De todos os lados

Praticamente não houve lua de mel do povo português com a troika. Pouco depois de a troika ter entrado em território nacional, começaram a chover os protestos e as manifestações em todo o país. Por tabela, o governo nunca teve estado de graça porque cometeu o erro, diga-se que pouco inteligente e muito saloio, de gritar aos quatro ventos que o governo iria “mais além da troika”, que a austeridade iria acontecer “custasse o que custasse” para se atingir o sublime objectivo de “empobrecer o país”. E como assim aconteceu, com tremendo sofrimento do povo e visível regozijo da senhora Merkel, o país atónito passou da desconfiança à rejeição, agravada por observar a olho nu o servilismo, a ausência de coluna vertebral de todo o gang da bandeirinha na lapela. A rejeição passou a ser demonstrada por todos os meios: na rua, nas escolas, nas famílias, nas empresas, nas forças armadas, nos lares, nas galerias do parlamento, em toda a parte. As vaias aos governantes têm-se sucedido, a Grândola Vila Morena passou a ser um hino de revolta de norte a sul do país. Os artistas explodiram ao verem em perigo a liberdade conquistada em Abril de 1974.

Mas havia uma nuvem sobre esta unanimidade popular: as pessoas julgavam-se sós, isoladas do mundo na sua revolta. Daí a desusada atenção com que passaram a olhar para a Grécia, Chipre, Irlanda, Espanha, Itália e França. Os sindicatos, os trabalhadores portuários, os bravos trabalhadores dos estaleiros de Viana do Castelo, a internet, os jovens, os artistas fizeram o resto: começaram a deslocar-se a Portugal figuras desses países para mostrarem a sua solidariedade e acordo. Puseram-se muitas esperanças em François Hollande, presidente da França, mas ele cometeu o erro fatal de ser demasiado bem educado, demasiado cavalheiro e conciliador com uma mulher como Merkel, formatada na arrogância prussiana e no bloqueio totalitarista da antiga RDA de sinistra memória. É um caso perdido.

Só que, por via do capitalismo desregulado, selvagem, cruel, a conjuntura internacional acelerou. Agora, em todos os países do sul da Europa, confrontados com a hecatombe económica, o rugir da revolta social e a desconfiança completa nas élites político-partidárias, começaram a ter voz antigos dirigentes que não escondem o seu desgosto e desilusão pela falta de vergonha que reina na direcção da União Europeia. As intervenções enérgicas chovem agora de todos os países desgraçados pelas troikas, assim como de personalidades além Atlântico: todos exigem austeridade moderada, crescimento económico e fim do desemprego massivo. Internacionalmente, comenta-se em todos os tons a fome que passam portugueses, gregos, cipriotas, espanhóis, italianos, para já. Todos se mostram dispostos a juntarem-se, em bloco, para enfrentarem em Bruxelas as exigências arrogantes de Merkel e os movimentos salta-pocinhas do inefável Durão Barroso.

O último brado de revolta e alerta veio dum alemão, um antigo ministro das Finanças, Oskar Lafontaine. O político não pôs açúcar nas palavras: “Os alemães ainda não perceberam que o sul da Europa, incluindo a França, será forçado pela miséria a lutar, mais cedo ou mais tarde, contra a hegemonia alemã”. E disse mais: “Merkel vai despertar do sono hipócrita quando, a sofrer por causa da política salarial alemã, esses países unirem forças para fazerem um ponto de viragem na crise, penalizando inevitavelmente as exportações alemãs”. Lafontaine, que foi um dos pais do euro enquanto moeda colectiva, manifestou-se inquieto e preconizou o regresso ao Sistema Monetário Europeu, o qual consente desvalorizações e valorizações controladas das moedas nacionais. Em suma: sugere o fim do euro.

Oxalá se unam e depressa todos estes países. Só assim se evitará uma confrontação futura entre o sul e o norte da Europa. Seja como for, já não estamos sós. A nossa revolta perante a indignidade de quem (des)governa para bem servir o estrangeiro, tem eco além fronteiras. Não há que ter medo. O futuro vai ser o que nós não quisermos agora. E nós não queremos mais falsa direita, falsos democratas-cristãos, social-democratas de pacotilha, candongueiros de diplomas, agentes estrangeiros com bilhete de identidade português e demais gentinha do mesmo calibre. Basta!

Comments

  1. Iggypop51 says:

    Amen

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