Greve geral: ménage à trois

Acerca da minha relação com as greves de um dia, não tenho muito a acrescentar àquilo que já escrevi e partilho a opinião do Ilídio Trindade, partindo do princípio de que haveria união suficiente para se fazer uma greve por tempo indeterminado.

De qualquer modo, não posso dizer que esteja exactamente entre o João Paulo e o José Magalhães, porque, como o primeiro, vejo muitas razões para protestar, mesmo recusando-me a fazer greves que considero inofensivas; ao contrário do segundo, no entanto, penso que, relativamente ao Estado e ao Governo, os cidadãos deste país não são devedores de coisa nenhuma, são credores de uma dívida incomensurável e protestar, com ou sem greve, é, na realidade, reclamar o pagamento, ou seja, fazer cobranças difíceis.

Entretanto, qualquer um deles cai no erro – eventualmente inevitável – de retratar (ver é outra coisa) a realidade a preto-e-branco, embora eu tenha a certeza de que sabem que o mundo tem mais cores. A incómoda afeição que sinto por ambos impede-me, no entanto, de transformar estas minhas discordâncias em palavras agrestes, até porque, seja como for, andar à porrada a três não deve ser fácil, sobretudo para quem fica no meio.

Comments

  1. Miguel says:

    Vocês de esquerda acham que as coisas se resolvem com greves. Tal como birra de criança que quer o brinquedo que o pai não têm dinheiro para dar.

    Eu pensei numa proposta que pode ajudar Portugal: Acabar com os créditos. Quem não tem, não compra.


    • Também acaba com os Bancos? É que Bancos sem crédito, não estou a ver… Por mim, até podiam acabar com o dinheiro, sou um incondicional do Linux.

    • António Fernando Nabais says:

      Por acaso, sou de esquerda e acho que as coisas já só se resolvem com uma greve por tempo ilimitado. Os meus direitos e os direitos de todos aqueles que estão ainda pior do que eu não são brinquedos e quando alguém é assaltado, no mínimo, deve queixar-se. Chamar a isso “birra” é parvo.

    • nightwishpt says:

      E aprender qualquer coisa sobre economia, que tal?
      Uma pista, sem crédito não há economia.

  2. Konigvs says:

    Se a greve é um a forma de manifestar insatisfação, reivindicar direitos adquiridos e forçar quem manda a mudar de rumo, porque raio se faz greve num só dia quando no dia seguinte tudo fica na mesma? E se a função pública TODA fazer uma greve até este governo se demitir? Mas parar TODOS, hospitais, transportes, educação, comunicação social. TODOS!! O lema poderia ser “Demissão ou falência”. Façam greves sim, mas de verdade. Um dia? para quê? Para no fim do dia sindicalistas e governo andarem a discutir números de adesão? Ou a seleção jogar e no dia seguinte já ninguém se lembrar da greve? As greves estão a precisar de passar ao nível seguinte, este já está muito gasto e sem efeitos práticos.

Trackbacks


  1. […] Ainda por cima, aparece-me no meio um candidato a uma ménage à trois. […]


  2. […] Depois de anos de destruição de um tecido produtivo que nos leva a importar a fruta que poderíamos plantar, depois da especulação descarada com o dinheiro que entregámos indirectamente a uma série de gente que se alimenta das finanças públicas, depois de engenharias financeiras várias que têm transformado os orçamentos de Estado em mentiras oficiais, depois de ver notas de mil a arder nas fogueiras da Expo98 e do Euro 2004, depois de seis anos de socratismo de publicidade enganosa, depois de Passos Coelho se ter feito eleger com base em promessas que quebra todos os dias, obrigando-nos a pagar uma dívida que não contraímos, depois de sermos diariamente roubados graças ao cínico falhanço antecipadamente conhecido de todas as previsões macro e micro-económicas de um ministro das Finanças que seria despedido da garagem onde trabalha, se fosse mecânico e desconsertasse carros ao mesmo ritmo a que se engana nos valores do défice, do desemprego e da receita fiscal, depois desta merda toda e de muita outra que fica por cheirar, a culpa é de quem protesta? Cheira-me, pelo contrário, que a nossa culpa está em protestar pouco ou mal. […]


  3. […] que vale a pena fazer mais greves de um dia cujo principal resultado, senão único, é deixar de ser notícia dois dias depois, após uma […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.