D. Laurinda vai ao 2 de Março

Esse caixote que aí está, de pé, ao lado da caixa, é para a D. Laurinda se sentar. E por aí já vêem que não é uma cliente qualquer. A qualquer hora do dia, depois de adiantado o serviço de casa, D. Laurinda vai até à mercearia, diz bom dia a quem está, e ocupa o seu trono de oráculo do bairro. Sabe quais são os negócios que estão para abrir ou para fechar, que casas estão para alugar, a como está o quilo de tudo, quais são as melhores laranjas para fazer sumo. De política, nunca quis saber nada.

– Ó D. Laurinda, então não vai à manifestação?

Nunca ia. Já não tinha saúde para isso, má circulação, varizes nas pernas, os brônquios muito atacados, uma chiadeira nos pulmões, a cabeça ourada. E é muita gente, muita gente, ela não gosta de confusões.

Mas os tempos mudam, as lojas fecham, o filho não tem trabalho. Vai a entrar para a mercearia, o marido fica à porta, à conversa com os vizinhos, reformados como ele.

– Ó menina, olhe que eu desta vez vou à manifestação – grita ela, como quem dá a boa-nova.

O marido acena com a cabeça, um movimento curto, enérgico, de aprovação.

– E olhe que ela até votou nestes gajos – lança ele.

– Eu parece-me que sim, que votei neles – admite a D. Laurinda, enquanto esfrega um olho.

O marido, muito esquerdalho e mal-disposto, resmunga entre dentes: “Raistapartam”.

– Sabe como é, eles falam bem, prometem coisas, e a gente tem uma reforma tão pequena, tudo o que vier a mais é bom. Mas isto tem sido uma miséria, está mau para os velhos, está mau para os novos, só está bom para eles, para os da panela.

Há um silêncio de aprovação à porta da mercearia.

Então vão todos à manifestação?

Olham uns para os outros, acabrunhados como miúdos, e é o marido da Laurinda quem resume

– Ah pois vamos. Quem não for é porque está bem.

D. Laurinda tem que ter sempre a última palavra:

– A mim vai-me custar muito, menina, que eu apanhei muito frio na semana passada e ando aqui com uma pontada que parece à espécie de uma faca que se me espeta nas costas. Mas é como ele diz, se a gente não vai eles pensam que estamos bem e ainda apertam mais.

Agarra-se à parede para subir o degrau, enquanto o dono da mercearia corre, solícito, a compor-lhe o caixote para ela se sentar. O oráculo pronunciou-se, suspeito que o bairro vai lá estar em peso.

Comments

  1. murphy says:

    A D. Laurinda que “De política, nunca quis saber nada.”, representa bem um larga franja de portugueses. Não queriam saber mas votavam, e faziam-no em função da mensagem que os telejornais iam debitando…
    http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/02/o-wishful-thinking-das-redaccoes-vs-o.html

    • Hugo says:

      Realmente, mais valia terem ficado em casa e deixar a decisão para os outros, para os verdadeiros democratas…

    • nightwishpt says:

      Essa da extrema-esquerda ser quem manda nos jornais é magnífica, quando os média passam o dia todo a falar da necessidade de austeridade, do “regresso” aos mercados e de demais bizarrias debitadas pela extrema direita plutocrática e auto-serviente.

    • Carla Romualdo says:

      o link pretende ilustrar ou rebater o seu comentário?

      • murphy says:

        A D. Laurinda é uma vítima, coitada (sem ironia). Mas, em Portugal, há uma massa de gente indignada, frustrada e revoltada, que só agora – aliás. só a partir de agora – parece perceber as dificuldades que o futuro lhes reserva. E essa massa é, não tenho dúvidas, manipulada pelas redacções (na sua maioria) esquerdistas.

        Por ex. só foi possível a reeleição de Sócrates em 2009 graças a uma comunicação social colaborante! Nessa altura, todos os dados eram conhecidos: já se sabia que a crise financeira e a dívida astronómica de Portugal (que duplicou entre 2005 e 2010), empurravam Portugal para o precipício. Mas o que fez a sociedade portuguesa perante aquela realidade? Deslumbrados com as reportagens e notícias das novas auto-estradas, os Magalhães, as eolicas, etc. preferiram ir na “banha da cobra” de mais investimento público, mais estado social, mais um subsídio, mesmo quando, já mtos diziam “não há dinheiro”. E a comunicação social – que tem a missão de informar os cidadãos – também preferiu “acreditar” na sua querida esquerda…

        Acreditar que o problema fica resolvido se Passos sair é mais infantil que acreditar no Pai Natal…

        http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/02/o-wishful-thinking-das-redaccoes-vs-o.html

        • Carla Romualdo says:

          tem piada, eu olho para a imprensa portuguesa e vejo que, onde há uma fortíssima tendência manipulatória, a inclinação é para a direita.
          Mas as D. Laurindas deste país têm sido sobretudo vítimas de políticos inescrupulosos, que ganham eleições com mentiras. A imprensa manipulada é só uma ferramenta.

        • Ze Maria says:

          No dia 2 de Março lá estarei, apesar do frio e desta maldita gripe. Ombro a ombro com os MUITOS (espero) que não querem um país de gente cada dia com mais MEDO. Medo que a comunicação social diariamente incute a quem os escuta. Alguém dizia um dia destes: “tenho medo de ter medo”, Por isso lá estarei.

          NB. @murphy; mais que provavelmente não me vou cruzar contigo. Se me cruzasse haveria de te mandar para um sitio de que não ias gostar ou então cuspir-te num olho. Mais não mereces,
          Ah, e não te desfaças da merda do blogue que publicitas, “filho”!

    • lidia drummond says:

      A Dona Lidia que de politica sabe quase tudo, mas não pratica, vai pela 1ª vez na vida a uma mnifestação no dia 2 de Março 2013 e espera encontrar a Dona Laurinda e muita mulheres, pois são as mulheres as mais sacrificadas no programa de empobrecimento desta cáfila que desgoverna o País, isto com todo o respeito pelos Homens pois tenho um filho que dirige um departamento de Engenharia numa Empresa Suiça e onde por azar tem uma quota, não tendo portanto as regalias dos trabalhadores no que concerne o Fundo do Desemprego ou de saúde, Metade os Engenheiros e técnicos de Engenharia já emigraram para ganhar mais dinheiro, segurança para eles e suas famílias. O meu filho que tem a mania que a Pátria está 1º trabalha dia e noite como sendo 4, para não haver lay off, nem, depedidas dos mais fracos, pois os técnicos como ele têm lugar em qualquer parte do Mundo, mas aqueles de meia idade, vitimas do programa de formação profissional do tempo do Querido Líder de Belém, quando vieram quadriliões de contos da então CEE QUE FORAM ENTREGUES AO AMIGO NOMEADO SECRETÁRIO DO TESOURO OLIVEIRA E COSTA,que foram desbaratados, pois o então 1º Ministro seguia o caminho indicado pela CEE, o País é destinado a Serviços e turismo para onde virão os reformados ricos da Europa para formarmos um Paraíso tipo CALIFORNIA. O resultado está à vista e o CADILHE bem diz o PAI DO MONSTRO É CAVACO

  2. luis says:

    Eu também vou.


  3. A D.Laurinda não vai estar só !

  4. Maria João Castro says:

    Mas não vai mesmo! Aqui a D.Maria também vai!


  5. Dia 2 de Março há muito direitoso, muito comentador de pacotilha e analista básico ao serviço da máfia que nos governa que vai apanhar um grande grande susto

Trackbacks


  1. […] post o leitor tem oportunidade de conhecer algumas: 1, 2, 3 (tratam-se apenas de três exemplos aleatórios mas […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.