O horror! Inês Gonçalves é do Bloco de Esquerda!

No princípio, era o verbo, ou seja, o texto. E o texto tinha uma autora. E a autora dizia que tinha 18 anos e que se chamava Inês Gonçalves. E o senhor Vítor viu que um texto daqueles não podia ser de uma rapariga de 18 anos.

Foi então que o senhor Vítor criou o homem de meia-idade com bigode. O homem de meia-idade com bigode era, afinal, o autor.

O senhor Vítor, mais tarde, descobriu que, afinal, existia mesmo uma Inês com 18 anos que era mesmo autora do texto que, durante uns minutos, fora da autoria de um homem de meia-idade com bigode.

A Inês, afinal, não era um homem de meia-idade com bigode, mesmo que possa haver algum homem de meia-idade com bigode que, à noite, goste que lhe chamem Inês, mas não temos nada com isso.

O senhor Vítor, aceitando que a autora se chamava Inês, não aceitava que uma rapariga de 18 anos se pudesse interessar por problemas próprios de homens de meia-idade com bigode. Há homens de meia-idade sem bigode, mas esses interessam-se por outras coisas, que um bigode faz muita diferença. Também há homens com bigode sem ser de meia-idade e, por isso, com interesses completamente diferentes dos dois anteriores.

O senhor Vítor encontrou, então, uma nova solução: como a Inês, por ter 18 anos, estava impossibilitada de formar opinião sobre temas próprios dos homens de meia-idade com bigode, tornou-se óbvio que o texto tivesse sido ditado à jovem autora por um homem de meia-idade com bigode.

Quando o senhor Vítor e outros homens igualmente brilhantes descobriram o segredo de Polichinelo correspondente ao facto de que a Inês era militante do Bloco de Esquerda, ficaram exultantes: afinal, a Inês era mesmo a voz do dono e o dono costuma usar bigode e ser de meia-idade.

semedo_martinsResumindo, então, a argumentação do senhor Vítor e de outros representantes da direita totó: as opiniões da Inês começaram por ser más por não terem sido escritas pela Inês; depois, as opiniões da Inês continuaram a ser más, porque, apesar de terem sido escritas pela Inês, não eram as opiniões da Inês, mas de um homem de meia-idade com bigode; finalmente, as opiniões da Inês passaram a ser ainda piores, porque, sendo a Inês militante do Bloco de Esquerda, as suas opiniões passaram a ser a de um partido constituído por vários homens de meia-idade com bigode, como, por exemplo, o João Semedo e a Catarina Martins.

Aproveito para esclarecer que não tenho nenhum problema pelo facto de Passos Coelho não usar bigode e que me é indiferente que esteja na meia-idade ou na força da juventude. O facto de pertencer a um partido em que nunca votei também não me preocupa. O que me revolta é ser mais um mentiroso que chegou a primeiro-ministro.

Comments

  1. Dora says:

    Ainda me estou a rir com este texto, apesar de não achar piada nenhuma ao que se passou.

    O cinzentismo, a ignorância e a cada vez mais descoberta mentalidade pidesca no seu esplendor.

    Fiquei a saber que o texto escrito por uma aluna chamada Inês não poderia ser escrito por uma aluna porque uma aluna não pode pensar nem escrever assim, porque não é normal, afinal os resultados a Português no 4º ano não foram nada bons, embora saiba agora que a Inês tem 18 anos e anda no 12º ano, portanto o texto foi atribuído a um senhor de bigode e de de meia idade (parece que a barba e o bigode voltaram a estar na moda, mas isto é um aparte), resumindo, o pior foi quando se soube que a Inês era militante do Bloco de Esquerda. Podia ter bigode e ser de meia idade. Mas não ter bigode nem ser de meia idade e ser militante do Bloco de Esquerda , escrever como escreveu e sobre o que escreveu, é uma heresia e contraria toda a lógica proto pindérica nacional.

    Ainda se tivesse bigode e fosse de meia idade…….

  2. Miguel says:

    Com 18 anos eu sei bem o que a Inês pensa.


  3. O bigode, ou de como o sr. Victor apanhou um.

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