Novo programa de matemática revogado por Crato

Confesso que não sei se me apetece rir, se me apetece chorar…

Há coisas que nos acontecem e que temos dificuldade em acreditar. Juro por todos os santinhos que comecei por pensar que se tratava de uma brincadeira, mas vejo que está longe de o ser. Quer dizer, é capaz de ser uma anedota, mas com muito pouca piada. Reparem:

– o programa de matemática é de 2007. Foi colocado no terreno aos pouquinhos, uns anos atrás dos outros e no primeiro ciclo ainda não houve uma série contínua de 4 anos, só para perceber, caro leitor, como estamos a falar de uma novidade.

– nós, os professores de matemática, estamos agora a começar a conhecer o programa em profundidade, a identificar soluções, caminhos, coisas melhores e outras menos positivas.

– podia até pensar nas mais de 300 horas de formação que tive, as aulas assistidas por colegas das faculdades, as horas perdidas em viagens pelas terras de Santa Maria da Feira para reuniões e mais reuniões… Podia citar isso tudo, mas só me lembro da cara dos meus putos quando arranquei com esta coisa dos novos programas, das dificuldades que os olhos deles me mostravam e das tentativas de construir caminhos que todos os professores foram conseguindo trilhar, para agora virem estes incompetentes…

E hoje:

5 – Em consequência, o Programa de Matemática para o Ensino Básico de 2007, que, de acordo com a sua própria introdução, constituía ainda “um reajustamento do Programa de Matemática para o ensino básico, datado do início dos anos noventa”, fica revogado a partir do ano lectivo de 2013-2014, passando a constituir-se como documento de referência auxiliar, de acordo com normas de transição a serem concretizadas”

Não consigo dizer mais do que isto – estou COMPLETAMENTE sem palavras!

Como diz o meu amigo Nabais, vão brincar com o CARALHO!

Comments


  1. Uma excelente notícia: Nuno Crato sempre teve um fetiche com os programas de matemática. Esta mudança apressada é sinal de que quer deixar a sua marca. Ou seja: sabe que vai para a rua e para mais não tem tempo.
    Mais parecido com um pedido de demissão não conheço.

  2. xoka pik says:

    quem tem medo do crato mau, crato mau, crato mau…
    quem tem medo do crato mau….

    lá lá lá lará !

  3. Anabela Magalhães says:

    Que sem vergonhice! 🙁

  4. zequinha says:

    E a seguir vai fazer o mesmo ao de português…


  5. Francamente não me interessa muito se deu muito ou pouco trabalho. O que me interessa é se está bem ou mal estruturado.

    • António Fernando Nabais says:

      Quem tiver bom senso e estiver preocupado com as condições de trabalho de profissionais tão importantes como os professores deveria estar revoltado com um ministério que é uma fonte de inconstância, ou seja, de um ministério que é inimigo das qualidades de aprendizagem dos jovens portugueses.

      • Paulo Simões says:

        Um ministério que altera constantemente, e sempre em cima da hora, A SUA PRÓPRIA LEGISLAÇÃO sem a tornar mais clara ou mais eficiente, impedindo a criação de procedimentos estáveis nas escolas (cf despachos de 2012 e de 2013 sobre matrículas!). Um ministro que antes de o ser falava da implosão do miniostério, mas que nada mais faz que implodir a escola pública (e quem esperava outra coisa desta gente é, no mínimo, ingénuo

    • ferpin says:

      Essa é de quem não percebe nada.
      Vamos admitir que este programa do crato é marginalmente melhor que o actual. Então, na sua opinião, mudar tudo é válido. Em setembro o crato vai embora e vou para lá eu. Arranjo um programa marginalmente melhor que o do crato, e com o seu apoio, volto a mudar tudo. Ponho os professores de matemática num tal virote, que até a cabeça lhes anda à roda. Tudo isto, com o seu apoio, é claro.
      São estes idiotas que vão a ministro e estão mais interessados em deixar a sua marca, nem que seja um cagalhoto no hall do ministério, do que em ser úteis ao ensino, que f***, desculpem, que lixam esta merda toda.


      • Vamos a ver se me consigo fazer entender.
        Não disse que concordava ou não. Não conheço o programa atual, nem o novo é sequer conhecido.
        Apenas disse que o facto de renovar o programa dar trabalho não é motivo suficiente para não o fazer.
        Concordo que a instabilidade é algo a evitar, mas a estabilidade num programa fraco é pior. Isto digo eu que nem sei se o programa atual pode ou não ser significativamente melhorado.

  6. M. Machado says:

    Apesar do desconhecimento do novo programa, espanta-me que em todos os comentários feitos não exista uma única referência concreta dos malefícios do novo programa, apenas a indignação auto-sustentada de quem só sabe dizer mal porque sim

    • João Paulo says:

      Meu caro, mas quer que eu comente com os malefícios? Mas fui eu que o suspendi? O Crato é que tem de os apontar. A única coisa que nós queremos é que nos deixem trabalhar… Sabe, aquela expressão, “pelo menos não chateies?” Era o que se pretendia em relação a isto. Simples, não?
      JP

  7. António Fernando Nabais says:

    É bem verdade, JP: dou cada vez mais por mim a cuspir obscenidades, mas a verdade é que o país ganhava mais se os ministros fossem brincar com o caralho de cada um deles, em vez de andarem a brincar com coisas sérias.


  8. Sem palavras, Quantas horas passei eu a preparar a experimentação do programa de 2007 na minha turminha piloto que hoje está no 5º ano e apresenta muito bons resultados em matemática. Tantas horas de estudo e reflexão. Tantos quilómetros percorridos a caminho de Évora, Beja, Lisboa e Fátima. Enfim, tanto sacrifício… Haja paciência! Tenho uma certeza senti que valeu a pena porque muito aprendi e acredito no programa que foi revogado,

  9. João Paulo says:

    E s m permitem, uma outra nota: claro que do ponto de vista de prof estas coisas são chatas, incomodam, mas… O que está aqui em causa são os alunos – esses é que perdem com estas trapalhadas… E, contra isso, a minha luta será eterna!
    JP

  10. Brope says:

    O que é Revogado? Eu já não percebo nada. Tenho já de comunicar através da caderneta do aluno desta situação. Mas devo explicar que não fui eu, mas sim o Amigo Crato que deve ser um grande cientista. É só experimentar nas cobaias que por acaso são seres humanos que no futuro ainda lhe vão dizer qualquer coisa. O quê? Não sei……

  11. paula oliveira says:

    Eu posso dizer que os alunos de 18 anos que conheço vinham a saber CADA VEZ MENOS, cada vez menos. E memorizam tudo, nem param para pensar um bocadinho. Enferrujados. Completamente enferrujados, sem hábitos de refletir nas coisas. Tudo mecanizado. Com falhas gravíssimas. Incapazes de comunicar em linguagem matemática. Há muito que espero que muita coisa mude. Não sei se é com este novo programa, que não vi que as coisas vão melhorar. Gostava que fosse. Não é que eu goste ou desgoste do ME mas, para bem de todos, era bom que ele acertasse. O que ele disse há anos sobre o eduquês era absolutamente verdade, pude constatar.

    • nightwishpt says:

      Com um ensino focado em testes e exames, espera o quê?
      Só vai piorar com o fim do “eduquês”, não há razão nenhuma para aprender se é preciso decorar um monte de coisas que nunca mais se usa na vida.

    • ferpin says:

      Não se preocupe com o eduquês. O crato falava, falava (até havia quem acreditasse nele), mas o eduquês deu-se muito bem com ele. No fundo o crato não era amigo do eduquês porque o conhecia mal quando botava faladura na tv. Quando foi a ministro, encontrou o eduquês por todo o M.E., e deu-se bem com ele, acho que até concluiu que o eduquês não era assim tão má pessoa como ele dizia. As metas curriculares, à sua maneira são mais uma vitória do eduquês, ou seja, umas palavras sobem no ranking discursivo, outras descem ou desaparecem, mas as pessoas são as mesmas e no final a merda é a mesma.

  12. Brope_Marco Almeida says:

    Nunca vi disto. Pensava eu que em 1996 tinha encontrado o início de um futuro melhor e que podia contribuir democraticamente por melhores condições para o nosso país.
    E agora…. Bem cá toma. Sai gato…. Quem leva a taça? Quem tem razão. Não consigo já ver de forma clara…

  13. João E. says:

    Se um professor demora pelo menos 6 anos a conhecer o programa que é incumbido de ensinar e sobre o qual supostamente deveria ter formação superior então por muito mau que seja esse programa ou aquele que o substituirá, o professor revela também lacunas graves. Aí o Crato não tem culpa nenhuma, a não ser que tenha sido ele o responsável por tê-lo contratado.


    • Ó meu caro, a questão não é conhecer no sentido formal. Santa paciência… Eu explico. Imagine que estou a trabalhar com o 6º ano e para um conteúdo (adição de racionais, por exemplo) escolho um determinado exercício. Se falhar ou não correr bem, só no próximo ano terei oportunidade de fazer uma escolha diferente. Agora imagine isto para todos os conteúdos. Quando falava de conhecimento não era ler o papel – se quiser diria, para substituir a palavra conhecer por experimentar o programa, por tornar real uma coisa que é exclusivamente teórica, percebe a ideia?
      Se calhar um pouquinho mais de humildade nos comentários poderia ajudar à discussão!

  14. Mónica says:

    Não conheço o programa de Matemática, mas quer como mãe, quer como professora preocupa-me mesmo muito que os professores tenham de perder tempo com caprichos inventados pelo Ministério da Educação! O ME SÓ empata! Como é que um país pobre como o nosso está a sempre a mudar as regras? Tudo isso envolve gastar dinheiro….

  15. MAGRIÇO says:

    Caros João Paulo e António Nabais, cuidado o o uso do vernáculo! Para além de ser pouco pedagógico ainda correm o risco de o verem adoptado pelo Crato… 😀


    • Confesso que pensei uns minutos no uso da palavra, mas não consegui encontrar outra que fosse a expressão do que me ia na alma!
      E, claro, não espero que o Ministro não a use sob pena de eu ter de deixar de a usar, algo que me deixaria aborrecido.
      🙂 ehehe


  16. Afinal … não estamos em crise…quero que me devolvam já o que me roubaram… O interesse público e a necessidade das nossas crianças e jovens deveriam estar acima dos interesses individuais…Ninguém deveria servir-se do poder para satisfazer os seus próprios interesses e generalizar as suas ideias. Infelizmente não é assim…Servem-se do nosso dinheiro para se promover…servem-se do nosso dinheiro para ficarem conhecidos…servem-se da nossa saúde para pôr em prática os seus “sonhos”…O anterior programa esteve em discussão pública durante muito tempo…porque é que esses iluminados não o discutiram??? Não queriam servir o povo de forma anónima? Não queriam trabalhar a troco de pouco??? O que está a dar é “trabalho para mim e para que os outros pensem que trabalho para eles”..

  17. Nina says:

    Hoje(17 de abril) de manhã fui surpreendida com a notícia da revogação do atual programa de matemática. Fiquei preplexa e se hoje fosse dia 1 de abril pensaria que se tratava de uma partida. Infelizmente não, não se trata de uma mentira, é uma verdade cruel. Este governo tem demonstrado um desrespeito para com o povo que o eligeu a todos os níveis. Esta é mais uma medida para empobrecer o nosso país.Vai tornar os nossos alunos meros resolvedores de procedimentos, acriticos, vai despromover o pensamento divergente, encerrar a liberdade aos alunos de usarem estratégias diferentes para resolverem problemas. Volaremos a ouvir nas nossas turmas “ó professora o problema é uma conta de +, é de -, é de X, é de dividir????.” Esta cantilena já não a ouvia há anos…. recuso-me a baixar os braços e encarneirar nestas metas curriculares e embora ainda não conheça a proposta do novo programa, tenho a certeza que vem ao encontro das metas que veiculam uma ideologia conservadora e retrogada.
    Lamento que as crianças e jovens deste país sejam apanhados nesta teia de desnorteio em que se encontra o ME e seja o futuro delas condenado à partida. Em educação estes erros pagam-se muito caro!!!!!
    Hoje fala-se da má política que nos anos 90 se seguiu em acabar com as pescas, agricultura e que hoje estamos a pagar essa fatura. Ao continuar com esta politica educativa daqui a uns anos teremos cidadãos que não sabem resolver problemas, comunicar, raciocinar, estimar, calcular. Não será esta fatura demasiado alta??????

  18. Miguel Castro says:

    Há aqui inteligentes que já querem que se aponte defeitos ao novo programa… porque senão é criticar só porque sim. Mas estes inteligentes ainda não perceberam que o novo programa ainda nem sequer existe. Mas o que está em vigor, já foi revogado!

  19. lena says:

    Peço desculpa,

    pode explicar novamente o que quer dizer com: “… Imagine que estou a trabalhar com o 6º ano e para um conteúdo (adição de racionais, por exemplo) escolho um determinado exercício. Se falhar ou não correr bem, só no próximo ano terei oportunidade de fazer uma escolha diferente….”, e com ” … tornar real uma coisa que é exclusivamente teórica …”.

    Obrigada

  20. Vasco Gama says:

    Os algoritmos e as tabuadas sempre estiveram nos programas. O uso cauteloso de calculadoras sempre esteve no programa. Mas agora apareceu muito mais. Leiam o programa (isto é, as Metas) e tentem imaginar o que é aprender logo no primeiro ano do primeiro ciclo:

    “Verificar que dois conjuntos têm o mesmo número de elementos ou determinar qual dos dois é mais numeroso utilizando correspondências um a um.”

    “Associar pela contagem diferentes conjuntos ao mesmo número natural, o conjunto vazio ao número zero e reconhecer que um conjunto tem menor número de elementos que outro se o resultado da contagem do primeiro for anterior, na ordem natural, ao resultado da contagem do segundo.”

    “Utilizar o termo «ponto» para identificar a posição de um objeto de dimensões desprezáveis e efetuar e reconhecer representações de pontos alinhados e não alinhados”

    “Identificar figuras geométricas como «geometricamente iguais», ou simplesmente «iguais», quando podem ser levadas a ocupar a mesma região do espaço por deslocamentos rígidos”

    “Saber que duas figuras equidecomponíveis têm a mesma área e designá-las por figuras «equivalentes».”

    “Utilizar corretamente os termos «conjunto», «elemento» e as expressões «pertence ao conjunto», «não pertence ao conjunto» e «cardinal do conjunto».”

  21. paulo says:

    ahahahahahaah

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