Globalização das lojas vazias no País dos pobrezinhos

Goran-Divac_Cavalo-de-troia

Embora os governantes estejam constantemente a apregoar as políticas de apoio ao desenvolvimento económico do País (as que ainda hão-de vir, dizem), a verdade, clara como água límpida, é que a economia portuguesa está de rastos. Sabêmo-lo todos, nós os seus moribundos e ex-consumidores frenéticos – nós os aburguesados dessa opulência doce e gorda que sucedeu sem transição à miséria endémica que vemos agora a espreitar no horizonte miserável e familiar daquilo a que chamamos destino. No entanto, acabo de descobrir a que ponto isso é verdade e grave. Se já me tinha apercebido do estranho fenómeno que transformou, desde o passado dia 1 de Janeiro, a facturação com ligação directa ao Ministério das Finanças numa ida aos infernos para a generalidade dos comerciantes,

Vou comprar hortaliças e tenho de me despachar porque o sistema de facturação (tornado obrigatório pelo Ministério das Finanças desde o começo deste mês) obriga a senhora das hortaliças a atender um cliente de cada vez. Ainda lhe digo para atender o senhor que está depois de mim, mas ela, que ainda há dias despachava quatro ou cinco clientes ao mesmo tempo, olha-me revoltada e diz enraivecida: Não posso, eles agora não me deixam trabalhar. E sigo para a farmácia e uma vez mais acontece o que parece mentira: não há ibuprofeno na dosagem de que preciso, e também não há outros medicamentos banais, fármacos comuns de que toda a gente precisa todos os dias, e na farmácia de luto não sabem quando vai haver, porque perderam o controlo sobre os armazéns que os fornecem, decerto cheios de intermediários e de sistemas informáticos a tornar tudo muito mais difícil. (…)» mais aqui a quem interessar]

descubro agora um novo dado – que confirmei junto de vários comerciantes, e entre os quais se incluem também farmacêuticos – que me esclarece completamente: as lojas têm problemas de fornecimento constantes porque os armazéns estão maioritariamente em Espanha, e a distribuição para Portugal funciona mal, nem sempre chega, os tipos não aparecem quando a gente precisa, e como se não bastasse, entre o distribuidor e o cliente final há uma data de parasitas, perdão, de intermediários, e sabe-se lá que negócios têm uns com os outros, e quantos não pagam, e quantos por essa razão boicotam a cadeia.

Ou seja, a maioria dos distribuidores (fundamentais agentes de qualquer rede comercial) dos produtos que importamos (e por vezes também dos que produzimos e exportámos, e que eles fazem o favor de trazer até nós) estão em Espanha, e serão decerto espanhóis, e fornecem deficientemente os comerciantes portugueses, ou enfim, os que estão em Portugal. E os distribuidores dominam quaisquer cadeias de comércio nas economias de mercado aberto. E o problema não é serem espanhóis, está claro, mas o mercado ser global e nós, miseráveis cheios de dívidas e de letras atrasadas, habitantes de um lugar irrelevante para essa escala grande e onde há cada vez menos consumidores, sermos parte dele. E é por isso também que se a sublevação começar em Espanha morreremos à míngua num instantinho. E a gordura e o açúcar com que nos andaram a alimentar os sonhos de grandeza são já parte dos nossos novos genes doentes, e basta observar a taxa de obesidade nos que nascem e crescem por estes dias.

Lembro-me do Portugal do início dos anos 70, quando aquilo a que insistiam em chamar supermercados (mas que na verdade não passavam de mercearias um bocadinho maiores do que as habituais) tinham corredores inteiros cheios de vinagre de uma só marca de um lado, e de atum de uma só marca do outro lado. Parecia um país do Leste europeu, o Portugal da economia fechada sem concorrência para abri-la. É para lá que voltamos? Foi para isso que alinhámos na UE? Que merda de Mundo é este?

Comments

  1. Miguel says:

    Segundo você o motor de uma economia moderna é claro, o comerciante das alfaces ou os 99% dos outros que apenas vendem coisas que importam.

    Vamos falar com os grandes distribuidores para importarem ainda mais.

  2. CONCORDO PLENAMENTE COM O SEU TEXTO . ESTAMOS NUMA ECONOMIA DE FALIDOS , POR CAUSA DOS POLÍTICOS
    INFELIZMENTE É ASSIM O NOSSO ( DELES POLÍTICOS ) DE SENVOLVIMENTO , RUÍNA E MISÉRIA TOTAIS .

  3. vitor alpendre says:

    Tambem concordo.

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