A solução óbvia para a RTP

A indemnização compensatória à RTP decorre da decisão do governo, em 2003 (governo PSD/CDS PP, com Durão Barroso como primeiro ministro), de retirar a publicidade do canal 2 e de ter diminuído a do canal 1. A RTP em 2003 tinha uma passivo enormíssimo (1.370,6 milhões de euros; cf. relatório e contas de 2003) mas esta decisão cortou qualquer possibilidade de reequilibrar a empresa sem ser à conta dos contribuintes.

Mas a indemnização compensatória não é a única fonte de receita com origem nos contribuintes: a Contribuição Audiovisual é também uma taxa, funcionando como imposto, a ter em conta. O gráfico seguinte mostra a evolução das receitas provenientes de fundos públicos.

RTP – evolução das receitas provenientes de fundos públicos entre 2001 e 2011

Neste gráfico, entre 2001 e 2007 observa-se um acentuado crescente das receitas provenientes de fundos públicos e de uma aproximada estagnação destas receitas entre 2007 e 2011. No total, a RTP absorveu 2.3 mil milhões de euros num período de 11 anos (ver tabela mais abaixo).

2.3 mil milhões de euros! Vale a pena todo este dinheiro para o serviço público de televisão? A minha opinião é que não, já que o “produto” que a televisão pública vende não difere substancialmente do dos canais privados. Mesmo olhando para as especificidades determinadas pela Lei da Televisão e pelo Contrato de Concessão do Serviço Público de Televisão, não encontro algo que me leve a dizer “olha, sim, isto os privados não fazem” e, muito menos, que justifique tamanho investimento. É muito, muito, dinheiro. Mas o objectivo do post não é discutir este assunto, portanto adiante.

A decisão do governo de Barroso de limitar a publicidade na RTP, em vez de acabar com o sorvedouro de fundos públicos chamado RTP ainda piorou mais a situação. Foi uma medida que favoreceu consideravelmente os outros dois canais de televisão, a qual se tornou numa forma indirecta dos contribuintes financiarem os canais privados.

Depois do problema agravado por um governo PSD/CDS em 2003, vem agora outro governo PSD/CDS dizer que isto não pode continuar. E atira barro à parede com soluções que se compõem para continuarem a passar a factura para os contribuintes. Andam no ar duas más soluções:

  1. concessionar a RTP1 e fechar a RTP2, continuando a existir a Contribuição Audiovisual: é uma má solução porque se fecha o melhor dos canais e os contribuintes continuarão a pagar. Adicionalmente, a oferta televisiva de sinal aberto diminui.
  2. vender a RTP1 e manter a RTP2 pública: é uma má solução porque, aposto, a RTP1 ficaria um canal limpo do passivo da empresa e a RTP2, suportada pelos contribuintes, ficaria com todas as dívidas.

A solução óbvia para a RTP e a mais saudável para os contribuintes consiste em repor a publicidade nos dois canais e cessar com as transferências do estado para a RTP. Não é significativo que a RTP seja privada ou pública. Importa, sim, que se torne auto-sustentável. Isso passaria por fechar canais (RTPN, RTP Madeira, RTP Açores, por exemplo), fundir os dois canais internacionais num só, conter-se quanto regalias salariais, apostar na produção própria, …. Enfim, viver dos seus próprios meios como se deseja que qualquer empresa saudável, pública ou privada, faça.

Há uma razão clara para que o actual governo nunca venha a colocar esta solução na mesa: ir por este caminho não gera 100 milhões de receita imediata para compor as contas públicas deste ano. Outro motivo para que o governo não vá por este caminho é a guerra garantida que os canais privados lhe iriam mover. Bastariam algumas análises económicas mais incisivas e toda a torre de marfim da austeridade e da recuperação económica cairia por terra. Assim sendo, o interesse partidário falará mais alto do que o interesse nacional e, é o meu palpite, uma solução semelhante à n.º 2 há-de vingar, para mal dos nossos pecados.

Dados adicionais

A tabela seguinte mostra os dados usados no gráfico anterior. Os dados foram retirados dos Relatórios e Contas da RTP dos anos 2003 a 2011 (os dados de 2001 e 2002 constam das contas de 2003).

RTP – evolução das receitas provenientes de fundos públicos entre 2001 e 2011

Duas notas:

  1. O relatório e contas de 2010 apresenta um valor da Contribuição Audiovisual para 2009 diferente daquele que havia sido apresentado nas contas de 2009 (115.3 em 2010)
  2. O relatório e contas de 2010 apresenta um valor da Indemnização compensatória  diferente daquele que foi publicado no Diário da República (24.7 milhões a menos do que o apresentado no DR)

Comments

  1. Joana Alves de Sousa says:

    Ontem foi mais uma noite de excelente serviço público na RTP: Tourada no Campo Pequeno em horário nobre. Como a mim me dá vómitos ver tanta crueldade e barbaridade desliguei e vi um filme no DVD. Acho também excelente aqueles programas cheios música apimpalhada transmitidos de uma terrinha qualquer com alguém já escreveu aqui. E também adoro aquele concurso (com o Malato pago a peso de ouro) com perguntas para gente imbecil que cai estúpidamente num alçapão. Lindo. Viva a RTP!!!! Vale todo o dinheiro que é desviado da saúde da educação e da segurança. Viva o regabofe.

    • Maquiavel says:

      Tivesse mudado para a RTP2.
      Preferia a pimbalhada no DVD? É a sua escolha.


      • Na RTP 2 estava a dar uma merdosa e fantasiosa série americana sobre suposta medicina forense. Boa alternativa !!! buargh

  2. Amadeu says:

    O seu raciocínio envolve um truque e por isso torna-se demagógico.
    O Jorge daria um bom assessor do Relvas.
    Para fazer prevalecer o que acha despropositado, o meu amigo faz as contas a 11 anos.
    Era como se o estado dissesse que um professor, a quem paga 1000 euros por mês, lhe custou 154.000 euros nos últimos 11 anos. Assim dito parece muito. Dez professores custaram mais de um milhão e meio de euros …

    Mas se se fizer as contas, dá cerca de 20 euros por ano por habitante. Será muito ?

    No meu entender, a verdadeira questão é a qualidade do serviço publico. Touradas ? Futebol ? Ordenados milionários para meia dúzia de estrelas ? Concursos rascas ? Telenovelas ?
    Isso sim merece ser discutido.

    O resto, é bom para notícia do Correio da Manhã.

    • João Lucas says:

      20 euros por ano a cada cidadão para satisfazer 24 % das audiências!? Parece-me um roubo!

      • Maria Amélia says:

        20 euros por cidadão quer dizer que uma familía de 3 pessoas paga 60 euros por ano e vê a TVI ou a SIC . Muito razoável claro pois.

        • Maquiavel says:

          Se säo täo broncos que preferem ver a porcaria da SIC ou TVI em vez dos programas de qualidade na RTP2 ou RTP Memória, se calhar ainda merecem que lhes tirem mais dinheiro!


          • Excelente. Os principais responsáveis pelo deserto em que isto se está tudo a tornar são mesmo, em grande medida, (muitos d)os portugueses.


          • Ninguém merece ser roubado por ter falta de cultura ou menos habilitações. Senão teria que se aplicar esse principio a muitas outras coisas e poderia descair em algo muito perigoso!


          • 250 milhões de euros/ano de dinheiro dos contribuintes pela RTP2 e RTP-Memória (só para aqueles que têm TV paga) parece-me um bocadinho excessivo.


          • Talvez seja excessivo, depende da medida de comparação e do que se pretende. Talvez seja possível fazer poupanças nos salários das super-estrelas, ou na programação menos virada para serviço público da RTP1. Mas daí a extinguir a RTP2 (e também a RTP Memória, onde tenho visto debates absolutamente memoráveis moderados pela Clara Ferreira Alves, ou as séries Sherlock Holmes e até há pouco tempo Poirot ou ainda filmes quase de culto, como os do Clint Eastwood) que prestam indubitavelmente esse serviço público, vai uma grande distância.

          • Jaime Martins says:

            A opção por produzir séries tão medíocres como Pai à Força, Liberdade 21, Maternidade e outras tantas é no mínimo infeliz pois aquela porcaria não tem audiências nenhumas e custa uma dinheirama. Ainda se fossem patrocinadas pela Santa Casa da Mesericórdia…

      • Amadeu says:

        1,70 euros por mês, já lhe parece menos ?
        E 5 centimos por dia ? Que tal ?

    • jorge fliscorno says:

      Um truque… É isso que tem a dizer? E da solução avançada, que é o objectivo do post, nada?

      Quanto aos 20 euros, se fôssemos por essa ordem de ideias nada seria excessivamente caro aos contribuintes. 10 euros para uma PPP, 35 euros para mais um submarino, 74 euros para o aeroporto de Beja… Até o BPN com o seu mega buraco de 5.3 mil milhões de euros não seria assim tão desastroso (530 euros por português).

      Agora o giro mesmo é vir acusar-me de usar um truque, de ser demagogo, de servir para assessor do Relvas e depois usar você mesmo um truque para fundamentar todo o seu raciocínio. Posso devolver os mimos?

      • Amadeu says:

        Gosto imenso de mimos, principalmente femininos.

        Não perco tempo a discutir soluções neoliberais de auto-sustentação para tudo. A seguir iam os museus, por exemplo. Fechavam todos.

        Que haja uma diminuição da indemnização compensatória e/ou contribuição audovisual, concordo. Haja um orçamento que seja escrupulosamente respeitado. Haja uma discussão séria do que é considerado serviço público. Limpem-se os futebóis, telenovelas e touradas. Mandem-se as estrelas e consultores para a SIC e TVI. Acabe-se com a concorrência com os programas pimba dos outras estações. Na hora nobre ponha-se um programa com poetas e filósofos. Se bem me lembro, seria bem bom.

        Claro que se vai vender menos publicidade. Claro que tem de se ter contribuições do estado. Não se pode ter o melhor dos dois mundos.

        • Anabela Quental says:

          Para se fazer uma estação de TV de serviço público com conteúdos de valor cultural tipo Acontece, Sociedade Civil, RTP Memória (custo zero), Documentários e informação como o Hoje, bastaria (e sobraria) o valor da taxa audiovisual. O pior seriam as audiências que tal estação teria lol.

        • jorge fliscorno says:

          Ora, ora, fuga para a frente. Bom truque de ataque. Continue que vai bem.

          Comparar uma empresa com um museu não é bem o mesmo, pois não? Não haverá aí uma nota de demagogia? Ah! Espere, demagogos aplica-se sempre aos outros.

          Mas perante a tese de uma empresa ter as contas equilibradas ser um argumento neoliberal, calo-me já. É que tem razão. Como é que eu não tinha visto isso? Tem razão, muito bem.

          • Amadeu says:

            Pelos vistos o Jorge também apresenta um défice … de compreensão.
            Comparo o serviço público de um museu com o serviço público da RTP.

          • jorge fliscorno says:

            O post fala de sustentabilidade da empresa e não do serviço público. Respondeu-me que não discute soluções de auto-sustentação e dá como exemplo fechar os museus. Pode procurar compor o ramalhete mas o que lá está escrito na sua resposta não é a comparação de serviço público.

            Quanto à solução que apresenta, vejo que não equaciona a reintrodução de publicidade para que a RTP fique em pé de igualdade com os privados. Parabéns por se prestar a financiar a iniciativa privada. Os balsemões agradecem.

            Salvo força maior, termino unilateralmente este diálogo até que seja capaz de argumentar sem entrar pelo ataque pessoal, que é o que tem feito desde o seu primeiro comentário.

    • Amadeu says:

      Boa CORNO!


  3. porque é que ninguém sugere a rtp safar-se apenas com a contribuição audiovisual e sem margem para se endividar? e Já agora fechar imediatamente as equipas e equipinhas de estudo com os borges e os seus salários de 25mil euros por mês!

    • JPires says:

      Mas isso era o que era suposto acontecer só que a RTP desde que abandonou os estúdios do Lumiar se tornou num sorvedouro de dinheiros públicos sem fundo e tudo isso para ter uma programação tão comercial quanto as estações privadas que entretanto surgiram e garantem 75% das audiências a custo zero!


  4. Nenhum Governo está interessado em privatizar a RTP ou se está, por questões ideológicas, faz sem contrapartidas. Mantém-se a estrutura e a sedução das audiências para veicular a verborreia oficial.
    Qualquer que seja o grupo económico que fique com a RTP, será sempre “amigo da cor governante para toda a ocasião”. E se for concessão ainda pior. Será uma PPP inesquecível, até a próxima revolução tratar do assunto.

  5. Jaime Martins says:

    A RTP e outras empresas desastrosas do sector empresarial do Estado que não sejam imprescindíveis para a sociedade devem ser privatizadas sem hesitação pois também já se privatizaram outras empresas que eram lucrativas como a EDP a PT e a GALP e ninguém protestou assim. Temos que mudar a nossa forma de pensar ou o futuro deste país está em sério risco.


    • esse talvez seja o pior exemplo possível pois as experiências com as empresas mencionadas mostraram-se pouco menos que ruinosas para a maioria dos bolsos dos portugueses, excepto aquela minoria que aproveitou a privatização para se atirar às acções.

  6. Menino Tonecas says:

    Caro Feliscorno
    É mais que óbvio que se a RTP se tivesse auto financiar dispensando a Taxa de audiovisual e as “subvenções” que saca do orçamento geral do estado já teria falido há muito tempo. A questão é querem os portugueses na sua maioria continuar a sustentar o luxo de terem uma estação pública sem serviço público? E que tal um referendo sobre o assunto?

  7. maria celeste ramos says:

    É um país do saque onde houver enquanto se puder – há tanto dinheiro no país – em que mãos está?? – eu bem guardo o meu dinheiro na mão fachada como o macaco guarda a banana – mas — sou umas mãos largas para os Malatos asquerosos

  8. Menino Tonecas says:

    Num país em situação muito difícil em que existe 800 000 desempregados e muita gente a ganhar o salário minimo de 580 euro eis alguns ordenados mensais na RTP:
    Fátima Campos Ferreira (10 mil euros mensais),
    Catarina Furtado (30 mil euros),
    Fernando Mendes (20 mil euros),
    José Carlos Malato (20 mil euros),
    Maria Elisa (7 mil euros),
    Jorge Gabriel (18 mil euros),
    Sónia Araújo (14 mil euros),
    João Baião (15 mil euros),
    Tânia Ribas de Oliveira (10 mil euros)
    Sílvia Alberto (15 mil euros),
    entre outros.
    E pagos com os impostos e taxas por todos os outros cidadãos


    • Tens razão. Que tal colocar uns sem abrigo a apresentar o telejornal? Era dois em um: ficavam inseridos na sociedade e saíam da estatística da pobreza. Pena que, mesmo apesar da crise e do défice, a nossa maior lacuna ainda esteja no campo da pobreza de espírito e da demagogia barata…

      • Menino Tonecas says:

        Falas de barriga cheia pois claro! Se ganhasses o ordenado mínimo ou estivesses desempregado como acontece com metade da população activa deste miserável país não falarias assim. Vergonha nessa cara 🙂


        • … ou então é porque sou mais sensível a acabar com os pobres do que salivar de inveja por uns quantos ganharem mais do que eu.

          • Menino Tonecas says:

            Não se trata de inveja mas sim de estabelecer o que será uma retribuição justa pelo trabalho efectuado por supostas vedetas cujo o valor real e o aporte para a felicidade dos cidadãos é ZERO! Passar bem


  9. No século XIX não havia televisão pois não? Mas havia papéis, pergaminhos, etc. As formas de comunicar e guardar a informação mudaram. Terá um Estado a obrigação de manter o registo audiovisual da sua História. Em Portugal a que entidade está confiada esta tarefa? Ao Youtube?…


  10. Estranhos esses relatórios de contas. É que “A contribuição para o audio-visual foi criada pela Lei n.º 30/2003, de 22 de Agosto” http://www.erse.pt/consumidor/electricidade/falarcomaerse/apresentarumpedidodeinformacao/Paginas/Contribuicaoaudiovisual.aspx
    A taxa de radiodifusão acabou em 1993 (se não erro), obra e graça de Marques Mendes favorecendo as privadas.
    Donde as indemnizações compensatórias, criadas para tapar o óbvio buraco, a serem divididas seria por 18 anos, incluindo aqueles em que não houve taxa nenhuma.
    Já agora convém comparar o custo da RTP com o dos restante serviços públicos europeus. Sem dúvida que gastam dinheiro em estrelinhas, mas mesmo assim são mais baratos.

    • Maquiavel says:

      Já para näo falar dos retransmissores e outro equipamento que era propriedade da RTP (i.e. pago por todos nós) e que foi vendido a preço de saldo a “amigos”, e agora a RTP tem de pagar aluguer quando os utiliza!!!
      Claro que o Fliscorno acha isso muito bem, afinal, foi para “nivelar a concorrência”.

      • jorge fliscorno says:

        Se o Maquiavel insiste em me colar rótulos e meter palavras na minha boca, podia ao menos dar-se ao trabalho de procurar neste blog o que antes havia escrito sobre o assunto.

        «Com a TDT, negócio ruim para os portugueses mas frutuoso para a PT e mais alguns, há o mito do Portugal tecnológico e inovador que cai, revelando que, por entre negócios e propaganda, apenas gostamos de geringonças tal como outros povos delas gostam.»
        http://aventar.eu/2012/06/16/a-tdt-e-o-fim-do-mito-do-portugal-tecnologico-e-inovador

        Não precisa de pedir desculpas.

    • jorge fliscorno says:

      A Contribuição para o Audiovisual consta nos diversos relatório e contas da RTP. Não sei explicar a relação disso com a dita “taxa”.

  11. Menino Tonecas says:

    “… Já agora convém comparar o custo da RTP com o dos restante serviços públicos europeus. ”
    Sim e já agora comparar também os PIBs e os rendimentos per capita não?


    • Compare, compare. E tinha-me esquecido de um detalhe: a rede de emissores. Parece que foi vendida à PT, por 1 euro…

      • Menino Tonecas says:

        A questão é: vale a pena manter um sorvedouro de dinheiros públicos como a RTP a todo o custo, quando se estão a efectuar cortes em sectores prioritários com a saúde, a educação e a segurança?
        Eu penso que não (logo existo) 🙂


        • A questão é: vale a pena pagar submarinos, BPN’s, BES, etc, ou manter um serviço público que para o ano até começa a dar lucro?

          • Menino Tonecas says:

            BPN’s, BES, etc,
            Isso foram opções (muito questionáveis) do passado. Já não há volta a dar. Quanto à RTP dar lucro e auto sustentar-se como qualquer empresa normal numa economia de mercado é que se discute agora… Não dá lucro nem vai dar, é uma estrutura colossal e dispendiosa demais para o país. E não é prioritária!


          • A RTP passa a dar lucro pela simples razão de que há um contrato programa, feito por Morais Sarmento, que está a funcionar. As indemnizações chamam-se compensatórias porque compensam a descapitalização (e saque) da RTP nos anos 90.
            Há volta a dar há, porque continuamos a injectar dinheiro nos bancos. Basta parar de o fazer. E falamos do custo de várias RTP’s. Isso sim, é prioritário.


  12. No meio do pugilato a que temos assistido acerca da TV pública creio que se anda a meter muita coisa diferente no mesmo saco. Talvez seja melhor partir “o assunto” em partes::
    Comecemos pela Questão Numero 5 – EXEMPLOS EXTERNOS
    Não conheço em pormenor a realidade dos outros “parceiros” europeus mas segundo consta e ninguém contesta, dispõem de TVs públicas, as quais inclusivamente se organizam em conjunto e mantém cooperação a vários níveis… A decisão em marcha tornar-nos-á originais… Não quer dizer que isso seja mau, mas originalidade “Relvica”, preocupa-me…
    Questão Numero 4 – AMBIENTE AUDIOVISUAL no século XXI.
    Desde que os irmãos Lumière deram à manivela o mundo nunca mais foi igual, e chegamos ao nosso século no meio da mais bíblica, caótica e apaixonante confusão de meios de comunicar. Temos de um lado o avanço desenfreado dos grandes conglomerados privados, do outro, a internet e o “citizen jounalism”, temos o Facebook, etc. Temos muita coisa… E temos muitas coisas más: jornalismo ligeiro e alienado ao poder económico, cultura do voyeurismo e boçalidade — vale a pena olhar aqui: http://www.tvi.iol.pt/videos/13690067 — e temos cada vez menos oásis de qualidade, de cultura, ou simplesmente de decência!
    Passemos à Questão Numero 3 – A NECESSIDADE (ou não) dum serviço público de televisão
    Será que podemos dispensar uma televisão que derive directamente da sociedade, da cultura do País, independente de interesses económicos e políticos, que possa ser vista “por quem quer ver”, sem as preocupações do “share”? Não me parece má ideia… Temos ainda uma outra questão pouco referida, mas que deve ser respondida no “pacote” de decisões a tomar: que entidade terá de se comprometer com a salvaguarda do nosso património audiovisual? Cria-se mais um instituto? Ou é mesmo o Youtube a tratar do assunto… 😉
    Questão Numero 2 – AMBITO da alienação
    Fala-se na RTP1 e no “extermíno” da RTP2, no entanto o universo audiovisual do Estado é mais amplo. O que é que lhe vai acontecer. O generoso Borges não lançou pistas, mas é bom que esta questão se decida também.
    Questão Numero 1 – O CUSTO e o PREJUÍZO
    O argumento mais “visível” para “fechar” a televisão pública é o de que ela custa muito dinheiro ao contribuinte. Talvez já tenha custado mais, talvez já tenha custado menos… Enfim, varia consoante o modelo de financiamento e forma de gestão. Temos pois que este “problema” se resume à definição de objectivos e à maneira como se atingem. Não é por aqui, pelo custo, que uma decisão racional deve ser tomada. Se em vez de dez milhões fossemos apenas trezentos mil, continuaríamos a poder “manter” uma televisão pública, desde que ajustada à carteira! Talvez um dos problemas que nos levou à polémica tenha sido exactamente o desvio entre a TV que podemos pagar e aquela que construímos… (a velha mania das grandezas!) Em resumo, enquanto podermos ter submarinos, Leopards, F16 e o Estado a viajar de Mercedes poderemos sempre pagar a RTP. Referir o “custo” para fechar a RTP é apenas um subterfúgio demagógico e uma fuga à responsabilidade de gerir com qualidade, equilíbrio e sustentabilidade. E isso é possível… (A propósito de “Mercedes” não entendo porque é que o governo poupadinho ainda não mudou para monovolumes da Autoeuropa…).
    Por fim, se “o problema” é mesmo – e só -, uma questão económica então faça-se uma boa gestão, ou venda-se o arsenal inútil que só serve para enferrujar (não faltarão compradores) e trate-se o assunto da televisão pública com mais seriedade, responsabilidade e respeito.

    • jorge fliscorno says:

      «Não é por aqui, pelo custo, que uma decisão racional deve ser tomada.»
      De acordo. Mas o facto é que o custo tem que ser balanceado com os resultados. Eu olho para o canal 1 e não vejo melhor do que os privados. O canal 2 é uma excepção pela positiva mas, novamente, precisamos de olhar para esse resultado em função de quanto se paga por ele.

      Quanto aos outros canais como a RTP Memória e RTP Notícias não passam em sinal aberto, pois não? Não vejo como é que estes se podem enquadrar no serviço público, já que só nos pacotes pagos é que é possível aceder a esses conteúdos.

      Não precisamos de complicar. Se a RTP pudesse ficar em igualdade de circunstâncias com os outros canais em termos de publicidade, podia fazer como dantes fazia e jogar com uma programação menos vocacionada ao share no canal 2, sabendo que o canal 1 comporia o ramalhete. Claro que isto isto é uma solução que não agrada aos privados mas, paciência, gerir o risco é competência deles.

      Já agora, no outro dia estava a ver um programa sobre as TV na internet, cá em Portugal. Fez-me lembrar as rádios pirata no tempo em que era quase impossível ter-se uma licença de rádio. Com a diferença, claro, que essas net-TV estão na legalidade. Pois a questão é um pouco esta também. Neste momento os shares de “audiência” da internet face à TV tradicional mostram que há uma tendência mais do online e menos da emissão do conteúdo tradicional de TV. O que me parece é que o fenómeno jornais vs. blogs na comunicação escrita em breve passará para “emissão” online vs. TV tradicional.

      Ainda quanto às licenças de TV, é de notar que é um dos sectores onde os privados têm mais aconchego do estado. Por exemplo, quem quiser abrir uma estação de televisão tradicional levará uma simples nega porque o estado decide quantas licenças poderão existir. Isto até no cabo, onde a questão da limitação do espectro rádio-eléctrico não se coloca (na verdade, com a TDT esta questão também deixou de se colocar). As tradicionais justificações passam pelo clássico “o mercado não dá para todos”. Mas isso é uma decisão que cada investidor terá quem tomar. O lucro é dele mas o risco também. Desta forma, o estado é o garante da ausência de risco. Se este contexto também se verificasse na comunicação social escrita, o Jornal i nunca teria visto luz do dia, por exemplo. E se esse mercado já está saturado…


      • Jorge, quando diz “Eu olho para o canal 1 e não vejo melhor do que os privados. O canal 2 é uma excepção” — Estou completamente de acordo! — No entanto, temos de reconhecer que a “solução” vigente faz algum sentido ao permitir a complementaridade entre os dois gerando assim a “escala” necessária para maximizar recursos.
        Não obstante, pegar-se apenas no argumento da “despesa” – que é resultado da gestão indulgente do PS e PSD (para dar o nome às “coisas”) -, e com isso liquidar a RTP não me parece aceitável. É punir o contribuinte pelos erros do gestor.
        Apesar de grande parte da programação da TV pública ser “bosta”, a mim chateia-me perder aqueles pequenos instantes únicos em que assim não é, e que o privado não consegue gerar… – Não mesmo! – Assim, no estado actual das coisas, prescindir do “bom” que a RTP produz é ter um País mais estúpido, fútil e cada vez mais dependente do “ligue 760 XXX XXX” para ganhar 5.000 euros”, pelo meio de entrevistas absolutamente intragáveis… (Exemplo apenas ilustrativo da “estética” do privado, para não entrarmos agora em questões mais profundas por exemplo de natureza política, cultural, etc…).


      • “Eu olho para o canal 1 e não vejo melhor do que os privados.”
        Ao longo de muitos anos também não vi. Mas sei que a RTP levou em cima com a obrigação de ser concorrente com eos canais comerciais. Essa foi a morte do serviço público, do seu papel de televisão alternativa, primando pela qualidade sem ter de se preocupar com a competitividade.
        A RTP que quero, e que justificará o que pago por ela, não é esta. No entretanto andámos a pagar a sacanice do PSD, sempre muito fiel ao concorrente Balsemão, o deixa andar do PS, e uma conta final que pagámos,; resolvido o problema é dar a uma empresa qualquer. Até o CDS percebeu isto, antes de ser governo,no governo que entrega a RTP a um relvas.

      • jorge fliscorno says:

        Nem a propósito, um estudo da Google sobre o share da nossa atenção face ao nosso mundo de ecrãs que nos rodeia:

        http://pt.scribd.com/doc/104313542/Multiscreenworld-Final

        (via http://abertoatedemadrugada.com/2012/08/a-atencao-dividida-pelos-ecras-nossa.html)

  13. Maquiavel says:

    Muito se fala ai e tal 240 milhöes de euros por ano. É muito? Gostava de saber, por exemplo quantos dos comentadores sabem quanto custa fazer um pequeno documentário de 10 minutos. Eu por acaso até sei, que trabalho no ramo.
    E também gostava de saber se sabem quanto é que a RTP paga anualmente pelo aluguer dos transmissores que eram seus (i.e. nossos) e que foram vendidos por 1€ à PT privatizada.

    Entäo e quanto se pagará por ano ao privado que ficará com a concessäo?

    É que teremos o pior de todos os mundos: o telelixo da RTP1 continuará, o que desaparece é a RTP2 e demais canais que väo mostrando programas de alguma qualidade, e o Zé Povinho a arrotas com as compensaçöes milionárias. É só estabelecer parangonas com a Fertagus, que recebe 4-vezes-4 o que a CP recebe por passageiro em “indemnizaçöes compensatórias”.

    Ah, mas isso é outra batalha, näo é, defensores da alienaçäo da RTP?

    • jorge fliscorno says:

      Eu não sei mas suspeito que não será por causa do preço dos documentários que a RTP gasta o que gasta.

      O negócio da TDT é mais um exemplo do que de vergonhoso e danoso para os contribuintes se tem feito.

      • Maquiavel says:

        Chutou para canto. Já estou habituado.
        Eu falo do escândalo de se pagar mais ainda quando se ultra-compensam privados a quem foi oferecido um monopólio, e nem um pio.

        Mas vá lá que tocou num ponto fundamental: a TDT em Portugal é das maiores palhaçadas, em qualquer país foi feito e o povo passou a ter *mais* canais públicos e *mais* canais em sinal aberto. Em Portugal é tudo ao contrário. Mas disso se pode fazer *outro* artigo. Força!

        • jorge fliscorno says:

          Então mas agora sou obrigado a comentar toda a frase que aqui deixe? Mais vale deixá-lo a falar sozinho! Não me manifestei já o suficiente sobre a alternativa de equilibrar a RTP pela reintrodução de publicidade para ficar em pé de igualdade com os privados, assim dispensando concessões e privatizações? É preciso uma boa dose de paciência!

          Quanto a TDT, voltamos a falar quando ler os *outros* posts que já escrevi (de resto, como se se tratasse de quantos mais melhor).

          • Maquiavel says:

            Vou-lhe explicar o que você fez: escamoteou um dos argumentos (convenientemente o secundário), e ignorou a questäo principal, desviando a atençäo dessa pergunta (ainda que para um ponto válido, mas no máximo tangente à discussäo).
            Isso é “chutar para canto”. Agora faz-se de vítima. Começa a ser triste discutir consigo.

            Entäo repito:

            Agora pagam-se 240 milhöes ao ano.
            Entäo e quanto se pagará por ano ao privado que ficará com a concessäo?

          • jorge fliscorno says:

            Pois deixe-me fazer-lhe um desenho: não peguei no outro argumento porque até concordo com o que escreveu. Logo nada tinha a acrescentar. Meti um reparo quanto aos custos dos documentários porque de facto não me parece que seja aí que se gastam os milhões. Comentei a questão da TDT porque me interpelou directamente.

            Triste é obrigar-me a ter que justificar o que é que comento e não comento numa resposta a um comentário seu. E depois arma-se em superior dizendo que é triste discutir comigo. Sabe que mais, ninguém a tal o obriga. E nem a mim. Portanto, passe bem.

  14. Maquiavel says:

    Onde é que temos disto nas privadas?
    http://www.youtube.com/watch?v=GLPS7R3IwdE
    GLPS7R3IwdE

    • jorge fliscorno says:

      Em que canal de sinal aberto , RTP1 ou RTP2, é que isto passou? Se foi só na RTP Informação, então teremos que incluir a SIC Notícias.

      No meu entender, não faz sentido discutir canais pagos no contexto do serviço público de televisão.

      • Maquiavel says:

        Faz sentido, sim, o título deste artigo é “A solução óbvia para a RTP”.
        Uma das soluçöes óbvias é passar mais canais da RTP para sinal aberto!
        Ah, mas isso já näo interessa aos amigos da SIC e TVI!

        Tanto se fala da Finlândia… ora bem, em 2000 na Finlândia existiam 4 canais tal como em Portugal: 2 públicos, 2 privados.
        Com a TDT temos agora uns 12 em sinal aberto, dos quais 4 públicos. Os privados também têm vários canais abertos, e apareceram novas estaçöes.
        Na Finlândia os canais públicos (Yle) não têm publicidade (aleluia!), têm é programas de alta qualidade (por exemplo, a sua informaçäo e programas infantis continuam a ser a referência), alguns feitos localmente, outros importados–muitos de outras TVs públicas, como a BBC (näo sei se sabem, mas ayé o “Doctor Who” é feito pela BBC, que ganha bom dinheiro exportando-o. Só mais um exemplo de soluçöes óbvia).
        O que a Yle näo tem é directores e apresentadores com mordomias milionárias. Se tal quiserem, têm bom remédio, vejam se as privadas lhes pagam. Óbvio.
        Já aconteceu com um que tinha um bom programa de humor semi-político e que agora apresenta telejornais numa privada. Por mero acaso essa é a estaçäo dos Big Brothers e afins, e é completamente “a voz do dono” do partido conservador Kokoomus.
        Quem quer imparcialidade e qualidade vê a Yle.

        Em Portugal, embora a RTP seja a voz do Governo ainda vai tendo uns laivos de imparcialidade (inexistentes no resto), especialmente na RTP2 e convenientemente às 02:00… enfim, pode-se sempre gravar e ver no dia seguinte à hora da novela!

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