A situação é de absoluta ingobernabilidades. Torna-se difícil imaginar a grande coligação Berlusconi-Bersani, uma vez que Monti saiu praticamente de cena. Mas, em Itália, tudo é possível e a vocação suícida da “esquerda” italiana demonstrou que nunca se esgota. Além disso, o PdL tem muito interesse em propor uma “grande coligação” que voltaria a colocar Berlusconi no centro da política. Mas terá a ver como o desenvolvimento do debate no seio do PD, tendo em conta que a estratégia de Bersani fracassou. A curto prazo, não parece perfilar-se outra saída que um acordo nacional para eleger um presidente da República de “garantia” (garantia, claro, para o antigo regime).
A velha esquerda está morta. Além do mais, um projeto alternativo não se improvisa em dois meses, com a ajuda de algum “deus ex machina”, nem de um “salvador da pátria” vindo de fora. Beppe Grillo começou há dez anos e já, em 2008, era uma parte ativa, ainda que não se tenha apresentado, da campanha eleitoral. Escrevemos, repetidas vezes, que nos encontramos no final, político e ideológico, do velho movimiento operário. Um facto que na esquerda não se quis compreender insistindo, obstinadamente e com pouca inteligência, na via da montagem de partidos e partiditos pouco influentes, desenraizados e carentes de uma comprensão real do alcance histórico dos problemas.
A fase que se abre parece marcada por uma completa instabilidade e pelas decisões que tome o M5S. Terá a ver com o rumo que tome o movimento de Grillo, pois será um importante sensor. Em qualquer caso, a via que temos pela frente será, pelo menos, durante muitos anos, o repto de reconstruir um sujeito real capaz de competir no marco atual: não forçosamente, do ponto de vista eleitoral, e não durante algum tempo. Servirão as “redes de movimentos” que agrupem as resistências à crise e fechem o “tsunami social” cuja urgência se sente por todo lado.
Mas Grillo demonstra que a resistência não basta. Também há que ter uma ideia de futuro, uma proposta convincente: saber oferecer uma esperança. Polos de mobilização, coligações sociais sem nenhuma concessão a pressupostas hipóteses de reunificação da esquerda sobrevivente, que até agora foi o problema e não a solução. A via da reconstrução exige realizar intentos inteligentes, audazes, valentes. Iniciativas inéditas e para as quais não contamos com paraquedas seguros. Requere pensamento e estudo, aprofundamento e amplitude de olhares. Necessita, sobetudo, de uma nova geração política.
Temos de partir do que existe: os movimentos dos últimos anos que conseguiram resistir – estudantes, NoTAV, etc. –, as iniciativas empreendidas (em terrenos que nos são próximos: novas finanças públicas, os diversos Occupy) com uma única estratégia em mente: a eficácia social e a construção de uma hipótese de mudança fundamentada no plano teórico e político. Basta de improvisações, de reiterações do passado, de nostalgias dos micro-aparelhos. Basta de grupitos “istas” e tudo mais. Encontramo-nos em mar aberto e desta vez, é de verdade…
* Salvatore Cannavó – militante de Sinistra Critica. Publicado em:
http://www.vientosur.info/spip.php?article7720
Tradução: António José André






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