Acordo Ortográfico prejudica Futebol Clube do Porto

O labor incansável do João Roque Dias permite-me, todos os dias, confirmar que o chamado acordo ortográfico (AO90) é uma fonte de ruído e não me estou a referir ao debate entre os defensores e os críticos.

A imagem foi retirada desta página. A ambiguidade criada pelo título resulta da obrigatoriedade, imposta pelo AO90, de não acentuar a forma verbal ‘pára’, o que, de uma penada, modifica a terceira pessoa do singular do presente do indicativo e a segunda do singular do imperativo, ao mesmo tempo que cria, na ortografia portuguesa, mais um par de palavras homógrafas, confundindo a dita forma verbal com a preposição ‘para’ e aumentando, deste modo, a dificuldade de leitura, ou seja, criando ruído.

A minha condição de benfiquista até poderia levar-me a querer que a palavra em causa fosse a preposição, não vá o Porto contratar algum jogador que torne a vida do Benfica ainda mais difícil. A confirmação de que é o verbo deixa-me, confesso, um pouco assustado, sobretudo porque o supersticioso que se esconde em mim lembra-se de que o Santa Clara é filial do Benfica, o que poderá ser visto como um presságio. Façamos os prognósticos mais perto do fim do campeonato.

Já se sabe que haverá algumas almas que se lembrarão de que já existiam palavras homógrafas antes do AO90, como se a existência prévia de obstáculos fosse razão suficiente para se criem mais obstáculos. Entretanto, e não por razões sentimentais, os autores do AO90 obrigam a manter o acento em ‘pôr’ ou em ‘pôde’.

Termino, na esperança de que, durante os próximos meses, seja possível ler, várias vezes, o título “Ninguém pára o Benfica”: seria bom sinal para a ortografia e para os que torcem pelo meu clube. Um título como “Ninguém para o Benfica” seria sinal de que Emerson continuará a ser o lateral-esquerdo, o que não deixaria de ser preocupante.

Comments

  1. albanocoelho says:

    A forma não acentuada existia na ortografia anterior ao acordo de 1911. E para que conste, Fernando Pessoa – tão desonestamente usado e abusado pelos defensores da ortografia de 1945 – era assim que escrevia.
    Felizmente para o meu clube, Celta de Vigo, com ou sem acento de momento dá igual… 😉

    • António Fernando Nabais says:

      A decisão de acentuar determinadas palavras nasceu, entre outras razões, da necessidade de distinguir homógrafas, tornando a leitura mais rápida, mesmo sabendo que o contexto ajuda a ultrapassar a ambiguidade. É esse o único critério que me interessa. Além disso, parece-me muito pouco operativo fazer comparações entre o AO90 e outras reformas anteriores a 1945, mesmo que pudéssemos encontrar argumentos a favor da manutenção do dígrafo ph-, por exemplo (os ingleses e os franceses escrevem assim e não têm sofrido com isso).
      Finalmente, lembrar a um benfiquista o Celta de Vigo é uma grande crueldade: aqueles sete golos ainda me doem 🙂


    • Que acordo de 1911? Refere-se à chamada «reforma» ortográfica imposta por um governo ditatorial em 1911?
      Nesse tempo Portugal era um país rural com 70% de analfabetos (quase tantos quantos os do Brasil de hoje). As coisas mudaram, entretanto. Pouco, mas mudaram.


  2. Sempre e mais uma vez se tem comprovado que o (des)acordo (des)ortográfico é o cúmulo do ridículo da língua portuguesa.
    Tanto faz para os que escrevem mau português. Se lhes dissessem que a acentuação gráfica deixa de existir, assim como o ‘h’ inicial ou final, porque não se pronuncia, de bom grado aceitariam.

  3. maria celeste ramos says:

    Aceitar o acordo é como borrar uma bela aguarela em que fica a cor sem forma

  4. maria celeste ramos says:

    E qualquer crinça de 4 anos “pinta” melhor

  5. Adriano Soares says:

    gostei! argumentos muito bons (os do autor do texto e os de Pedro Pinto).

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