Helena Matos já resolveu o problema da fome

Maria Antonieta instava o povo a comer brioches, já que lhe faltava o pão. Há uma diferença entre a antiga rainha de França e Helena Matos: a primeira terá sentido compaixão do povo. A semelhança está no facto de que ambas tinham a cabeça decepada em vida e ninguém as avisou.

Como muitos opinantes decapitados, Helena Matos, diante das notícias sobre a miséria ou sobre a fome, escolhe sempre escapulir-se às causas, pondo a culpa da miséria nos miseráveis e vendo os subnutridos como gente que optou por ter fome. Não deverá faltar muito para que venha a chamar anorécticos aos meninos que exibem despudoradamente os ventres inchados nos países africanos em que os pais obrigam os filhos a não comer.

Se havia crianças a passar fome, antes da actual crise, isso devia-se, segundo a decerto socióloga Helena Matos, à irresponsabilidade de uma geração inteira de pais “que já as alimentavam mal mas que antes da crise tinham dinheiro para tomar o pequeno-almoço no café ou comprar uns donuts e quejandos sem qualquer interesse alimentar mas que faziam as vezes de pequeno-almoço.” Mais estúpido do que negar a existência de pais irresponsáveis é fazer de conta que a fome não existia e que não havia pais que tinham e têm dificuldades em comprar comida para os filhos. Infelizmente, as notícias – que costumam ficar aquém da realidade – dão conta de muitas crianças com fome: na maior parte dos casos, isso acontece porque, muito provavelmente, há uma manada de pais que se dedicam a pastar donuts.

Sempre enojada com a simples existência de instituições estatais, Helena preconiza que, a haver problemas de fome, a ajuda se faça de modo a que o pequeno-almoço em falta seja levado a casa das crianças, o que, do ponto de vista logístico, é um achado. A ilustre senhora , diante da possibilidade de as crianças poderem ser ajudadas nas escolas públicas (expressão que a leva a agarrar o terço com mais força), deve orar, recolhida: “Deus nos livre de o Estado ajudar quem tem dificuldades ou que fulmine qualquer intervenção que possa servir para compensar ou corrigir as disfunções familiares.”

Comments

  1. Maquiavel says:

    Outra diferença entre a Maria Antonieta e a Helena Matos, é que a primeira era frívola e gastadora, mas näo é dela a “tal” frase, e acabou sem cabeça; a segunda escreve e continua a escrever coisas bem piores que a “tal” frase, e qualquer dia é Ministra da Solidariedade Social…

  2. Luís says:

    Quando a vejo na TV mudo de canal mas, por associação de ideias, vem-me à memória o título do excelente filme de Ettore Scola, “Feios, porcos e maus”.
    É feia por excesso de bílis, é porca de espírito e má de índole.
    Quando a lia já era assim, parece que agora refinou as “qualidades”.

  3. Pisca says:

    A Leninha ganha ao vomito escrito, e parece que não se dá mal com isso !

  4. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Quem é Helena Matos – ajudem a minha memória, please

  5. A “visão” ultraliberal da pobreza é simples. Os pobres são pobres por indolência e incompetência para se tornarem ricos… Não obstante, o “pensamento” da Helena não tem sequer alcance “ideológico”. Fica-se pela mesquinhez abjecta do discurso de vizinhas de maus fígados, que olham todos de lado, invejando sucessos e castigando desgraças alheias. E esta é também a substância filosófica da governação actual, que nada tem a ver com a dignidade, responsabilidade e humanismo de muitas figuras da política pós 25 de Abril (de todos os quadrantes…).
    Este poder não ter cor política. Tem sobretudo pessoas mesquinhas e más. Os textos da HM são espelho disso.

  6. nightwishpt says:

    Há gente que é um desperdício de oxigénio.
    E depois há gente que era melhor para o mundo que nunca tivessem nascido.

  7. Nuno Castelo-Branco says:

    Apenas uma nota: sabemos o que Helena Matos diz – porque escreve- , mas também sabemos que Maria Antonieta jamais disse tal paificada coisa. Jamais. É uma lenda tão verdadeira como aquela outra que dizia ser a rainha uma incestuosa, tendo relações com o seu próprio filhote de oito ou nove anos de idade. Enfim…

    • António Fernando Nabais says:

      Poderá ser lenda, mas é verosímil que alguém que viva num palácio, longe de outras realidades, possa, até, dizer aquilo que é atribuído a Maria Antonieta. Não será, na realidade, lenda, mas apenas maledicência. Por outro lado, já o Pessoa explicava que a lenda é que fecunda a realidade, pelo que é provável que, sempre que alguém queira dar um exemplo de futilidade ou de incapacidade de conhecimento, volte a repetir a história dos brioches. Pela parte que me toca, continuo a considerar a frase um achado humorístico.
      No entanto, o que, usando de bom rigor de historiador, deverias dizer, na minha opinião, é que não há existe nenhum registo fidedigno de que Maria Antonieta tenha dito tal coisa, o que é diferente de dizer que ela “jamais disse”.

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