O cartaz publicitário “Segunda Circular”

viaduto galp

Quando pensávamos que os distúrbios na segunda circular de Lisboa por razões publicitárias tinham terminado, eis que o interesse das marcas se sobrepõe ao usufruto do bem público.

Se esta introdução lhe pareceu demasiado enigmática, permita-me esclarecer que não existe mistério algum. Em causa está a construção de um viaduto de utilidade duvidosa, que atravessa a segunda circular para ligar a sede da Galp ao outro lado da estrada. Um negócio manhoso, que era para ser pago pela Galp mas acabou com Câmara de Lisboa a pagar 465 mil euros, ficando os restantes 900 mil a cargo do grupo Galp.

Um artigo de José António Cerejo explica isto tudo muito bem.

A obra foi concebida só para ligar Telheiras aos edifícios em que a empresa que paga dois terços do custo tem a sua sede. Agora está a ser feita uma curta ciclovia que evita este destino único, mas que pouco adianta em termos da rede de ciclovias da cidade.

Uma forma diferente de fazer publicidade, portanto, paga com dinheiro público e com autorização de construção no espaço público. No  Jornal de Negócios percebe-se o enredo de dinheiro público em fins privados

Um ano depois do prazo estimado para a conclusão da ponte, o custo das obras aumentou para 1,365 milhões e a execução do projecto passou para a Lisboagás, empresa do grupo Galp Energia, que só tem disponibilidade para 900.000 euros e que, por isso, a Câmara de Lisboa propôs “comparticipar no valor remanescente, que não ultrapassará o valor de 465.000 euros, mediante a doação em pagamento de taxas de ocupação de subsolo devidas pela Lisboagás ao Município de Lisboa“.

A construção deste viaduto causou engarrafamentos diários  durante mais de um ano e suspirou-se de alívio quando a normalidade ficou mais próxima. Até que o espaço público volta a ser terreno para edificar publicidade, sem que se perceba mesmo o que irá ser feito.

As cidades são para as pessoas, não são? Ou serão as pessoas apenas o ingrediente que permite aos gestores das cidades facturarem mais uns cobres para gastar em… obras que não as servem?

Adenda: na foto do viaduto pode-se ler “Fundação Galp Energia”. Tendo a Câmara Municipal de Lisboa pago mais de um terço da obra, cedido o terreno e autorizado esta obra quase privada em espaço público, por que razão não se lê também “Câmara Municipal de Lisboa” neste viaduto? Já para não falar da escolha publicitária da cor do viaduto.

Comments

  1. armando luz santos says:

    E… assim se reconhece o bloco central CDS;PSD e PS !

  2. nuno granja says:

    E o costa continua a ter boa imprensa…

  3. E queira Deus que esse “fundação…” não tenha a ver com benefícios fiscais do estatuto de mecenato. Que no lado mais ignorado de todos impede impede que sejam retirados benefícios publicitários para poder ser considerado como tal. Enfim, é a Lisboa de Costa.

  4. Pedro Reis says:

    Dizer mal às vezes é tão fácil…
    Então a Fundação Galp financia em quase 1 milhão de euros uma estrutura que vai beneficiar os peões, corredores e ciclistas da cidade de Lisboa e não pode sequer colocar uma pequena placa com o seu nome na estrutura? Às vezes a necessidade de questionar e de dizer mal de tudo o que se faz tolda o pensamento…
    Ou sou eu que estarei a ver mal todo o filme?

    • j. manuel cordeiro says:

      Sim, está a ver mal todo o filme, ou porque não leu o post e os respectivos links ou porque leu está a fazer de conta que não percebeu.

      Começando pela pequena placa, não escrevi que não poderia lá estar mas sim porque razão não está também quem pagou mais de um terço da obra, cedeu terrenos e a autorizou. Além de que a fundação em causa não meteu 1 milhão de euros mas sim 900 mil e não é claro que benefícios fiscais é que esses 900 mil lhe trouxeram.

      Sobre o viaduto, é propaganda essa tese do benefício de peões, corredores e ciclistas. O tempo me dará, ou não, razão mas um dos artigos linkados é claro quanto a isto:

      «A megaponte pedonal e ciclável em construção sobre a Segunda Circular não vai contribuir, pelo menos a médio prazo, para alargar a rede de percursos cicláveis de Lisboa.

      Tudo o que ela vai permitir nesse campo é duplicar, a sul da Segunda Circular e através de uma obra decidida a posteriori, uma ligação ciclável já existente entre Telheiras e o Estádio Universitário.

      A obra está a condicionar o trânsito automóvel há mês e meio e vai custar à Câmara de Lisboa 465 mil euros — ficando os restantes 900 mil a cargo do grupo Galp. Para assegurar uma saída às bicicletas que atravessarão a ponte para sul, a autarquia está agora a fazer um troço de ciclovia que lhe custará 236 mil euros e ligará ao Estádio Universitário, replicando uma pista, quase paralela, construída há dois anos em Telheiras.

      O PÚBLICO perguntou por escrito ao vereador José Sá Fernandes, na segunda-feira passada, se a Câmara possui algum estudo sobre a procura potencial da nova ponte, por peões e ciclistas, mas não obteve resposta. Nem a essa, nem a outras questões.

      A criação da ponte laranja tem sido genericamente bem acolhida pelos utilizadores de bicicletas, embora haja quem tenha dúvidas sobre a sua utilidade, localização e prioridade. Ao nível político, a obra, nos termos em que foi negociada com a Galp, contou, em Março passado, com os votos contra de todos os vereadores da oposição (PSD, CDS e PCP).

      Torres de Lisboa eram a meta
      De acordo com os documentos divulgados pelos promotores, a ponte foi concebida, desde 2009, apenas para aproximar Telheiras das Torres de Lisboa, onde funciona a sede da Galp. Assinado em Maio daquele ano pelos presidentes do município e da Fundação Galp — sem ter sido objecto de votação na Câmara — o protocolo que está na sua origem diz expressamente que ela se destina a ligar a ciclovia de Telheiras às Torres de Lisboa, uma vez que estas são “um grande edifício empregador”.

      Ambas as obras, a ciclovia e a ponte que a liga à sede da Galp, por cima da Segunda Circular, bem como a repavimentação da pista ciclável do Campo Grande, seriam suportadas pela Fundação Galp.

      Mais tarde, em Setembro de 2011, quando o projecto foi apresentado publicamente, a nota de imprensa divulgada pela Galp continuava a dizer apenas que a ponte iria “completar a ligação entre a ciclovia de Telheiras e as Torres de Lisboa, onde se encontra a sede da Fundação Galp”. Nessa altura foi anunciado que o seu custo seria de 1,2 milhões de euros, nada se dizendo quanto à participação do município no investimento. Implícito ficou, e assim foi noticiado, que a Galp pagaria tudo. O presidente da Câmara, António Costa, também nada disse sobre o financiamento.

      O que ficou também por esclarecer foi que alternativa restaria aos ciclistas que passassem a ponte — a não ser voltar para Telheiras, ou envolverem-se no trânsito automóvel.

      O segredo do financiamento foi revelado em Março de 2013, quando a câmara aprovou um novo protocolo que revogou o de 2009 e diz que a obra custa, afinal, 1 milhão e 365 mil euros — 900 mil a cargo da Lisboagás (Galp) e 465 mil por conta do município. Nos considerandos refere-se que no Plano Director Municipal está prevista “uma rede de mobilidade suave (…) com especial destaque para os modos pedonal e ciclável”. O lugar que a ponte terá nessa rede é que continuou por esclarecer.

      No início do mês passado, quando a Câmara e a Galp anunciaram o início da fase final da obras, surgiu finalmente uma explicação: este projecto “estabelece a ligação entre o Campo Grande, Benfica e o Estadio Universitário, numa extensão ciclável contínua de cerca de 9 km que contribui para alargar a malha da rede de ciclovias, promovendo assim a mobilidade sustentável na cidade”, lê-se num comunicado da Galp.

      Para perceber esta afirmação é preciso ir ao local e consultar o mapa das ciclovias de Lisboa que a Câmara tem no seu site. Na realidade, “a ligação entre o Campo Grande, Benfica e o Estado Universitário” já existe desde que em 2011 a Fundação Galp concluiu a ciclovia de Telheiras. A pista segue pela Rua Fernando Namora e transpõe a Segunda Circular, através de um ponte pedonal e ciclável, perto da Escola Alemã, entrando depois no Estádio Universitário.

      O que agora se vê no terreno é que há um pedaço de ciclovia em construção, desde as Torres de Lisboa ao estádio, ao longo da Rua Tomás da Fonseca, que replicará o percurso existente do outro lado da Segunda Circular, ainda que com menos curvas e atravessamentos. O que a nova ponte vai assim permitir é unir a ciclovia de Telheiras a este novo troço de pista, sendo para isso necessário construir 200 metros de pista que a liguem à Rua Fernando Namora e que ainda não estão em obra.

      O troço da Tomás da Fonseca foi projectado no Verão de 2012 e aprovado por Sá Fernandes com um custo de 236 mil euros. Até então, o traçado das ciclovias previstas não incluia esse percurso de 727 metros.

      Certezas e dúvidas
      Entusiasta da nova ponte mostra-se José Manuel Caetano, presidente da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta. “É uma infra-estrutura para pessoas, imprescindível para quem anda a pé, na medida em que reduz as distâncias entre as duas margens da Segunda Circular”, afirma. “Se a Câmara fez um bom ou um mau negócio com a Galp isso é outra coisa”, comenta, sublinhando que acha a obra “uma mais valia para a cidade”.

      Com uma perspectiva distinta, João Barreto, professor do Instituto Superior Técnico e membro da Mubi -Associação para a Mobilidade Urbana em Bicicleta, tem reservas. “Qualquer passagem sobre a Segunda Circular é sempre vantajosa”, observa. Mas questiona: “Há aqui um custo para o erário público que me deixa dúvidas sobre se esse investimento é prioritário para a generalização dos modos suaves, [até porque] há muitas intervenções simples e baratas que são muito importantes e falta fazer em Lisboa”. João Barreto diz igualmente que tem “muitas dúvidas em relação ao lugar desta ponte numa estratégia global de ciclovias”.

      A este respeito, Nunes da Silva, anterior vereador da mobilidade, defende a obra com um dado que não consta em nenhum documento público, nem sequer a nível de estudos. “A ponte vai permitir fechar a malha das ciclovias com uma ligação a Sete Rios pela Estrada da Luz, que está em projecto.” O actual deputado municipal não hesita, porém, em afirmar que “não era necessário fazer uma ponte com aquela dimensão e aqueles custos.” E acrescenta: “Face ao que é necessário fazer em matéria de pistas cicláveis acho que era preferível não gastar esse dinheiro num único elemento da rede e usá-lo no alargamento da rede”.

      Do lado da oposição camarária, Carlos Moura, do PCP, considera “absurda” a prioridade dada a este investimento face às múltiplas situações urgentes que se vivem na cidade. “A ponte acaba por ser uma publicidade directa à companhia petrolífera, usando as suas cores em frente à sua sede, mas paga em parte pela Câmara”. Por parte do PSD, o ex-vereador Vítor Gonçalves diz também que o seu voto contra se prendeu, sobretudo, com o facto de a ponte “ser uma coisa promocional de uma empresa em que a Câmara põe meio milhão de euros”.

      Sendo ainda desconhecida a data da sua inauguração, falta saber como é que os utilizadores, mormente os peões com mobilidade reduzida, vão reagir a algumas das características da obra, como a extensão de 400 metros, incluindo as rampas de acesso. Polémica poderá ser também a inclinação dessas rampas, que chega nalguns pontos aos 7,6%, só possível graças a um regime de excepção que permite ultrapassar o máximo legal de 6%, sem ir além dos 8%.»

      http://www.publico.pt/local/noticia/ponte-ciclavel-e-pedonal-sobre-a-segunda-cicular-vao-servir-para-que-1622958?page=-1

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  2. […] ao espaço a ser intervencionado, tal como era há uns 4 anos. Tirando a ponte da Galp, obra custeada, em grade parte, pela CML, não difere substancialmente da […]

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