ocupam o passeio

O passeio é estreito. A mulher desce a rua com as crianças, três meninas. As crianças chalreiam, riem alto. A mulher não diz nada, tem os olhos postos nalgum ponto distante, no fim da rua. A mulher vai cansada. As crianças e a mulher ocupam o passeio todo. A rua é antiga, o passeio é estreito. A mulher e as três crianças são negras e ocupam o passeio.

O homem está parado à porta da mercearia. Tem à mão apoiada na parede e fala lá para dentro, para um merceeiro oculto nas sombras da mercearia antiga. Na outra mão leva um saco de plástico com uma lata de salsichas. O homem vira-se no pior momento e embate na mulher. A mulher espanta-se porque vai a pensar noutra coisa. O homem enfurece-se.

– Então, é assim?!

A mulher não diz nada, sustém-lhe o olhar. Ele repete, agora mais alto:

– É assim?!

As crianças param ao lado da mãe mas não se calam. Têm tranças negras com contas coloridas, sapatilhas cor-de-rosa. O homem não entende uma palavra do que dizem entre si.

A mulher recomeça a andar sem dizer nada. As crianças avançam também.

O homem está parado, agora no meio do passeio, e grita.

– Não veem por onde andam! Vêm para aqui comer o nosso dinheiro, mamar os subsídios, e ainda se armam em donos de tudo! Volta para o mato, que lá é que é o teu lugar!

Elas continuam a descer a rua. A mulher lenta, de ancas largas, passos cansados. As crianças saltitando, pés ligeiros, cor-de-rosa. Ocupam o passeio todo. O homem escarra para o chão e começa a subir a rua sem se calar.

Comments


  1. Fantástico cara Carla! Gostei especialmente da cadência rítmica do texto: mais do que realidade, imprime-lhe verdade!

  2. Dora says:

    Quando, em tempos como os que vivemos, toda a solidariedade e união são mais preciosas, assistimos a cenas destas de ignorantes e alienados sociais.

    Felizmente, a solidariedade e o civismo serão mais fortes.

    Por isso vou estar presente na manifestação de 29 de setembro, este sábado. E, pela 1ª vez vou levar uma frase escrita. Em nome de todos, especialmente dos nossos filhos e netos.

    Não lhes quero legar este presente. E não conseguiria continuar a educar (a profissão “mais linda”, como diz Nuno Crato) se não voltasse à rua a mostrar a minha indignação.

    Quero que os jovens do meu país e do mundo sejam cigarras responsáveis e felizes. Não “formigas” espezinhadas num carreiro.

  3. Maquiavel says:

    E quem estava a ver, näo chamou a atençäo ao racista?


  4. Que bem perfilada a representação da cena. Mete “frio” o acossador.

  5. Eugénia Soares Lopes says:

    Amargo e doce: deixa-nos um travor entristecido…


  6. Isto é que é uma besta!!!!!!!!!!!


  7. Há alguns portugueses com muito pouca memória, sobretudo.

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