Crise política: todos mal na fotografia

Se se tratasse de um filme de animação, Cavaco Silva puxaria o tapete e todos os líderes que assinaram o memorando com a troika se estatelariam em simultâneo. Não se tratando, todos acabam derrotados, sem apelo nem agravo.

   – Paulo Portas é, irrevogavelmente, o grande derrotado quando, minutos antes da comunicação do PR, se preparava para aparecer como o grande vencedor, capaz de reorganizar o “equilíbrio” de poderes à sua medida. Mas Cavaco puxou-lhe o tapete e o Maquiavel do Caldas desfez-se em cacos: revogou o irrevogável, engoliu a ministra das finanças, ficou com o que restava de credibilidade política evaporada e terá que dar a cara por um governo que acabara de rejeitar (Gaspar e Álvaro Santos Pereira devem estar a rir-se à gargalhada).

De uma penada, reduziu o potencial do CDS, tornou-se irrelevante na solução governativa e terá que enfrentar em breve as hostilidades e críticas no congresso do seu partido.

Sem cara para dar a cara no governo (apesar do seu proverbial jeito para o contorcionismo), prevejo que “adoecerá gravemente” na rentrée pós-estival por forma a ser substituído com pouca honra e menor glória. Se, apesar de tudo, ainda se vê como uma fénix capaz de renascer das cinzas, espera-o uma longa travessia do deserto.

   – Passos Coelho sai quase tão ferido como Portas. Cavaco negou-lhe as soluções que apresentou destituindo-o, assim, de peso político.

Passou de primeiro-ministro a gestor em funções, com a agravante de que terá que lidar com um mediador (uma espécie de Catroga nomeado por Cavaco para negociar com a troika partidária) que o obrigará a compromissos que nunca desejou. Além disso, foi ontem demitido, mas com um ano de antecedência, durante o qual permanecerá obedecendo à “voz-do-dono”. Surreal e humilhante, a menos que se demita de imediato.

   – António José Seguro apostou toda a sua estratégia num cenário de eleições antecipadas “imediatas”. Cavaco antecipa as eleições (para depois do fim do memorando) mas apenas se Seguro se portar bem, ou seja, se aceitar o tal “compromisso a médio prazo no interesse nacional”, caso contrário “nos termos da Constituição existirão sempre soluções para a actual crise política”.

É com esta frase que que Cavaco procura amarrar Seguro.  Primeiro, ameaçando implicitamente que, caso não exista compromisso, não haverá eleições. Segundo, e fa-lo-á em privado, assegurando que, havendo eleições mas não uma maioria clara e contundente do PS, não o nomeará primeiro-ministro e tomará ele, Cavaco, a iniciativa da estabilidade.

   – Cavaco Silva analisou os cenários possíveis e concluiu – no seu quadro mental que exige, acima de tudo, estabilidade governativa – que o resultado de eleições antecipadas prefiguraria um risível governo minoritário do PS em aliança com um CDS reduzido a pó, ou nem isso.

Excluídas as soluções à esquerda (em que BE e PCP teriam, a la Portas, que revogar o irrevogável quanto ao memorando em vigor), Cavaco – no seu quadro mental, repito – deu um murro na mesa.

Mas também fica mal na fotografia porque, na sua gestão de silêncios e inacções, deixou apodrecer a situação para lá do tolerável tornando-se, portanto, co-responsável.

A fórmula “um presidente, um governo, uma maioria” falhou rotundamente. A ilustrá-lo estará, para sempre, a fotografia de Cavaco Silva.

Comments

  1. Joao do Ó says:

    Muito bem, a melhor análise que vi sobre esta crise. Parabéns.

  2. Guiasas says:

    O melhor resumo desta novela.

  3. Eagora says:

    Xeque-mata

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