Postcards from Romania (34)

Elisabete Figueiredo 

Uma cidade, vendida a retalho e o que calçará Lady Gaga quando está sozinha?

Do autocarro turístico vejo Bucareste de uma maneira completamente diversa. Primeiro, estou protegida, não me sinto pequena, nem excluída, o que não deixa de ser um curioso paradoxo, já que me meto de livre vontade num lugar confinado, embora em movimento.

O autocarro atravessa o centro histórico, se é que podemos apontar um apenas a esta cidade. Vai da Piata Unirii até ao Arco do Triunfo e volta por outro percurso. A primeira metade do caminho é-me já familiar. O belo e o feio, o opulento e o miserável, o pobre e o rico. Nesta primeira metade, Bucareste é uma cidade que se vende a retalho. Em todos os prédios, sobretudo nos mais altos, anúncios. Coca-cola, pepsi (não somos exclusivistas, claro, sobretudo quando nos pagam), macdonalds, mercedes, bmw, banco x e banco y, os anúncios ocupam tudo e tornam tudo mais feio, mais caótico, mais suburbano até, ou, para ser completamente parva (ou realista), mais terceiro-mundista. Vamos nisto da publicidade, como se estivéssemos a ver televisão às horas das televendas, até à Piata Victoriei.

Muitos anúncios ao ‘the born this way ball’, o concerto que Lady Gaga dará, esta noite, na Piata Constitutiei, mesmo em frente (via-se o palco no postal de ontem) ao Palácio do Parlamento. Ceasescu deve estar a dar voltas na tumba. Elena admirará, porventura os sapatos de Lady Gaga, que são, quase sempre (digo isto, como se fosse especialista em sapatos e principalmente na senhora de que, creio, apenas sou capaz de identificar uma música) enormes matacões. Sapatos de deficiente ou que, pelo menos, a fazem parecer deficiente. Talvez seja. Sei lá eu.

A partir da Piata Victoriei é o paraíso, para quem gosta do género. A Soseaua Kiseleff, que atravessa a Piata Arcul de Triump e continua pelo Parque Herastrau (uma mancha verde gigantesca, cheia de lagos) até à Piata Presei Libere, está cheia de embaixadas e ruas perpendiculares com nomes tão pacíficos como Mahatma Gandhi. Podemos ver o género das casas e das ruas e dos jardins.

Reconheço a embaixada dos EUA, a da Alemanha, da França… confiro os mercedes e bmw estacionados por ali, vejo os adolescentes bem cuidados e com dentes impecáveis que andam de bicicleta ou patins em linha, pelos circuitos existentes para o efeito. Nem um cigano, nem um pedinte, nem um sem-abrigo. Só gente impecável, casas impecáveis, relva impecável, árvores impecáveis.

Pergunto-me por que raio não há também o equivalente do que se passa nas imediações da Piata Unirii. Ciganos impecáveis, pedintes impecáveis, sem abrigo impecáveis. A resposta está nos carros da polícia que por ali abundam, provavelmente. Não me surpreende assim tanto. Isto acontece em toda a parte, esta distância.

Nesta parte da cidade, nada é vendido a retalho. Não há anúncios a nada, exceção feita à Lady Gaga. Como disse, é tudo escrupulosamente cuidado, impecável. Sem desalinhos, nem reboliços. Outra Bucareste. Não gosto desta. Ou gosto menos desta que da outra (ou das outras) de que me apercebi. Acho que esta parte da cidade se tornaria mais ‘gostável’ se a Embaixada dos EUA, por exemplo, ostentasse no telhado, dois grandes anúncios à coca cola e ao macdonalds. E a da Alemanha tivesse, também no telhado, um placard anunciando salsichas grelhadas num tasco qualquer.

Enquanto isto, o povo dirige-se para o concerto da Lady Gaga e eu fico a pensar que calçará ela quando está sozinha.

(Bucareste, 16 de Agosto de 2012)

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Esta publicidade do centro histórico é igual à que já houve em todo o Rossio de Lisboa nos anos 60 + 70 – era a melhor montra de publicidade – mas ainda temos eléctricos e autocarros com a publicidade ambulante – a poluição da publicidade dentro da cidade, fixa ou em movimento, que também vai desaparecendo das estradas – nas passagens aéreas de peão – que poluição visual até as dos moderníssimos paineis DECO nas paragens de autocarro – poluição do olhar

  2. Elisabete Figueiredo says:

    maria celeste, eu nasci nos finais dos anos 60, pelo que não me lembro bem disso. de qualquer modo, é aflitivo ver tanta (mas tanta) publicidade no centro de uma cidade….

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