Postcards from Romania (32)

Elisabete Figueiredo

Bucareste é uma cidade agreste

O Palácio do Parlamento secou tudo à sua volta, menos o Boulevardul Unirii (antes a Avenida da Vitória do Socialismo). Maior que os Champs Elysées tem a meio a Piata Unirii. Nesta e nas ruas, gigantescas, à sua volta, imensos ciganos vendem isto e aquilo. Há muitos pedintes e sem-abrigo. Ao dobrar a esquina, imediatamente se entra noutra dimensão. Embora o gigantismo das ruas e avenidas continue e os palacetes e outros belos monumentos se misturem, de uma forma desagradável, com blocos de apartamentos de arquitetura ‘comunista’, feíssimos, degradadíssimos, a pobreza (nas ruas, pelo menos) diminui progressivamente até se alcançar a parte sul da Calea Victoriei (que atravessa uma parte da cidade, serpenteando e que é, segundo dizem e me pareceu por tanto gucci, chanel e vuitton e tanto hilton e radisson, a artéria mais chique de Bucareste. 

Bucareste é uma cidade agreste, hostil a quem nela pretende caminhar. O desconforto é permanente pela pequenez e vulnerabilidade que sentimos. Não é apenas o gigantismo de quase todos os edifícios e ruas. É a sujidade. É a degradação de muitos prédios, quase como que bombardeados, são os cartazes enormes a anunciar telemóveis, refrigerantes, concertos… Não há quase qualquer dimensão humana nesta cidade. Expulsa-nos. Minimiza-nos. Encolhe-nos. Sistematiza-nos. Torna-nos a todos da mesma condição. Mas miserável condição, diria.

Começo a percorrer a parte sul da Calea Victorei, em direção à Piata Universitatii para apanhar então o Boulevardul Regina Elisabeta e me meter para dentro durante um bocado, no hotel, a descansar, ao menos, os pés. Tenho a intuição de virar à direita, na primeira rua. E volto a entrar noutra dimensão. Ruas estreitas, limpas, pequenos cafés, num estilo muito parisiense (Bucareste ainda não deve ter perdido as pretensões a ser a Paris do Leste…). Voilá. Mais quelle surprise! Haverei de me surpreender mais tarde também, na outra parte da Calea Victorei, ao entrar na Piata Revolutiei.

Bucareste pode, então surpreender-nos! O gigantismo e os pequenos bairros e ruas. Os prédios feios e os monumentos conservados, as artérias enormes e secas e os frondosos parques. Bucareste pode, então, ser inesperada! Devolver-nos à nossa condição de pessoas, de habitantes, ainda que muito transitórios, da cidade. Aproveito a atmosfera, sento-me numa esplanada e ponho-me a ser contente. Reparo que no balcão do pátio, num anúncio ao martini, está escrito ‘ luck is an attitude’. É capaz de ser.

(Bucareste, 15 de Agosto de 2012)

Comments


  1. O comunismo não deixa saudades excepto aos que o implementaram e dirigiram, subjugando o seu povo. As ditaduras sempre ergueram obras arquitectónicas de vulto, com que apregoaram a sua grandeza, até nesse particular o comunismo falhou.

  2. maria celeste ramos says:

    Parece o edifício do Marquês de Pombal e a rotunda do marquês que a CML como tem dinheiro em excesso vai enmerder e o empreiteiro é capaz de ser “conhecido”

  3. maria celeste ramos says:

    Quem não sabe fazer mais nada faz rotundas – podia restaurar todos os jardins de Lisboa e regar as árvores da minha rua que há 3 verões nem são regadas e morrem de sêde mas a Critas também deixou morrer os rebanhos e secar os pastos em fev 2012 – quem é esta gente que nem sabe o que é o país fora dos seus gabinestes inisteriais ???

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