Observando a extrema-direita

Battle_of_britain_air_observer A vida não corria lá muito bem no Blasfémias: por um lado deixou de ser o blogue de política em Portugal com maior audiência, por outro a credibilidade, se algum dia a houve, descamba quando um Cunha emerge. Vai daí, reaparece agora com um novo template (excelente e de fabrico nacional), alguns reforços (do revisionista Rui Ramos ao André Azevedo Alves que é mesmo liberal) e a designação de jornal online. O antigo editor da Voz do Povo, José Manuel Fernandes o homem das inventonas, anda ali como peixe na água, só falta mesmo o Espada para o Observador estar completo.

Como recordou o Rui Bebiano no Facebook “retoma o título de um semanário, crítico do marcelismo à sua direita, publicado naqueles anos em que o regime da velha senhora disparava os derradeiros tiros de mosquete” e apresenta-se, acrescento, com uma boa dose de humor: sem “qualquer programa político” mas assumindo “os princípios fundadores da Civilização Ocidental, derivados da antiguidade greco-romana do Cristianismo (sic) e do Iluminismo.”  Perante isto Rousseau deu um salto, Montesquieu pulou e Voltaire deve ter soltado uma brutal gargalhada.

Num país onde não há um único jornal de esquerda, haverá mercado para uma frente da extrema-direita? Há, o capitalismo já deve estar cansado de meias tintas, e aparece sempre pronto para sustentar os seus ideólogos: 3,2 milhões ali investidos assim o asseguram, e como é óbvio terá anunciantes em barda mesmo que os leitores não abundem; enfim, é o mercado como eles realmente o vêm: quem tem dinheiro, tem comunicação social, quem não tem, que os leia.

Não vislumbro que traga grandes novidades.

Após a hecatombe que resultou na aposta do capitalismo no eixo nazi-fascista, a extrema-direita optou por conquistar ideologicamente os partidos conservadores e da democracia cristã. Inventado aquilo a que chamam liberalismo moderno, ou mesmo anarco-capitalismo que todas as seitas precisam de variantes, a infiltração foi-se processando, com Reagan ou Thatcher em todo o seu esplendor bélico. A estratégia consiste não em criar partidos mas uma corrente intelectual que influencia os existentes. Foi o que fizeram no PSD e PP, mas não chega, os partidos precisam de ganhar eleições e eles de um novo regime constitucional.

Por outro lado as mentiras vestidas com trapos modernaços enganam sempre mais. Nisso a Helena Matos foi exemplar nos seus pedidos: negacionismo ambiental, discurso anti-intelectual, arrasando a cultura e a ciência, são exemplos de causas que já só com um grande embrulho, e quem se preste a travesti-las de jornalismo, se podem vender mesmo a incautos. Adivinho outro jornalismo de notáveis causas: a austeridade não mata e o que não mata engorda, virtudes da caridade, etc. etc. e espanta-me não ter nascido com uma secção de culinária dedicada a brioches.

Na parte económica não precisam, já têm os Carreira & JGF  a fazê-lo para as grandes audiências. Mas não podiam descurar  a velha guarda militarista, essa sim, necessariamente organizada, não falo dos heróis tipo Pinochet, personagens que se dão mal no clima europeu,  mas dos partidos género Aurora Dourada. Ao segundo dia o Observador oferece o romance de um criminoso comum, Mário Machado tem uma Eva Braun, a nossa extrema dita liberal sonha, húmida, com as suas milícias musculadas.  Confere.

Imagem: Royal Observer Corps em acção durante a Batalha de Londres.

Nota –  para escrever este texto enfrentei um dilema: hipertexto é hipertexto, mas oferecer uma ligação num dos poucos blogues portugueses com Google Page Rank 5 não me estava a apetecer mesmo nada. Abençoadamente esta tarde sugeriram-me o Donotlink:

Skeptics, bloggers, journalists and friends on social media use donotlink to link to scams, pseudoscience, misinformation, alternative medicine, conspiracy theories, racist / sexist blog posts, etc. without improving the search engine position of the site they are discussing.

Parece feito à medida, estou a testar…

Comments

  1. joão pedro figueiredo says:

    Lapidar. Haja quem ainda escreve.

  2. João Soares says:

    Para quando uma estátua do Carrajola no Parque das Nações ?

    • Miguel A. Baptista says:

      Têm toda a razão; um jornal que não pensa exactamente como nós equivale a um uma estatuária do Carrajola de arma em riste. E falar no vírus da despesa mostra o lado hiteleriano do bardamerda do Paulo Rangel. Ainda bem que somos de esquerda pois se fossemos intolerantes como os fdp de direita isto piava fininho.


  3. Excelente JJC. Confere 🙂

  4. elfo says:

    JJ como diria o Herman«ai que bem escrito»mas passemos na frente.
    Eu sou daqueles que não vai na cantilena que em Portugal não existe extrema-direita,é só eles começarem a copiar os seus amigos franceses,gregos,alemães e ingleses e vamos ver se eles não aparecem,já cá cantam quase 60 e já vi muita coisa,como por exemplo os rapazes que andaram a pedir o FMI,são os mesmos que agora dizem que foi o outro(Sócrates)é que trouxe o FMI…..

  5. Alexandre Carvalho da Silveira says:

    Em Portugal quem não é (jornalista) de esquerda, não é bom chefe de familia! porque é que não emigram todos para a Coreia do Norte?

    • José Peralta says:

      Pela mesmíssima razão que tu não emigras para…Katoomba !

    • Zuruspa says:

      Porque a Coreia do Norte näo é de Esquerda, imbecil.
      De facto a Coreia do Norte mais parece uma monarquia autoritária de Direita, como os neoliberais tanto apreciam.
      Olhe, boa viagem, eu fico-me pelo Norte da Europa!

Trackbacks


  1. […] Outra reação é esta. Como vem de alguém que escreve coisas como ‘[n]um país onde não há um único jornal de esquerda’, apenas digo o seguinte ao autor: se alguma vez se aproximar de si, na rua, um bichinho verde com antenas e forma vagamente humana e queira conversar consigo, vá por mim, dirija-se ao médico mais próximo e não fique a conversar com o dito bichinho. […]

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