Francisco Louçã entende o que é ser deputado

É uma cara familiar. Todo o mundo o conhece. Tive a sorte de ser uma das primeiras pessoas que de quem me fiz amigo quando apareci em Portugal a Convite do Instituto da Ciências da Fundação Gulbenkian. Mal soube o ISCTE que estava cá, convidou-me para proferir conferências que não podiam pagar. Reparei que em Cambridge, a minha alma mater, estava todo feito, mas em Portugal estava todo para ser feito. Fiquei em Portugal, essa semana passou a ser 37 anos. Foi Francisco Louçã, Presidente do, nesses tempos, PSR ou Partido Socialista Revolucionário, mais tarde Bloco de Esquerda, quem me explicara que em Portugal havia um forte domínio das forças políticas de direita sobre o povo trabalhador. A história do PSR é conhecida em Portugal, não vou sobrecarregar ao leitor com o que é sabido.

Tinha uma série de princípios baseados no mais fiel interpretador de Karl Marx, Leão Trotsky. O discípulo do Socialista Émile Durkheim, Vladimir Lenine e do membro do PC português Marcel Mauss, eram as outras leituras de Francisco Louçã. É um economista bem instruído que sabe que ser deputado, como aprendera com socialistas sociólogos, comunistas antropólogos, que a sociedade é um estado de Revolução Permanente. Sou capaz de observar que leu o meu texto: Portugal, país exportador de carne humana. Enviei o texto ao Bloco de Esquerda, que era representado por ele na Assembleia. Em 1978, O Partido Socialista Revolucionário (PSR) foi um partido político português trotskista criado em 1978, durante o congresso em que a Liga Comunista Internacionalista (LCI) se fundiu com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) e integrou um conjunto de militantes de várias correntes trotskistas. Mais tarde, em 1983 concorreu às eleições legislativas em coligação, aparentemente contranatura, com a UDP, então frente eleitoral de um movimento marxista-leninista, o PC(R). Os resultados eleitorais são desastrosos. Nesse mesmo ano e mantendo a linha de colaboração com independentes, inicia a publicação da Revista Combate em novo figurino, revista na que colaborei durante anos. Bem sabiam que eu era PS, do PS Chileno de Allende e do de Portugal, da Mário Suárez e Jorge Sampaio, aos que ajudei tanto quanto possível.

Repara que assim não vai a parte nenhuma e é criado o Bloco de Esquerda. Os principais líderes são Francisco Louçã, Alfredo Frade, Helena Lopes da Silva, Heitor de Sousa e José Falcão, representado por ele na Assembleia. Miguel Portas, que muito cedo nos deixara, para quem eu dedicara um texto A morte de um herói, passou a ser o parlamentário que representava o Bloco no Parlamento Europeu e na Assembleia Parlamentar de Portugal.

Nunca o chamei Chico. Faz-me lembrar que em países da América Latina, o Chico são curtos de estatura, enquanto os Franciscos são denominados Pancho. Francisco Louçã pode ter pecados no seu cartório político, mas de curto, nada. Na sua ideologia de Revolução Permanente ainda ontem endereçou um discurso a Nação e a Assembleia, dizendo que declinava o mandato e que ia a rua para lutar com o povo português, explicando a todos eles como se devia governar um país: em contato permanente com os que lutam pelo seu direito ao trabalho, a morar no seu país, a não sofrer impostos extras e que a Assembleia vai-se a ouvir para, a seguir, debater com o seu líder parlamentar.

Sinto orgulho do Francisco. Sempre andou em todas as marchas do povo, não parava, amigo dos amigos, sendo os seus amigos primeiros os membros do Bloco e os seus aliados e o povo que vota por ele. Apenas espero que o seu exemplo seja seguido pelos deputados cuja voz não é ouvida na Assembleia porque a natural coligação dos mais ricos, mandam um grito e o resto do parlamento cala. É apenas ver o meu antigo estudante, o líder do PS, António José Seguro. Passa moções de censuras, sempre perdidas, procura votar contra o Orçamento de Estado de 2013, mas não é ouvido. Na sua desilusão não apresenta mais alternativas, sempre perde com o governo dos ricos.

Francisco entendeu e passou a ser um cidadão como os outros para explicar em comícios de rua, como o povo deve interpelar a um (des)governo.

Viva Francisco! Que os ricos neoliberais se juntem entre eles. Façam uma greve parlamentar. Que a maioria governe só, enquanto os deputados cumprem o seu dever no meio do povo que não conhece a lei e fazem uma triste figura protestando desde a galeria do parlamento contra um orçamento que os deixa sem trabalho e com a obrigação de pagar impostos suplementares…

Bravo Francisco! Estou certo que os Verde, a UCD e outros minoritários juntar-se-ão na rua para ser parlamentários como os goliardos da França do Século XV que foi um antecedente a Revolução da França. Nunca te tenho visto engravatado nem de fato. Há vários que entendem o seu papel de representantes da soberania, sempre de fato cor escuro e gravatas a condizer. Isso é apenas para os neoliberais. Estar com o povo para ser os seus representantes, devem vestir-se como eles.

Estou certo, deputado Louçã, tens passado a ser eterno! Estou certo que Jerónimo de Sousa vai imitar o exemplo e farão parlamento de rua. E que o meu antigo estudante, João José Seguro, não aparecerá mais sem os eternos jeans que sempre lhe conheci. Porque o rei nunca vá nu, o fato está nos princípios e não no cabeleireiro…

Raúl Iturra

26 de Outubro de 2012.

lautaro@netcabo.pt

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