Tomar no cu: o esplendor da lusofonia

tumblr_lqpykqnRXN1qhrgdxFrancisco José Viegas (FJV) tornou pública a ameaça de mandar tomar no cu qualquer fiscal que queira confirmar se o ex-secretário de Estado pediu a factura das despesas realizadas. Especifica, ainda, que tal ameaça poderá ser concretizada “à saída de uma loja, um café, um restaurante ou um bordel (quando forem legalizados)”.

Em termos formais, é importante começar por notar que há alguma desregulação ortográfica no texto de FJV: enquanto secretário de Estado defendeu a aplicação do chamado acordo ortográfico; o blogger, embora, aparentemente, siga as regras que constam da reforma de 1945, prefere escrever má-criação sem hífen, o que é, no fundo, uma maneira de tratar a ortografia como se fosse um fiscal das Finanças.

Por outro lado, a utilização da expressão brasileira “tomar no cu” releva, com certeza, do desejo de uniformização linguística: na realidade, e retomando um argumento acordista, com que direito 1o milhões de falantes insistirão em mandar levar ou apanhar no cu, se há uma potência económica com 200 milhões de falantes que recorre à frase “tomar no cu”? A bem da lusofonia, não seria, aliás, de espantar que FJV, ainda a apertar o cinto, à saída do bordel, respondesse a um funcionário das Finanças que lhe exigisse a factura:  “Pôxa, isso não é legal. Vá tomar no cu!”

De qualquer modo, devo dizer que o desejo de sodomização (própria ou alheia) faz todo o sentido nas proximidades de um bordel. Efectivamente, não será de espantar que uma factura com a discriminação dos serviços prestados num estabelecimento do género possa incluir a rubrica “Tomar no cu”. Já imagino a recepcionista a fazer contas com um cliente, em calão contabilístico, com o necessário abuso dos diminutivos comerciais: “Ora bem, senhor doutor: temos então, dez apalpõezinhos, um brochezinho e a fodinha propriamente dita. Só preciso do seu número de contribuinte e passo-lhe já a facturinha.”

No Público de hoje, o ex-secretário de Estado é criticado pelo desbragamento da linguagem, por ser imprópria de alguém que, ainda há pouco, desempenhava funções governativas. Também não gostei, mas por razões diferentes: ao usar esta linguagem num texto dirigido a um secretário de Estado, FJV está a contribuir para o esvaziamento do palavrão, roubando espaço à maledicência e, mais especificamente, à blogosfera. Qualquer dia, até um requerimento a um qualquer director-geral poderá começar por “Ó grande filho da puta” e o “Pede deferimento” será substituído por “Se não fizeres esta merda, bem podes ir levar na peida”.

Para além disso, a ameaça de FJV é gravemente heterofóbica, uma vez que favorece todo aquele fiscal que goste de “tomar no cu”. Se Viegas tivesse, como deveria, alguma preocupação em ser politicamente correcto, deveria ter ameaçado que desejaria a qualquer fiscal das finanças que fosse obrigado a realizar práticas sexuais contrárias à sua orientação, para o que poderia recorrer a uma frase abrangente e convenientemente saturada de termos técnicos como “Havias de nunca mais foder e/ou ser fodido, caso gostes, ou ser obrigado a foder e/ou ser fodido, caso não gostes!”

Entretanto, no que se refere a este acontecimento, o Dinheiro Vivo já garantiu o prémio de melhor título: Miguel Relvas respeita o “tomar no cu” de Francisco José Viegas. Aconselha-se os leitores a lerem o texto todo, não vá alguém ficar a pensar que Relvas insinuou alguma coisa acerca da orientação sexual do antigo secretário de Estado da Cultura.

Neste mundo de estranhas coincidências, é natural, ainda, que Relvas encontre ressonâncias afectivas e fonéticas nessa frase, uma vez que ele próprio traz Tomar no coração.

Comments


  1. Um esplendor de lusofonia integral este texto. parabéns!

  2. Mário Dimas says:

    formação do Viegas | Foi deveras afectada | Pelo Pedro que é piegas | Mais pelos seus piões de Bregas | Que roubam à descarada | A malta paga mas bufa | Enquanto o ex-secretário da pastinha da cultura | Já é do contra e agora nem o Passos o atura | É de estranhar é a verve e o verbo utilizado: Mandá-los tomar no cu?! | Ó Viegas tem cuidado, não vás ser tu o estuprado! | Vem o Portas, mais o Passos | Vem o Relvas e o Gaspar | Mesmo encostado à parede | Não tens por onde escapar | Pede lá a facturinha | P’ró teu amigo Gaspar! Quem compra deve pedir, quem fiscaliza, tom@r…


  3. Tomar no cu é um castelhanismo, mas o teu nacionalismo linguístico tinha de vir à tona d’água respirar fundo…

    • António Fernando Nabais says:

      Aposto dobrado contra singelo que a dita expressão, ainda que também utilizada por castelhanos, entrou em Portugal através do Brasil. Se ser adversário da utilização de palavras ou expressões estrangeiras, quando já as temos em território nacional, for condição necessária para se ser considerado um nacionalista linguístico, então aceito o título, muito obrigado, e até aposto que não mandas ninguém “tomar no cu”. É por isso que não digo “timing”, quando quero dizer “prazo” ou “momento”. Por outro lado, porque não me soa bem, não consigo dizer “sítio” para indicar um “site”. Pois é, pois é.


      • Singelo?. Entrar pelo Brasil, pela Madeira ou por Vila real de S. António vai dar ao mesmo, o português entrou todo no Brasil pelas naus e não me consta que falem guarani por causa disso.
        Vai daí, o que realmente interessa é saber se “apanhar no cu” é coisa que se diga, não é, “levar no cu”, ainda vá que não vá, mas “tomar no cu” sabe-me igualmente bem no ouvido. Ora um povo que apanha no cu só tem de aprender com quem toma, lá disto Evaristo.

        • António Fernando Nabais says:

          Vá lá que acabas por reconhecer que a expressão pode ter vindo do Brasil. Se gostas, usa-a. E se “tomar no cu” te sabe bem no ouvido, passa-a para a boca. Alguém te vai impedir? Ias agora preocupar-te com os fascistas da minha espécie?
          Quando a “apanhar no cu” não ser coisa que se diga, e como não quero que te falte nada, experimenta “googlar” a expressão e, de caminho, consulta o “Dicionário do palavrão e de outras inconveniências” de Orlando Neves e Carlos Pinto Santos, da Editorial Notícias.
          De resto, quando chamas, pejorativamente, nacionalismo ao facto de eu não gostar que passemos a vida a usar escusadamente palavras e expressões estrangeiras (e o Brasil, a última vez que vi, era um país estrangeiro), estás a confundir a feira de Beja com o olho do cu, já que andamos pela zona anal.


          • Ah, o Brasil é estrangeiro, logo a língua também. Nada nacionalista, o conceito. Assim um exemplo mais recente: Angola desde 1975 que é estrangeiro, Kuduro certamente um estrangeirismo, mas vá lá, o bué safou-se por pouco, veio na ponte aérea.

          • António Fernando Nabais says:

            Ó moço, tu metes-te por cada viela: então, afirmar que o Brasil é um país estrangeiro é o mesmo que dizer que fala uma língua estrangeira? E o facto de falarem a mesma língua é impeditivo de que tenham expressões específicas que não estamos impedidos de adoptar ou que não somos obrigados a adoptar?
            De acordo com o Dicionário da Academia, “bué” já faz parte da língua portuguesa, mas começou por ser um estrangeirismo, porque veio de uma língua indígena. Kuduro, segundo o priberam tem origem obscura. E se forem estrangeirismos, qual é o problema? Passarão ou não a ser tão portugueses como futebol, digo eu que sou nacionalista, racista, xenófobo e “skinhead”, nas horas vagas, pela simples razão de que não gosto e nunca gostarei que se diga ou escreva “timing”, “seguir na frente”, “tranches” ou “a mídia”.


          • Eu não atalhei pelas fronteiras linguísticas, que as tenho com outras línguas, embora bola-no-pé não seja nome de jogo.
            Falta-me é preconceito contra o que venha da Madeira, do Rio de Janeiro ou de origem obscura (na Priberam deviam contratar um angolano). Ou de Freixo-de-Espada-à-Cinta. Falo a mesma língua. Um brasileirismo ou um lisboetismo vai-me dar ao mesmo, embora a criatividade e musicalidade de algumas regiões do Brasil me interessem muito mais que possidónios.

        • António Fernando Nabais says:

          Se há coisa que me falta é preconceito contra a diversidade da minha língua: tomar, levar e apanhar no cu que nos é comum são expressões igualmente maravilhosas, nenhuma melhor do que a outra, por serem deste ou daquele lado do Atlântico. Entretanto, e voltando ao Dicionário da Academia, basta consultares a parte das abreviaturas para ficares a saber que até o Malaca reconhece que há brasileirismos, imagina tu.
          Quereres ver em críticas a empréstimos considerados (por mim, que sou só eu) escusados um preconceito contra o Brasil ou contra o português do Brasil é, isso sim, preconceituoso. A minha dívida para com o Guimarães Rosa ou com o Luís Fernando Veríssimo é tão grande como para com o Camilo ou com o Aquilino e podia, ainda, pôr-me para aqui a falar dos “Patinhas” que li em pequeno ou do Caetano ou do Chico, tudo gente de quem sou filho e a quem agradeço tantos momentos de encantamento, mas que não me faz sentir na obrigação de “dar dicas”, analisar “a mídia” ou mandar “tomar no cu”. Do mesmo modo, a minha predilecção pelo castelhano não me obriga a dizer que tenho “muitas ilusões de vencer” ou que “sigo estudando”, coño!


      • Castelhanismo ou não, a expressão é usada no Sul de Portugal. Mas não deixe que os factos se sobreponham ao que pensa. Sim, os alentejanos usam o gerúndio e expressões como tomar no cu” e “jogar fora” porque são todos uns abrasileirados. Era metê-los num barco e afundá-lo, esses traidores à pátria tropicalistas!
        Enfim, prioridades. Não resolva isso, que não é preciso; qualquer dia é vê-lo a atacar latas de guaraná por imperativo cultural.

        • António Fernando Nabais says:

          Ó P., muito obrigado pela informação: sinceramente, não sabia que os alentejanos uisavam tal expressão. Quanto ao resto, é claro que sempre afirmei que os alentejanos usam o gerúndio e o “jogar fora” por serem abrasileirados e é claro que defender que não devemos usar expressões estrangerias é o mesmo que ser xenófobo. Não resolva esse problema de iliteracia, que não é preciso.


  4. O mais estranho – agradavelmente estranho! – naquele texto é que Francisco José Viegas, «acordista», escreve «objectivo» e «factura». Porém, no texto anterior escreve «fatura».

  5. Fernando Torres says:

    Tomar no cu será a mesma coisa que sexo anal?
    Uma das senhas do 25 de Abril foi a Grândola, do saudoso José Afonso.
    Será que esta foi a senha usada para despoletar uma nova revolução, a grande revolução cultural, das mentalidades, da moral e bons costumes que, a para com as reformas económicas, é aquilo que o país precisa?

    Onde andam os nossas artistas, tão activos noutros tempos, alguns ainda do tempo da ditadura, que ajudaram a cair essa mesma ditadura?

    O Paulo Júlio, ex-secretário de estado foi o primeiro, a quem tiro o chapéu a sair por uma notícia de um alegado favorecimento, saiu do governo.
    Outros que lhe sigam o exemplo da esquerda à direita.

    Gostava de ter visto a oposição também a cantar Grândola no parlamento!


  6. Enquanto leitor do Aventar agradeço ao Nabais mais esta douta prosa de bom “fiscal ortográfico”. Todavia, acho engraçado como se perde tempo a discutir virtudes e acerto do “levar” ou “tomar” no dito, enquanto estamos todos a ser “enrabados” (no sentido figurado, graças a Deus!), e teve que ser um ex-membro do governo a mandar o pedregulho no charco. Pelo menos, o pedregulho mais mediático, e por consequência, mais eficiente…


  7. Texto muito bem construído.
    Por mim pode é ir “apanhar” ou “levar” e não “tomar”.
    Vamos lá falar Português de Portugal.


    • Claro, o meu português é que é bom. O dos outros não presta. Salazar!Salazar!Salazar! Portugal!Portugal!Portugal!

      • Maquiavel says:

        E se deixasses de ser parvo?

      • António Fernando Nabais says:

        Exactamente, pá. Dizer que uma expressão é genuinamente portuguesa e outra não é o mesmo que dizer que a minha é boa e a outra é má e é, com toda a certeza, desejar o regresso de Salazar. Ainda bem que ficámos todos esclarecidos.


        • Devia haver uma certificação para expressões nacionais. Palavras carimbadas com um galo de Barcelos, assim o povo não caía no anti-patriótico acto de escolher o que soa melhor ao ouvido e respeitava as fronteiras linguísticas.

          • António Fernando Nabais says:

            Essa certificação existe e não precisa de nenhum galo de Barcelos, como não precisa do Saci Pererê, tal como o povo escolherá sempre o que lhe soar melhor ao ouvido, o que não quer dizer que escolha sempre o melhor. Isto serve para opções linguísticas, gastronómicas ou políticas. Assim, eu, que até sou um rapaz globalizado, lamento que haja quem prefira o hambúrguer à bifana e que o queijo da Serra seja menos apreciado que as bolas de flamengo. Também lamento que o povo deite papéis para o chão e corra atrás de palavras e expressões estrangeiras, quando tem equivalentes na sua terra (o que não é o mesmo que ser liminarmente contra a criação de novas palavras ou o empréstimo de outras). O povo, às vezes, chateia-me e era o que faltava que o povo, só por ser povo, não pudesse ser criticado.


  8. ROFL!!! Chorei de tanto rir, maravilhaaaaa… na senda da velha tradição do “escarnho e maldizer” (que mais há a fazer?)…!!! 😀 😀 😀


  9. Tomar no cu ou co-tomar no cu, o que temos a fazer é enrabá-los, passo a expressão, derrubá-los, antes que fiquemos todos sem rabo!


  10. Ah não fui só eu a reparar que “tomar no cú” já inclui acordo ortográfico. Por cá é mais levar. Mas o José Viegas até já tinha vindo admitir que não concordava com o acordo. E agora até para ofender as facturas o utiliza? Está mal!

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