Da violência

O José Maria Barcia, que conheço destas andanças da internet e por quem tenho apreço, inflamou-se com o Miguel Tiago por algo que escreveu no facebook. Ora, sendo certo que o meu camarada não precisa de advogado de defesa, uma vez que já deu mostras da sua capacidade de enfrentar seja quem for, apetece-me deixar aqui duas ou três postas de pescada.

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Por seguir o Barcia naquilo que escreve na internet, confesso que esperava mais e melhor. O insulto fácil pode ser bonito, confesso, eu próprio o uso com regularidade. Já o disse e reitero que o insulto, o vernáculo, são as coisas mais genuínas que temos em Portugal. Mas, para mim – e só falo por mim -, não pode ser uma coisa desgarrada, tem de ter um contexto. É fraquinho, Barcia, mas fica descansado, que é legítimo. Da mesma forma que para mim o liberalismo que defendes é criminoso e incompatível com aquilo que consideras ser o teu 25 de Abril, que te serviu no texto para defenderes exactamente o contrário daquilo que escreves.

O que o Miguel escreveu foi em Abril e estamos em Julho. Percebe-se que haja uma necessidade grande de a direita fazer esquecer o episódio com Assunção Esteves, uma das poucas pessoas da hierarquia democrática em Portugal que passava incólume pelo descrédito do governo, do Cavaco, do PSD, do CDS e, agora, do PS. Mas não deu, pá.

O respeito que advogas pela lei, pela democracia, dá-me o direito de escrever o que quiser, como a ti. A tua indignação selectiva com os instrumentos democráticos, como é o Parlamento e quem o compõe, contrasta com a tua benevolência para com outros como, por exemplo, na imagem abaixo, do também deputado Seufert, do CDS.

via 356-forte

via 356forte.blogs.sapo.pt

Há uma diferença enorme entre o silogismo do Miguel e o desprezo do Seufert pela Constituição da República, esse empecilho para que este governo acabe de vez com o que resta do país e com o que resta de nós. É que isto do respeito pela democracia também não se coaduna muito bem com o hastear de bandeiras monárquicas e assim, sendo a bandeira, bem ou mal, um símbolo consagrado na Constituição, também pode ser considerado violento. Há quem tenha pela bandeira nacional o mesmo apreço que tu tens pela tua liberdade.

O teu silêncio em relação ao Seufert é legítimo; podes, obviamente, escolher com o que te indignas. A mim indigna tudo o que o Miguel escreveu e mais algumas coisas que ele deixou de fora. Não vejo ali apelos à violência, vejo apelos à resistência perante a política económica e social desta gentinha que ainda nos governa. Ainda, sim, que ninguém sabe muito bem se ainda o fazem.

A adjectivação do texto é tão exaltada que chega a parecer, ela própria, um apelo à violência para com o deputado Miguel Tiago.

O teu texto são as margens do rio de que fala Brecht, o Miguel está no parlamento a representar o rio que, mais cedo do que tarde, galgará as margens. Com ou sem violência, isto vai ter um fim. Veremos para qual dos lados.

Comments


  1. não vês nas declarações do deputado do pcp um apelo à violência… pohh! temos mesmo de privatizar o ensino.

    • adelinoferreira says:

      Não será a privativação do ensino, uma
      forma de violência?!!! xys


      • talvez, mas deixávamos de ter professores que não sabem interpretar um texto… e daí talvez não…
        pois talvez não, eu andei num colégio privado e em escolas publicas e nos dois casos tive professores com manifestas dificuldades em interpretar textos, sendo que o da escola privada era o meu professor de português do 9.º ano.
        Faz mesmo falta um exame de acesso à profissão de professor.


  2. um deputado que afirma desprezar a CRP. outro que despreza quem despreza a CRP.


  3. Mesmo que a lei fundamental , a mãe de todas as leis , que normalmete chamam de Constituição , como todas a leis ,
    são uma treta porque são interpretadas à vontade do fre-
    guês , sobretudo dos que legislam e dos que julgam , que muitas vezes têm o desplante de dizer que se limitam a
    aplicar a lei com objectividade , quando o fazem com subjectividade , duma coisa , chamada lei , que costuma
    ser subjectiva , o que é um paradoxo e quando ela é
    objectiva tentam fazer dela subjectiva , outro paradoxo .

    Toda a lei é paradoxa e subjectivamente uma charada ,
    que não dá garantias a ninguém .

    Mesmo que esteja escrito preto no branco nem sempre é
    preto no branco . É tudo uma questão de interpretação e
    de convicção .

    Hoje até se julga por convicção !!! mesmo sabendo-se que
    se está a julgar e a condenar erradamente , porque nunca
    há objectividade na lei , quando se entra no campo das interpretações e das convicções está tudo dito , porque é
    tudo subjectivo .

    Por isso nunca há garantias de nada por parte dos políticos
    e dos magistrados , a não ser quando um dia se virem com
    o rabo apertado , quando o povo se decidir revoltar .

    Basicamente concordo com o seu ponto de vista .

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  1. […] a blogo-direita histérica por ter encontrado uma frase, com meses, de um deputado do PCP, perfeitamente óbvia e natural, basta não acreditar no fim da história para a entender.  Ao […]

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