Vítor Malheiros perguntou, Cavaco ressuscitou

Coincidência, é claro, no dia em que José Vítor Malheiro perguntou no Público se Cavaco Silva estaria incapacitado, o homem aparece. Deixando mais dúvidas sobre as dúvidas levantadas, será doença, ou feitio político?

O artigo completo:

E se Cavaco Silva estivesse incapacitado?

Por José Vítor Malheiros

O silêncio do Presidente da República nas últimas semanas – e a extrema parcimónia das suas intervenções nos últimos meses – tem motivado as mais variadas interpretações, que vão do simples desejo de não estorvar a acção do Governo num momento difícil a uma singular manifestação de sageza. Marcelo Rebelo de Sousa considerou mesmo que o silêncio de Cavaco prestigiava a função presidencial, já que discutir as vacuidades que têm preenchido o discurso do Governo e o debate político, como a “refundação” do memorando da troika, seria “discutir o nada” e isso o Presidente não o deve fazer. A explicação é generosa, mas é excessivamente benevolente.

Penso, pelo contrário, que, numa situação de extrema gravidade como a actual, apenas comparável a uma situação de guerra, onde à crise financeira e ao brutal empobrecimento de toda a população se somam uma crise política e uma crise de confiança sem paralelo nas instituições democráticas, seria natural e conveniente que o Presidente aparecesse e falasse. No entanto, Cavaco nem fala nem aparece. Seria normal que o Presidente nos viesse garantir que, apesar das dificuldades de entendimento que são conhecidas no interior da coligação, o Governo possui a estabilidade e a coesão necessárias para levar avante o seu trabalho e que ele se empenhará em que assim continue a ser. Seria natural que viesse garantir-nos que o regime democrático possui todas as ferramentas necessárias para garantir que esta crise será ultrapassada (com este Governo ou com outro), que o interesse do país e do povo será defendido, que a democracia não está em risco e que o futuro nos irá sorrir de novo. Seria natural que o Presidente mantivesse uma ronda sorridente de contactos partidários e tentasse facilitar entendimentos e que o fizesse também no âmbito da concertação social. Seria natural que se dirigisse a jovens, a empresários e a desempregados, incitando-os a não desesperar e a apostar nas suas capacidades. Seria natural que se multiplicasse em contactos na União Europeia, avançando as suas dúvidas em relação à austeridade, que nos últimos tempos até têm vindo a ganhar adeptos. Seria natural que o Presidente nos dissesse também alguma coisa em relação ao orçamento de 2013, que os economistas consideram uma pilhagem sem precedentes nos seus instrumentos, um exercício de mistificação nos seus pressupostos e uma fraude nas suas conclusões. Seria natural que o Presidente fizesse, pelo menos, de rainha de Inglaterra e aparecesse e acenasse e sorrisse e dissesse que está tudo sob controlo, keep calm and carry on. Mas não. Cavaco não aparece, não fala, não se reúne e não carry on.

O que se passa com Cavaco então? Não sei, mas sei que Cavaco não está a fazer o que deve nem parece estar sequer a fazer aquilo que as suas ideias lhe ditariam. O que é preocupante.

Estamos actualmente a viver um PREC da direita, não legitimado pelo voto, apostado em destruir o Estado social que levámos quatro décadas a construir e em privatizar o máximo de património do Estado. Um PREC apostado em conseguir um empobrecimento dos trabalhadores, para aumentar a margem de lucro das empresas e reduzir a capacidade reivindicativa da população. Um PREC disposto a reduzir a democracia a uma mera formalidade, de forma a garantir que esta gigantesca transferência de recursos para uma minoria não terá oposição.

Neste pano de fundo, seria bom poder contar com alguém que assumisse como sua responsabilidade garantir a democracia. Será possível que Cavaco não o queira fazer e que, apesar de alguns tímidos protestos, se sinta totalmente sintonizado com o delfim Passos Coelho e a sua destruição do Estado e da democracia? Talvez. Mas é também possível que não o possa fazer por razões de saúde – o que explicaria algumas intervenções incoerentes (lembram-se das pensões?) e a razão por que a insólita forma de comunicação preferida do Presidente da República passou a ser o Facebook.

A questão é que, numa situação de crise como a actual, os cidadãos têm o direito de saber se o Presidente é, ou não, capaz de assumir responsabilidades pesadas como poderão ser a demissão do Governo e as negociações para a formação de um novo executivo. E quem possa responder a esta inquietação tem o dever de a satisfazer. É a democracia, a dignidade do cargo e a dignidade da pessoa que o ocupa a exigi-lo.

Segundo a Constituição, “compete ao Tribunal Constitucional (…) declarar a impossibilidade física permanente do Presidente da República, bem como verificar os impedimentos temporários do exercício das suas funções”. Se é esse o caso, é imprescindível que as instituições democráticas assumam as suas responsabilidades, sem o que estaríamos perante um cenário de golpe de Estado. Se não é o caso, é urgente que o Presidente da República faça prova de vida.

[Público 2012-11-06]

Comments

  1. Konigvs says:

    Mais de um milhão de desempregados, muitos certamente com mais de 35 anos (eu por exemplo) e depois há um posto de trabalho por ocupar há mais de seis anos. Ganha-se mal é verdade, quem não tiver poupado ao longo da vida certamente morrerá de fome, mas 6500€ dá sempre para comprar um bolo rei pelo natal.

  2. maria celeste d'oliveira ramos says:

    O silêncio de cavaco prestigia o cargo ?? cum cara-go
    E a dizer o que diria ?’ a quem ?’ – nas tais 5ªfeiras não deria ter dito e tavez se notasse se “O” governo mudase “em qualquer coisinha ?’ Marcello ?? quem é ?? Pires de Lima está condoído com tudo complicado e que os partidod do poder e o dos últimos 15 anos se entendessem – Refundar ?? só os que estão no poleiro do galinheiro – e refundar a fundo – mas com quem com Seguro ?’ nunca se sabe mas não leva bons inicicios nem é um iniciado nem iniciático – é difícil entender poara os credores e para quem vota a situação de emergência financeira com este debate violento – mas este parvalhão quer pachos quentes ?? já milhares disseram o que este senhor está vomitando – regorgitando e Seguro foi deputado 15 anos (que engraçado não dei por ele) – acho o debate do governo que devia ter sido há um ano – não quero ouvir mais do mesmo – mas gostava de ouvir diferemte – para isso ouvi e gostei de Frei como se chama o frade Capuchinho ?? que não é gago ?’ – quer “sanear”´++ FP e 6.5% da uducação de 6.5 é mais que na UE de 5ª e na defesa são 3 mil milhões de euros que se gastam mais do que se produz – masa quantos senhores ouvi dizer isto há meses ?? Quem é este Pires de Lima já que a minha má memória recorda este nome de “outros tempos” – No meio de um jantar partidário parece ampanha eleitoral -com e leição de George Bush e com o que se deu na última dácada votaria Obama homem do mundo global e a direita é provinciana – bem não disse nada de novo – tudo velho – Gaspar quer cortar 4 mil milhões de euros na despesa sem mexer na Constituição – há gastos a mais para os impostos cobrados – algumas décadas seráo necessárias para cumprir Tratado de Lisboa – João Semedo ou o governo muda de ruro ou tem rumo infeliz – Gaspar é insultuoso numa comissão de acompanhamento (tem mêdo de merkel ??) respritinho- CGD teve prejuizos de 130 milhões de euros em 3 meses – quem os teria comido ?’ os novos reformados (que trabalharam 5 anos a ganhar milhares) que se juntaram na CGD no tempo socrático ? – Polícia está na RUA – 4 GNR detidos por corrupção – ai não pode ser pois não ?? Temporal na Madeira lá vem Jardim dar conselhos – os túneis que fez o que é que quer – e não fica por aqu meus senhores – vamos ver muias mais vezes e desta vez na costa norte – digo eu atrvidamente que a ilha tão montanhosa vai ficar no “osso” como o ano passado – osso=pedra – Só queria ouvir o geólogo que há 2 anos na 1º desastre disse exactmente o que eu disse mas a ela agora não perguntam – devia ter sido erradicado – são maravilhosas as universidades privadas portuguesas – formam “gajos de boca larga” – não oiço ninguém das faculdades da universidade técnica de Lisboa – não são desejáveis (como foi o geólogo que foi erradicado) (e creio que nas privadas não há (ainda) cursos de Geologia – Teatro o Bando teatro nas “adegas” de virgílio ferreira incluindo a de Pegões (onde está o parque de máquinas agronomia do ministério chefiada por meu querido irmão) +++ etc historia de abraços e facadas – Cristina Carvalho publica sobre o pai Gedeão marcado por sua mãe e o feitiço do parapeito da janela onde habitava – pois é este país já teve GENTE +++++ etc – agora é o tempo dos não-gente


  3. “Cavaco ressuscitou”
    Isto desprestigia o Martelo Rebelo de Sousa.

    “O silêncio do Presidente da República nas últimas semanas …. Marcelo Rebelo de Sousa considerou mesmo que o silêncio de Cavaco prestigiava a função presidencial”

  4. Luis says:

    Eu estou muito preocupado com o silêncio do cavaco porque assim não ouço os seus “alertas”.
    Foram os seus “alertas” silenciosos que nos lixaram com o BPN, (o prejuízo da CGD este ano é devido a isto), com o aumento da dívida, com a bolha imobiliária, com as negociatas nas PPP, etc.
    Mas aquilo que eu mais aprecio nos seus “alertas” silenciosos são o combate feroz que este homem vem travando contra a corrupção…

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