A Alemanha tem um Fraquinho por nós

Confesso as minhas dificuldades para farejar caninamente um rumo para os tempos históricos que vivemos, mas esforço-me com ganas — a espaços com muitas ganas e caralhadas a mais — armado em perdigueiro pelo menos da nossa realidade política viciosa. Enquanto espécie e civilização, coleccionamos não pequenos exemplos de cegueira para o cenário macro, pois os pequenos acontecimentos que nos afectam pessoalmente retiram-nos a atenção para o que de mais crítico suceda no plano geral. Sorrateiramente, a Alemanha voltou a ditar as regras na Europa. Goste-se ou não, está numa posição de força. De novo. As coisas são o que são. Antes e para além das declarações de amor e irredutibilidade em nossa defesa por parte de Wolfgang Schäuble, coisa significativa, Pedro Passos Coelho e o seu Mastermind Mentor Gaspar tomaram partido, em nome por ventura de um tipo de prudência, jogo pelo seguro, segundo o nosso velho e ambíguo modo de defender interesses entre forças contraditórias superiores à nossa e sobretudo dada a nossa actual posição negocial vulnerável. Ambiguidade diplomática que muitos descreveriam como unívoca, Alemanha, Alemanha, Alemanha. Não o poderemos descortinar agora. Negociar bem e preservando um bem maior, não o fizéramos já nos anos quarenta do século XX?! Na altura resultou. Volfrâmio e conservas para uns, volfrâmio e palmadinhas nas costas para outros. Seguro é todo por uma esperança francesa radicada nas falinhas mansas de Hollande, ele próprio afinal a braços com medidas duras, drásticas, impopulares, e com a França por alguma razão já sob o fogo de artilharia agenciária. Não sabemos a que grau evoluirá esse bombardeamento e se recrudescerá.

No meio de tudo isto, em que fica a gente comum cá do recanto recortado à beira Atlântico? Contra quê e contra quem está disposta a rebelar-se ou a contemporizar, sendo verdadeiramente difícil a situação das pessoas sem trabalho e sem outras formas de rendimento vitais?! Como passar de um olhar realista observador do geral para o particular e do particular para o geral?! Somos fracos, em qualquer caso, quanto à big picture here. Júlio César, por exemplo, segundo as crónicas, a dada altura também andava mais preocupado com o seu chinó do que com a sorte do Império e até Pompeu perdeu a guerra com César porque no dia D estava com diarreia. Eles e nós, até certo ponto, Merkel, Passos e Gaspar, todos, estamos cegos e já é bom que a fina nata da assessoria [não de marketing e imagem, mas de pensamento e actuação à medida da Hora] funcione, ainda que por tentativa e erro, desde que, no erro, retroceda, coisa de que temos razões para duvidar.

A nós já bastam os danos do nosso egoísmo voluntário, da nossa distracção e alheamento de anos, preferindo jogar obsessivamente os FarmVille, anos também, em vez de mergulhar e agir sobre a realidade por todas as formas suscitadas por uma preocupação genuína de alto sentido cívico. O que nos torna medíocres é medir a vida e a realidade pela bitola do nosso pequeno coração, pensando que no mundo só existe a dor do nosso dente do siso. Conhecer o mundo e procurar entendê-lo, farejar-lhe o futuro, não se faz sem dor e sem um investimento físico e interior, vida de um blogger engajado, diria eu. Por isso, investigo que pessoas e que interesses lutam à minha volta, assentes em que bases sólidas muito mais que em que doces teorias sirénicas. Se vivemos, e é verdade que nós europeus vivemos!, em cima dum vulcão e não damos por isso, ao menos não possa eu, ou alguém, dizer de mim ter estado alheado e desinteressado.

Comments

  1. maria celeste d'oliveira ramos says:

    A 1ª reportagem que vi antes da formação da CEE foi na SIC de madrugada – conversa entrea schroder e Giscard D?Éstang a dividir a UE ao meio entre eles – como antes foi a Polónia por exemplo
    era interessante que vissem este diálogo que não sei como se pode encontar

    e ainda hoje é isso porque foi assim que começou e alguém continuou

    • piet says:

      Não viu nada. Não invente coisas

    • piet says:

      A CEE foi fundada em 1957
      Não havia televisão SIC de certeza
      Em 1958 Gerhard Schröder ainda andou na escola
      Valéry Giscard d’Estaing foi Presidente da França até 1981
      Schrōder foi Chanceler da Alemanha a partir 1998

    • Maquiavel says:

      É um bocado difícil ter visto uma conversa entre Schröder e D’Estaing *antes* da formação da CEE, porque em 1957 Gerhard tinha 13 anos e Giscard tinha 31 anos, näo contando ainda para esse totobola!
      Você troca nomes de pessoas e lugares e depois quando a corrijo pöe-se a dizer que eu a chamo de estúpida…

  2. Amadeu says:

    O sodomita Schäuble com verteu o Gaspar e delirou. A seguir vai o Portas. Se o Sócrates sai de Paris também leva. Ainda um dia há-de ser a vez do Seguro.
    Estou aqui vou para a Nova Zelândia. Não há nada mais longe ?

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