serviço público do mesmo modo que um pirómano olha para uma floresta.

O que me impressiona positivamente neste movimento é o facto de ser constituído por cidadãos que consideram que a Saúde é uma questão que não se restringe a uma corporação profissional, é um assunto que diz respeito a todos e dirá sempre. Calculo que, no mínimo, todos estes cidadãos desejem ser suficientemente saudáveis para nunca ir a um hospital, mas imagino-os suficientemente previdentes para saberem que poderão precisar de ir e, sobretudo, suficientemente solidários para terem a certeza de que haverá sempre um concidadão que precisará de recorrer a serviços hospitalares e que não deverá ficar afastado deles por pouco dinheiro ou por muitos quilómetros. [Read more…]

Pais e educadores, acordem!

A Educação é um edifício em mau estado. O proprietário, o país, tem-se alheado completamente da gestão do condomínio, entregue a pessoas cujas decisões têm como consequência a fragilização de alicerces corroídos pela incúria.

Este texto de José Calçada é de leitura obrigatória. Limito-me a realçar duas teses, entre outras: não se deve exigir apenas à Escola o que se devia exigir também à sociedade e “é absolutamente falso que existam professores a mais”.

Pais na Escola

Do acordo entre a FNE e o Governo resulta um velho modelo de gestão das escolas. Apesar de continuar a pensar que a Escola não precisa de gestores, a verdade é que o modelo partidário (sim, não estava a pensar em político) que está no terreno permite e promove todo o tipo de trapalhadas, criando promiscuidades várias entre Directores, Autarquias, Colectividades, Associações de Pais,…

Não se percebe porque é que os do costume assinam. Paulo Guinote questiona sobre o incómodo que tal decisão provoca – eu, que não assinei começo a ter pouca (nenhuma!) paciência para ver sempre o mesmo tipo de comportamento: incomoda e muito!

E reitero uma opinião que partilhei num post recente sobre esta temática e que o Miguel teve a amabilidade de questionar, trazendo para cima da mesa uma saudável divergência entre pessoas que partilham o mesmo espaço sindical.

É ou não positiva a saída dos Encarregados de Educação do Pedagógico?

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Influência dos pais no sucesso dos alunos: outra vez

No Aventar, por duas vezes (aqui e aqui), pelo menos, já foi abordada a questão da relação entre o sucesso escolar e o meio familiar.

Já há vários anos que o governo tenta, a todo o custo, colocar a maior fatia de responsabilidade pelo insucesso dos alunos em factores associados ao interior da Escola. Quanto a mim, nada disso é inocente: o objectivo é o de conter e, até, diminuir a afectação de recursos humanos às escolas, para além de isentar o Estado de melhorar as políticas sociais, tendo em conta que as condições familiares, afinal, não teriam influência no sucesso dos alunos.

Hoje, é divulgado um estudo do “Observatório dos Trajectos dos Estudantes do Ensino Secundário (OTES) e do Gabinete de Estatísticas e Planeamento da Educação (GEPE), do Ministério da Educação” que “conclui que quanto mais elevadas são as habilitações dos pais melhor é o desempenho dos filhos.”

É curioso que tenha sido um departamento do Ministério da Educação a chegar a esta conclusão, contrariando um estudo encomendado pelo mesmo Ministério em que se concluía que o meio socioeconómico de origem e a idade dos alunos têm um peso de 30% no sucesso escolar dos alunos, dependendo os restantes 70% do trabalho realizado nas escolas, estudo esse que mereceu no Público uma ampla e entusiástica divulgação com honras de editorial encomiástico, o que parece não acontecer agora

É importante reafirmar aquilo que muitos sabem, nem que seja empiricamente: o meio socioeconómico tem um peso enorme no rendimento dos alunos. A afirmação desta realidade não serve para consolar ou desresponsabilizar os professores. Deveria servir, isso sim, para reorientar as políticas educativas ou sociais. Teremos de esperar por um governo preocupado em resolver essas questões ou por uma comunicação social menos interessada em ser caixa de ressonância do poder. Até lá, o Carnaval continua, com as estatísticas de sucesso a servir de máscaras.

Na Escola, os Pais fazem a diferença

O estudo divulgado pelo Diário de Notícias de ontem (descoberto aqui) surge em contraponto a outro anunciado com muito mais pompa e circunstância e que mereceu algum debate no Aventar. Mais uma vez, nesta análise, terei como base apenas a notícia.

A autora do estudo, Teresa Guimarães, é investigadora da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, dado que nos é facultado pela notícia. Em síntese, procedeu à comparação entre dois grupos de 12 famílias carenciadas no Vale do Ave: num grupo, os alunos têm bons resultados, enquanto no outro há insucesso escolar. A investigadora conclui que a diferença, não estando nos rendimentos das famílias, está na atitude dos encarregados de educação relativamente ao percurso escolar dos filhos. Mesmo correndo o risco de abusar da auto-citação e de parecer que estou a brincar ao “eu já tinha dito isso”, a verdade é que já opinei sobre este assunto aqui, com uma base absolutamente empírica e sem pretensão de originalidade, mas com conclusões semelhantes. [Read more…]