Postcards from Romania (30)

 Elisabete Figuieredo

Fui de comboio ao cinema, infinitamente, até Bucareste

O meu lugar tinha uma janela grande, não dividida. A velocidade do comboio, mesmo não sendo imensa, não me permitiu tirar muitas e, sobretudo, razoáveis, fotografias ao que passava além da janela. Então resignei-me e entre um livro (avancei 200 páginas hoje, claro), o caderninho de apontamentos a que estraguei o elástico, os passeios no corredor e algumas conversas, o que fiz mais foi olhar.

Praticamente é a mesma paisagem que vi quando avancei de Bucareste em direção a Cluj, com paragens, já sabemos. Mas agora vejo-a de modo diferente e tenho mais tempo (muito tempo) para olhar para tudo muito bem. A Transilvânia é bonita, mesmo se as aldeias são arcaicas com as suas casas pobres e rudimentares.

Os campos de girassóis, as igrejas nas suaves colinas, as vacas pachorrentas, as ovelhas vagarosas, as carroças, as pessoas a trabalhar nos campos imensos, o milho, as videiras, as cidadezinhas, e ao fundo as montanhas, em algumas zonas a floresta densa, o mundo enfim, que se apresenta para que eu o contemple. Como no cinema. E eu assim faço. Infinitamente, até Bucareste.

O comboio chega às 23h15, trinta e cinco minutos depois do previsto. A Gara Nord está cheia de gente. Primeiro fumo um cigarro enquanto sou abordada por imensos homens que me perguntam se quero um táxi. Digo que não, de certeza que me iriam roubar no preço. Depois avanço por entre as pessoas, centenas (onde vão a esta hora ou de onde chegam?), encontro o moço da carruagem e peço se me ajuda a encontrar um ‘táxi bom’. E, já disse, ele assim o fez. O taxista conduz como um louco, mas nem mais um leu para além do acordado me levou. Bucareste parece ser uma cidade imensa. Chego ao hotel quase à meia-noite. Ponho as coisas no quarto e saio logo a seguir, tenho fome. Percorro um bocadinho do Boulevardul Regina Elisabeta, encontro uma ‘pastelaria-quiosque’ aberta, compro um strudel e uma água, cruzo-me com muitos cães vadios, mas resolvo não ter medo, atravesso uma praça, compro tabaco e regresso ao hotel.

Bucareste, penso, cheira mal. Entro no quarto, enorme, saio para a varanda que o rodeia para fumar mais um cigarro (reponho os níveis de nicotina, já disse, mãe) e pasmo diante da vista. À minha frente o Danúbio e logo depois, se esticar a mão podia jurar que lhe toco, o Palácio do Parlamento, ainda iluminado, gigantesco e feio. Bucareste cheira mal. Mas isso que pode interessar, agora?

(Bucareste, 14 de Agosto de 2012)

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