Tomai cultura

Aqui na terra onde se agarra a carteira quando alguém fala de cultura, temos paredes que falam, temos paredes que gritam, temos paredes que nos fazem parar e agradecer que haja quem nos deixe recados espalhados pelas esquinas. É uma sorte que ainda nos vai restando e às vezes até nos faz ganhar o dia, basta um desvio não pensado, um súbito olhar de relance para a ruela por onde nunca vamos.

Não estou a falar de tags, de cagalhotos pintalgados nas paredes, de pirocas (embora também esses possam justificar-se, que as paredes não são todas iguais). Estou a falar de arte, aquilo a que se convencionou chamar arte urbana, expressão criativa num espaço público. E entre os muitos talentos que nos povoam as ruas está o Hazul Luzah, cuja obra podem conhecer melhor aqui, e, por enquanto, em algumas ruas da cidade.  

Já por aqui falei da sanha de Rui Rio contra as paredes, uma paixão que o faz abrir a carteira e gastar como um louco, 150 mil euros garantidos para a limpeza das paredes numa autarquia que não pôde desembolsar metade para assegurar a Feira do Livro.   A campanha anti-grafito foi lançada com um frenesim de baldes de água e cheiro a sabão, uma actualização da aldeia da roupa branca para os nossos dias, que ter contas em dia e ser limpinho será sempre motivo de orgulho entre pobres. Aqui d’el rei, gemeu o autarca, que os vândalos estão a ocupar a cidade e ainda hão-de afugentar-nos os turistas, logo agora que estamos tão necessitados das divisas. E com deus como minha testemunha vos garanto, que enquanto eu mandar não há-de haver parede que me desobedeça.

Esta semana, a brigada anti-grafito, já reduzida aos funcionários camarários destacados para as funções, lançou-se sobre algumas das obras do Hazul Luzah, seguramente catalogado como vandalismo subversivo e afugentador de camones, e cobriu-as de um glorioso amarelo caca que bem pode ficar como a imagem de marca e o legado do autarca à cidade.

Se amanhã passarem para as bandas do largo Moinho de Vento, localizem a parede pintada de fresco e ponham-lhe esta plaquinha por baixo:

Aqui havia vandalismo e agora há cultura à moda de Rio.

Paredes biliosas como ele, amarelas de ódio a tudo o que diz não.

Comments


  1. Vandalismo… de ‘estado’. E depois os criminosos são os outros. Devia ser interessante, esse mural – gostaria de ter visto.

  2. silvia says:

    Gente ignorante… Fotografei esse mural há 3 semanas… enfim sem comentários.


  3. Aquilo que aquele sr. está a fazer na foto é que é puro acto de vandalismo.

  4. Maquiavel says:

    Concordo a 300%, Carla!
    E obrigado por deixar o enlace para a obra do Hazul, que realmente é fabulosa!
    E realmente os pormenores fazem toda a diferença, e o Hazul respeita as cantarias e pedras nobres, ao contrário do que vejo em Lisboa onde vai tudo pintado a eito, e depois quando é para limpar… vai a cantaria e a parede, vai tudo.
    O exemplo de:
    http://25.media.tumblr.com/070c82e3ae42c5179bce8d3c38ff9398/tumblr_maddhuBUJH1rfn6j7o1_r1_1280.jpg
    logo se o proprietário um dia quiser (ou puder) recuperar a casa, pode manter a típica cantaria portuguesa (que é uma característica da arquitectura portuguesa), e que infelizmente já ninguém faz, ou entäo fazem-no a preços proibitivos para bolsos normais.

  5. Bárbara Gonçalves says:

    NÃO HÁ PALAVRAS PARA DEFINIR TAMANHO VANDALISMO !!


  6. Rio de ignorancia ! Mas Sao coisas destas que me fazem querer que a democracia é uma verdadeira falsa liberdade


    • Não é a democracia que é uma verdadeira falsa liberdade, as pessoas que vieram tomar conta do país no pós PREC é que estão a destruir tudo. Contra-Revolução é como se chama, e começou com o desgaste que o Márocas quis provocar ao PCP e com o 25 de Novembro.

  7. Zé Suspeito says:

    O contraste entre a qualidade de uma obra que custa 150 mil euros à cidade e outra que lhe é oferecida …

Trackbacks


  1. […] um demolidor intensivo. Um Nero incendiário. Já temos. Chama-se Rui Rio. Usa o orçamento camarário e acaba de ganhar uma nota de rodapé nos futuros manuais de História […]

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