Natália de Sousa merece que saibamos o seu nome

Não conhecíamos Natália de Sousa, o seu nome nunca chegou aos jornais, nunca foi capa de revista ou tema do momento nas redes sociais. Era advogada em Estremoz, ao que parece muito conhecida e respeitada na terra por se dedicar a casos de violência doméstica, abdicando frequentemente dos seus honorários para ajudar mulheres em situação desesperada.

Ontem à tarde, o ex-marido de uma das suas clientes, a meio de um processo de divórcio tumultuoso, invadiu-lhe o escritório. Recebera dias antes o aviso de que uma providência cautelar o impedia de se aproximar da mulher. Espancou a advogada até à morte, saiu e confessou o crime ao primeiro com quem se cruzou. Quando o socorro médico chegou, já era tarde.

Natália tinha 48 anos e, para além da tragédia pessoal que foi este assassinato, irá seguramente fazer muita falta em Estremoz. Não conhecíamos o seu nome, como não conhecemos os de tantas outras vítimas de violência num país que gosta de pensar que a igualdade de género é uma realidade.

Foto: JornalE

Comments


  1. Não tem a ver com violência doméstica. Pela narração dos factos, parece-me um crime premeditado. À partida, desconhecendo mais pormenores, é um dos crimes que merecia a meu ver a possibilidade de prisão perpétua. Não defendo a pena de morte. Mas a sociedade não deveria ter contemplações com bárbaros, por isso a moldura penal deveria ser endurecida. Seria algo que mereceria o meu apoio, qualquer que fosse o governo ou partido na oposição que o propusesse. 25 anos são muito curtos para certos indivíduos e nem sei se neste caso tal será aplicável…


    • Acredito que o tempo passado na prisão deveria ser um tempo de reabilitação. E se é certo que essa aspiração parece estar longe da realidade que vivemos, nem por isso deve ser abandonada, parece-me. Nesse sentido, oponho-me a penas de prisão perpétua. E rejeito totalmente a pena de morte, ou não acreditasse que o caminho evolutivo da humanidade avança no sentido da rejeição da barbárie. Infelizmente parece-me que estamos no limiar de um tempo de obscurantismo, que espero que seja vencido rapidamente.

      • Maria says:

        Pessoas que como estas matam as mulheres por Egos feridos, dinheiro, posse, cultura machista, prepotência etc não são presos que se reabilitem, a sociedade como um todo é que tem que ser reabilitada. Entretanto antes que eles ataquem mais inocentes é melhor mantê-los afastados da sociedade já que muitos mataram porque mesmo depois das queixas das mulheres, eles simplesmente ficaram cá fora. Assim como não soltamos as feras no jardim zoológico estes animais também não podem andar à solta.

  2. Conceição says:

    Mais um efeito colateral da violência doméstica. Sou filha de uma vítima da violência doméstica. O que mais me espanta é a preocupação da comunicação social em divulgar o número de vítimas de violência doméstica e apressar-se a apelidar o agressor de monstro. O agressor também é vítima, vítima da sua loucura, vítima de uma sociedade que só sabe ver os defeitos nos outros e não assume as suas responsabilidades. Quantos vizinhos bem intencionados alertaram alguma vez as autoridades para a violência doméstica praticada na casa ao lado? Poucos ou nenhuns, pois teriam que admitir perante as autoridades que aquela bofetada que o cônjuge administrou ao seu par teve origem naquele comentário maldoso proferido por si, naquela intriga semeada pelas suas palavras, naquele falso testemunho levantado por não tolerar que o vizinho tenha mais qualidades que ele próprio. Vivemos num mundo em que os realities shows preenchem as horas vagas de quem não tem mais que fazer, e se não tiverem televisão surgem as equipas de produção caseira. Este comentário é dirigido a todos os “monstros” de Portugal:
    “Quando escolheram o vosso par não foi no âmbito de um negócio, o mesmo não vos foi imposto, não o escolheram com a cabeça, mas sim com o coração, aceitaram-no tal e qual como era, com defeitos e qualidades, mas antes de tudo é porque ele era especial nalgum aspecto que mereceu a vossa atenção, algo que possivelmente passaria desapercebido à maioria, mas essencial para vocês. Uma relação é como um jardim, se o jardineiro o deixar ao abandono, então crescerão silvas e ervas daninhas, se deixarem entrar pessoas mal intencionadas, eles levarão tudo e destruirão, mesmo às bem intencionadas o jardineiro deverá indicar os limites e os carreiros para não pisarem as sementeiras. Os tempos são de crise, os motivos para aborrecimento são muitos, mas é com o vosso ou vossa companheira que têm que os discutir, encontrar soluções e delinear estratégias, partilhar preocupações e dissipá-las. De nada serve baixar os braços e culpar o outro pela vossa desgraça, de forma a justificarem-se perante os outros. A desgraça não é só vossa, é de ambos. Cair e levantar faz parte do processo de crescimento pessoal. Todos nós aprendemos com os nossos erros. Vão para casa conversem com o vosso par, dêem-lhe carinho e compreensão, ele irá retribuir. Não aceitem conselhos do companheiro de mesa do café, se ele lá está é porque tem problemas maiores que os seus e também não os sabe resolver. Doutra forma estaria em casa a tratar do relacionamento dele. Procurem ajuda, por vós e pelos outros.”

    • maria says:

      Como vitima de violência doméstica, e conhecendo a pessoa que foi assassinada, as suas conclusões chegam a ser ofensivas.
      Nem me vou dar ao trabalho de lhe explicar as minhas razões, basta pesquisar no Google “violência doméstica” na lingua que preferir: português, inglês, alemão, italiano…
      Lendo a sua história, as conclusões a que chega e os conselhos que dá so posso colocar duas hipóteses: ou a mesma é falsa ou você é cega.

    • Maria says:

      Curioso como as mulheres parecem ser sempre tão compreensivas quando toca à violência dos homens. Se estes fossem crimes raciais já se tinha feito uma revolução mas quando os homens matam as mulheres (sim porque o contrário raramente acontece) é quase como se isso fosse normal. A indiferença e a passividade da mulher em relação ao seu género não tem ajudado a que as coisas mudem. A violência e o desrespeito pela mulher, infelizmente faz parte de todas as civilizações do planeta e o sexo feminino parece não querer ver isso. Se as mulheres se unissem e se respeitassem a elas próprias poderia haver então uma mudança de consciência no mundo em relação ao “sexo fraco”. Até lá vamos continuar ouvir noticias destas.


  3. Conceição, concordo com algumas das coisas que diz, mas gostaria de ressaltar um aspecto. As vítimas não são culpadas. Não há falta de diálogo, dificuldades de compreensão, intriga ou aborrecimentos que justifiquem a agressão. Procurar falsos culpados não ajudará os agressores a superarem a sua violência e muito menos salvará as vítimas de uma vida de sofrimento ou mesmo de uma morte violenta.

  4. rosaamarela says:

    Assustador …

  5. Conceição says:

    Parece-me que fui mal interpretada?!? Não desculpo actos de violência gratuita! Se a situação da minha mãe ficou conhecida das autoridades foi porque fui eu que a denunciei. O que eu pretendi passar é que as alternativas dadas pela nossa justiça às vítimas são pouco eficazes no que toca à segurança das mesmas. A vítima continua a ser vítima mesmo depois de um julgamento em tribunal, passa do estatuto de não sinalizada a sinalizada, grande coisa! A justiça limpa as mãos quando consegue um divórcio, caso não saibam a lei diz que quando um casal se divorcia e, como tal, os cônjuges deixam de co-habitar, o crime de violência doméstica deixa de existir. Desta forma, se a vítima quiser proteger-se de represálias por parte do agressor deverá apresentar queixa no âmbito de outro tipo de crime. Só haverá prisão efectiva se o agressor for reincidente, se não for este o caso, leva com uma pena suspensa e está livre para acabar o que começou.
    Na perspectiva do agressor, ele nunca fez nada de errado e ele próprio se assume como vítima. Ele vai continuar a perseguir a vítima, pois o distanciamento físico nada representa para ele. Ele acha ter direitos que não foram respeitados nem reconhecidos perante o tribunal. Ele vai tentar fazer valer os seus direitos a todo o custo.
    Alguém, alguma vez, se questionou se o agressor entende que os actos deles são condenáveis à luz da sociedade actual? Que esses actos constituem crime grave? Que é esse o motivo pelo qual está a ser julgado? Julgam que um processo de violência doméstica lhe traz arrependimento? Arrependimento, é uma palavra que não existe no vocabulário do agressor, poderá mostrar-se cooperante com as autoridades, durante o decorrer do processo, mas somente porque lhe é utilitário.
    O internamento compulsivo é, na minha opinião, a melhor solução, pois o agressor não entende que é um perigo para a sociedade e para ele próprio.

  6. Fernanda says:

    Dos EUA, with love:

    “Susan Patton ’77 argues in her new book, “Marry Smart: Advice for Finding THE ONE” that women should work hard to find a husband, especially since they have a limited window in which they can have children. The book hits stores on March 11. The Daily Princetonian spoke with Patton about how to find “the one,” how to “settle smart” and how women should be responsible for their own safety and happiness.”

    A seguir, esta parte:

    “DP: What happens if a woman cannot find a husband before graduation? Then what should she do?

    SP: Well, you have to keep looking. The places that I’m recommending? Get involved with your alumni association. The second thing I’m suggesting to young women if they miss their opportunity to find him on campus is to think about continued education. I don’t even mean getting an advanced degree — although maybe that’s not such a bad idea — but take courses in something you’re interested in, and even more specifically, courses that are more of a workshop sort of setting. A third suggestion I would make to a woman who has missed her opportunity to meet him on campus is go to synagogue, or go to church, or go to whatever your house of worship is. Another suggestion is tell everyone you know and trust that you would be very receptive to an introduction to an appropriate man. I think people are reluctant to make these introductions lest they be seen as meddlesome or presumptuous, so I think it’s important that you have to let the people you know and trust know that, not only would you welcome their introducing you to appropriate men, but you would view it as a favor.”

    E mais, em:
    http://dailyprincetonian.com/news/2014/03/qa-susan-patton-77-author-of-marry-smart-advice-for-finding-the-one/

  7. Fernanda says:

    No final:

    “DP: You wrote: “Please spare me your ‘blaming the victim’ outrage,” saying that a provocatively dressed drunk woman “must bear accountability for what may happen.” Why does the woman hold the responsibility in the case of rape or sexual assault?

    SP: The reason is, she is the one most likely to be harmed, so she is the one that needs to take control of the situation. She is that one that needs to take responsibility for herself and for her own safety, and simply not allow herself to come to a point where she is no longer capable of protecting her physical self. The analogy that I would give you is: If you cross the street without looking both ways and a car jumps the light or isn’t paying attention, and you get hit by a car — as a woman or as anybody — and you say, ‘Well I had a green light,’ well yes you did have a green light but that wasn’t enough. So in the same way, a woman who is going to say, ‘Well the man should have recognized that I was drunk and not pushed me beyond the level at which I was happy to engage with him,’ well, you didn’t look both ways. I mean yes, you’re right, a man should act better, men should be more respectful of women, but in the absence of that, and regardless of whether they are or are not, women must take care of themselves.”

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