Cadi

( Já publicado anteriormente)

(Desenho de Manel Cruz)
Cadi era uma mulher esbelta. Uma verdadeira Balanta-Bravo. Não tão bonitas como as Futa-Fulas, as balantas tinham um corpo de fazer inveja a quaisquer outras. A Cadi era o ver-dos-olhos de soldados, sargentos e oficiais. Mas apenas o ver-dos-olhos. Mais do que isso Cadi não permitia.Nós vivíamos dentro de uma cerca de arame farpado, de onde só se podia sair, praticamente, de avioneta. Uma companhia militar e uma população rondando os mil e oitocentos negros. Não é de admirar que qualquer mulher pusesse “os olhos em bico” aos militares. Cadi sabia-o muito bem, e, com uma postura digna e distanciada, contrabalançava a sua condição de negra. Cadi sabia que todos gostariam de “fazer conversa gira” com ela (fazer amor), mas tinha grande orgulho em não deixar que lhe tocassem.Eu admirava muito a maneira de ser da Cadi, que assim se valia do que a natureza lhe dera para impor a sua dignidade de mulher, ainda que negra, faminta, e rudemente colonizada pela “supremacia” branca.

Um dia, começou a constar na tabanca que Cadi não era normal. Cadi “ca tem catota, Cadi ca suma outra mulher”. Na mais rudimentar tradução à letra, isto queria dizer que Cadi não era igual às outras mulheres, pois não tinha “buraquinho”, e, por conseguinte, não podia “fazer conversa gira” nem ter filhos. O boato explodiu como uma granada, e, em pouco tempo, a Cadi transformou-se em “avis rara”, vítima da vingança dos que nunca puderam tocar-lhe e da chacota dos que, mesmo assim sendo, gostariam de o comprovar pessoalmente.

Como as neuroses e as depressões não são apenas doenças de brancos e ricos, Cadi começou a andar muito triste e cabisbaixa. Não parecia a mesma, aquela que todos os dias atravessava a picada com ar garboso, peitos erectos, cabeça erguida e um menear de ancas capaz de provocar desmaios.

O meu amigo e Chefe de Posto, caboverdeano, numa daquelas conversas que nos ajudavam a matar as intermináveis horas que faziam o eterno tempo de guerra que éramos obrigados a viver nestas paragens do norte da Guiné, disse-me com ar pesaroso:

-Doutor, ando chateado com aquele problema da Cadi. Coitada da moça, quer ir embora, quer ir viver para Binta. Sente uma grande vergonha por aquilo que dizem. Não seria possível fazer alguma coisa por ela? Por exemplo o dr. examiná-la? Ela aceitaria imediatamente. Apesar dos seus vinte anos e de nunca ter saído daqui, é uma rapariga com mentalidade evoluída e uma personalidade admirável.

Combinámos o dia e a hora do exame. Exigi a presença do Chefe de Posto e do meu enfermeiro, o qual, apesar de ser electricista de profissão, foi dos melhores enfermeiros que tive na Guiné.

O exame ginecológico da Cadi era absolutamente normal. Tinha “buraquinho” no mesmo lugar do buraquinho das mais famosas artistas de cinema, e com todos os demais apetrechos com que a natureza dotou as mulheres, brancas ou negras. Cadi podia fazer “conversa gira” com quem quisesse e podia ter filhos.

No dia seguinte, o Chefe de Posto reuniu, debaixo do mangueiro que ensombrava o pátio da sua pequena casa, todos os “Homens Grandes” da tabanca. Eram mais de dez, vestindo a túnica branca de cerimónia, e ostentando o turbante que impunha a sua origem muçulmana. Com ar grave, compenetrados da importância da sua presença, ouviram a comunicação em crioulo que o Chefe de Posto lhes fez.

Não sou capaz de reproduzir na íntegra, e tenho pena, mas posso dizer que foi das coisas mais bonitas que ouvi na minha vida de médico e de homem: “Homem Grande de tabanca, toda gente conhece Doutor. Dr. ser aquele homem que cura meningite de tanto menino, que ensina maneira certa de parir, que faz fanado limpo de infecção, que levanta de noite toda hora para acalmar sezões. Dr. ter palavra sagrada. E Dr. disse: Cadi suma outra mulher, Cadi ter catota suma outra mulher, Cadi pude fazer conversa gira e ter filho”.

Os “Homens grandes” da tabanca desfizeram-se em vénias e Cadi foi reabilitada. Ganhou até uma certa auréola de heroína, não só entre a população negra como entre os militares.

Eu tinha um jipe muito velho, quase só rodas e chassi. Com ele costumava ir ver o pôr-do-sol na orla da floresta, junto do arame farpado. Embora a distância não fosse grande, cerca de oitocentos metros, dava uma certa ficha e era motivo para entreter a pequenada em gincanas à volta da tabanca.

Já o sol se havia posto há muito. Demorei-me um pouco mais com a ternura desta gente negra e com as carícias que um velho cego de noventa anos me fazia, todos os dias, à volta da cara e nos cabelos, quando desligava o motor frente à sua palhota, onde me esperava sempre à hora do crepúsculo. Na pequena subida para a povoação, já fora da zona das palhotas, em contra-luz, vi um vulto de mulher em estilo de aparição, com os pés na terra mas bem desenhado no céu, que parecia querer falar-me. Aproximei-me o mais possível e parei. Com o seu rosto de diamante negro espelhado de orgulho balanta, envolto num lenço negro como ele, eu tinha na minha frente a Cadi.

-Cadi, que surpresa!

-Dôtô, Cadi manga de satisfação, Cadi feliz, Cadi ca sabe como agradecê, dôtô tudo merece. Cadi mist conversa gira

Comments

  1. Amadeu says:

    Grande Adão. Confesse lá. Foi você que lançou o boato !!

  2. xico says:

    Tantas e tantas vezes discordei e discordo do Adão Cruz. Hoje quero, como português, agradecer-lhe o bom nome que os portugueses em regra têm e que pessoas como o senhor ajudaram a fazer por esse mundo fora. Não me interessa saber o fim do conto.

  3. Amadeu says:

    e si Cadi manga di satisfação
    nós pimba, nós pimba
    e si Cadi sabe como agradecê
    nós pimba, nós pimba
    e si dôtô tudo tudo tudo merece
    nós pimba, nós pimba


    • Ai, caro Amadeu, caro Amadeu, se conseguisse ver para além da tosca futilidade da superfície, talvez se abstivesse destas mediocridadezinhas!

      • Amadeu says:

        Ai cara Isabel, se tentasse manter as coisas simples, talvez a beleza da simplicidade da vida lhe descomplicasse a sua visão.

        • Isabel G says:

          Ó meu caro, a beleza da simplicidade é precisamente aquilo que V. Exa. não consegue ver! Sabe, simplicidade não é futilidade!

          • Amadeu says:

            Minha cara, que não me deixe tuteá-la, ainda vá que não vá, agora o V.Exª arrasa-me. Se o Gaspar se lembra de taxar o pretenciosismo, a minha amiga fica em maus lençóis.


          • Pois, aqui acho que lhe devo realmente uma explicação: quando uso o V. Exa. é sempre em sentido pejorativo e nunca, jamais, em sentido real ou pretensioso!

          • Amadeu says:

            Acho que quem não compreendeu foi a minha amiga. O pretensiosismo, parente da arrogância, advem, por exemplo, da necessidade das pessoas, do alto da sua incontestável superioridade, taxarem as outras como fúteis e superficiais. Normalmente é um subproduto dum complexo de inferioridade.
            Ria-se mais, de si e dos outros, e vai ver que isso passa.


          • Rir propriamente, não. Não me estou a rir. Mas estou a sorrir. A sorrir para si! Sorrio como quem diz: paciência, não compreende; talvez um dia chegue lá! Mas sorrio sem pretensiosismo, sem vaidade, sem sobranceria, sem qualquer pingo de superioridade.

  4. Amadeu says:

    Então sorrio-me consigo, já que não posso tuteá-la.

  5. Augusta Clara Matos says:

    Para quem diz chamar-se Amadeu

    Não tencionava voltar aqui a dar importância às suas insolentes charlas mas, já que você gosta de achincalhar os outros e, pelos vistos, faz disso profissão, sempre venho dizer o que penso . E não é para si que falo porque você não me merece tanto. É para quem o lê e, provavelmente, ainda lhe acha graça. Faz uns joguinhos com as palavras, dá um toque de humor e ganha sucesso. Porque não consegue tê-lo doutra maneira. Porque você é o típico invejoso, o despeitado que tem uma dor do cotovelo dos diabos por não ser capaz de fazer igual, de não ter a mesma categoria de quem pretende menorizar. Como todos os invejosos, você sente-se mal com o bem dos outros e vice-versa. Porque se não sentisse não tinha passado a este insistente massacre sobre a obra de valor dum homem que conheço bem e que, nem como pessoa nem como pintor, poeta e prosador deveria ser obrigado a aturá-lo se este blogue tivesse o cuidado de não permitir comentários medíocres e insultuosos. Uma coisa é fazer crítica, outra é ser reles e mesquinho.

    Mas bem pode você cansar-se porque a obra do Adão Cruz não fica prejudicada por isso. E a mim não vale a pena responder porque já cá não estou.

  6. Amadeu says:

    Cara senhora de augusta prosápia

    Como sei que me vai ler às escondidas, aqui vai a minha resposta.
    Muito obrigado pelos seus epítetos , repletos do mais fina raivinha bafienta.
    Você é cómica: Ai não me massacrem o ídolo que eu desafiiiino.

    Insolente é dos elogios que sinceramente mais lhe agradeço. Teria gostado mais de “atrevido”, mas pronto, não está mal.

    Confesso que sinto inveja, não do seu Adão ( porra !! ), sim de muito do que vejo por aí, mas a vida tem sido bem minha amiga.
    Inveja sinto eu dum outro Amadeu porque agora saberia escrever um manifesto Anti Adão.

    Por outro lado, a minha amiga, do cimo da sua cadeira de baloiço, aposto que é uma cusca da pior espécie. E se eu gosto de atazanar cuscas …

    Conte comigo para lhe achincalhar o ídolo sempre que quiser.

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