Embargos à moda do Ocidente

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Desde que os russos ocuparam a Crimeia, um conjunto de sanções têm sido anunciadas pelas autoridades europeias e norte-americanas, como forma de punir Moscovo pelo seu ímpeto imperialista, ímpeto esse que, como sabemos, é um exclusivo de países como os EUA ou Reino Unido, com a conivência de alguns dos seus vassalos ocidentais. Porém, não há registo de qualquer imposição ou obstáculo colocado ao normal funcionamento das actividades de empresas europeias e norte-americanas na Federação Russa.

Apesar dos embargos e do congelamento de bens de alguns oligarcas próximos de Vladimir Putin em solo americano, o mundo dos negócios não parece muito afectado pelo discurso propagandístico e pseudo-moralista dos responsáveis políticos ocidentais. A verdade é que as empresas americanas e europeias estão pouco interessadas em abandonar a consumista e rentável capital russa. E não será um Obama ou uma Merkel que as irá impedir de prosseguirem com os seus negócios.

Ao ler a edição de Maio do Global Retail News, descobri alguns factos interessantes que provam por A mais B que o normal funcionamento da economia internacional está pouco interessado nos direitos dos cidadãos ucranianos (como de resto o está no que toca aos dos chineses, sauditas ou angolanos). Entre os vários exemplos que poderia citar, as empresas norte-americanas Disney Store, Hooters e Kidzania preparam-se para entrar no mercado russo ainda este ano. O grupo Oxylane, detentor da Decathlon, colocou também o mercado russo no topo das suas prioridades onde possui já 16 lojas. De igual forma, o retalhista britânico Marks & Spencer aponta a Federação Russa como prioritária na sua estratégia de expansão para o ano de 2014, onde conta já com 40 lojas em 14 cidades.

Nada disto nos deve surpreender. Afinal de contas, e perante uma Europa falida e sem soluções para lidar com a ofensiva permanente dos terroristas financeiros, é natural que estas e outras empresas se virem para o mercado russo onde apesar de apenas uma “pequena” parte da população ter o poder de compra necessário para viabilizar todo e qualquer negócio, essa “pequena” parte representa sempre alguns milhões de potenciais consumidores. E como se tal não fosse suficiente, não será demais referir que, entre os principais operadores imobiliários da área dos centros comerciais se encontram os suecos da IKEA (na realidade os maiores operadores de todo o mercado com 14 centros comerciais em 11 cidades russas) ou o banco de investimento norte-americano Morgan Stanley, proprietário do centro comercial Metropolis (Moscovo), um dos mais movimentados e apetecidos por todos aqueles que pretendem posicionar-se de forma sólida no mercado.

Apesar da situação dramática que se vive hoje na Ucrânia, principalmente no leste do país com o avanço da violência instigada por supostos grupos separatistas pró-russos, e da profunda desvalorização do Rublo face ao Euro, o que coloca pressão adicional sobre os exportadores europeus que vêm as suas vendas cair devido à perda de poder de compra dos retalhistas e dos consumidores em geral, a aposta no gigante euro-asiático continua a ser prioritária para a esmagadora maioria das empresas ocidentais que tentam lá entrar. Com um mercado retalhista que representa cerca de 500 mil milhões de euros (2013) e uma população tendencialmente “gastadora” (em média, os russos poupam anualmente cerca de 8% dos seus salários contra, por exemplo, 30% no caso dos chineses), a suposta posição de força do mundo ocidental não passa de uma encenação para inglês ver. Embargos à moda do Ocidente.

Comments


  1. Os russo ocuparam a Crimeia?! Não sabia… No entanto, desconfiava! Sobretudo desde que os media me “ensinaram” que um civil de cara tapada, com capacete e taco de basebol, se estiver do lado do governo (fantoche) da Ucrânia é um combatente da liberdade, se estiver do outro lado é um terrorista… Ainda bem que os EUA e a UE nos ajudam a pensar…


    • atenção que eu concordo com a forma como coloca essa dualidade de critérios Luís, mas a verdade é que a Crimeia foi anexada, ou estarei enganado? A alusão a essa anexação foi uma referência temporal no meu texto.


      • … João, a utilização do termo, mesmo que corretamente colocado acaba por ter (no contexto da “crise”) uma conotação negativa, enfatizando o papel e a “iniciativa” da Rússia, quando na verdade a situação resultou da ação e vontade das populações “culturalmente” russas que vivem na Ucrânia. Bem sabemos no que dão as nações criadas a “régua e esquadro”… A Ucrânia é mais ou menos isso e um molhos de brócolos… A minha “leitura” (baseada essencialmente nos media e em alguns testemunhos de russos-ucrânianos que conheço) é de que os EUA e a UE tem alguma coisa que ver com o despoletar da crise e muito, ou tudo, que ver com as proporções que ela tomou… Incluindo a “deriva” para as matanças, onde continuam a existir mortos bons e mortos maus…
        Ainda por cima o Ocidente tem-se “vestido” com doses de hipocrisia abominável e manipulação constante da informação. O “ocidente” (que é “luz”, esperança e humanismo) atravessa um mau momento de maniqueísmo surrealista: quem não está de acordo com a cartilha dos presidentes americanos é “terrorista”… Entretanto, como sabemos, os verdadeiros terroristas são amiúde apoiados indiretamente pelos presidentes americanos. Estou a ver mal? A complicar?


        • Confesso que tenho poucas dúvidas que tenha havido apoio do poder político russo às aspirações dos separatistas. Estou bem ciente do tipo de manipulações que os media tem levado a cabo, bem como a dualidade de critérios no julgamento dos bons e maus da fita, principalmente se tivermos em consideração os imperialismos norte-americanos. Mas a verdade é que nem eu nem o Luís podemos afirmar com certeza que não houve influência do Kremlin em todas estas movimentações. Onde andaram estes separatistas até agora?

          A Ucrânia pode ter sido criada a regra e esquadro, como dezenas de outras nações mundiais. Mas isso não faz dela menos país que os outros. Quanto ao papel do Ocidente, sobre o qual já me expressei neste blog por duas vezes (http://aventar.eu/2014/04/28/my-imperialism-is-better-than-yours/ e http://aventar.eu/2014/03/07/olha-para-o-que-eu-digo-nao-olhes-para-o-que-eu-faco/) e não só concordo consigo com acredito que a tentativa da UE em absorver a Ucrânia e “encostar” a Rússia à parede é o ponto de origem de toda esta instabilidade. Para além de que não existe estado mais terrorista do que o norte-americano.

      • José Silva says:

        Está enganado.
        Já ouviu falar no direito dos povos à autodeterminação? Parece-me que a decisão foi tomada em referendo pelos cidadãos da Crimeia. E a Crimeia, historicamente, faz parte da Rússia e não da Ucrânia. Só no período soviético foi «doada» à Ucrânia.
        José Silva


        • então e se agora o Algarve quiser declarar independência José Silva? também terá direito à sua “autodeterminação”? Historicamente o Brasil também fazia parte de Portugal. Dava jeito para equilibrar as nossas contas públicas…


          • Estou admirado com o argumento do Algarve, João.
            Pode-se discordar dos acontecimentos da Crimeia, mas a comparação é manifestamente infeliz, porque as condições do Algarve em relação a Portugal já mais poderiam ser semelhantes à Ucrânia/Crimeia.


          • Num contento democrático a independência e soberania tem algumas semelhanças com o casamento… Este apenas se mantém enquanto ambas as partes o desejam. Obviamente que se o Algarve quiser “sair” teremos que o deixar ir embora… Ou ocupa-se militarmente? Lembram-se do Kosovo?…


  2. O Algarve é tão português como a Crimeia era Ucrâniana. Não é por ter caído o presidente pró-Kremlin que esse cenário muda. Pode não ter sido o melhor exemplo mas serve o propósito.

    • José Silva says:

      Mais uma vez, caro João Mendes: a Crimeia não é ucraniana. Até aos anos 50 do século XX era russa.


      • E até ao início dos anos 90 a Rússia não existia. era uma parte da União Soviética. não me parece que seja por ai. Nos anos 50 Angola também era Portugal. E que jeitinho que dava aquele petróleo todo agora não era? 🙂


  3. Se assim fosse Luís, o planeta estaria em permanente estado de guerra…

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  1. […] Mas não se espera que a vaga de investimento se fique por aqui: o gigante norte-americano do sector imobiliário CB Richard Ellis apresentou recentemente um estudo no qual Moscovo aparece no sétimo lugar de uma lista das cidades mais atractivas para o investimento retalhista em 2013. Sim senhora, direitos humanos e tal mas na hora do greenback boogie não há um que não tenha um lugar no camarote para o Vladimir. É mais um episódio dos embargos à moda do Ocidente. […]


  2. […] tudo isto, é fácil perceber a dualidade de critérios quando chega a hora das sanções. São embargos à moda do Ocidente. Um Ocidente que aponta o dedo moralista ao opressor russo mas que não se inibe de violar a […]


  3. […] britânica? Terão eles cortado relações comerciais com a ditadura putinista? Terão dado instruções para que as suas multinacionais cessassem actividades em solo russo, fazendo com que as principais marcas de luxo americanas e europeias perdessem um dos seus […]

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