A festa joga-se em Valongo, mas pode fazer-se no Porto

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Dois clubes do Grande Porto respondem hoje à noite à grande interrogação de toda a época de hóquei em patins: o campeão nacional vai ser o FC Porto ou a AD Valongo?

Na voz dos capitães, vai ser um grande jogo. O do FC Porto pode vencer a prova pela 14.ª vez; o de Valongo gostaria de acordar amanhã e ler em “O Jogo”, que o entrevistou, que a sua equipa foi a vencedora, campeã nacional pela primeira vez.

Ver a equipa verde-negra nesta luta pelo título, na última jornada, faz-me rebobinar a fita para outros tempos e para uma realidade diferente, o tempo em que os valonguenses jogavam num rinque, no jardim da vila, a Praça Machado Santos, mesmo ao lado da estrada nacional e atravessavam-na já equipados de patins e tudo, porque o rinque não tinha balneários.

Sem bancadas, com a assistência apoiada na vedação, aglutinada dentro de uma trincheira de oleado, montada para que as pessoas não entrassem directamente e pudessem ser vendidos bilhetes, à chuva e ao sol, como Deus mandasse.

E, no regresso, umas histórias para contar: um guarda-chuva nas pernas de determinado jogador; um empurrãozinho pelas costas a outro, para ajudar, claro; umas cuspidelas daquelas que te acertei, cabrão, mesmo no meio dos olhos, uns murros, uns insultos…

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 Por essas alturas eu tinha a cabeça meia a prémio porque, assinando a coluna do hóquei em patins no jornal portista, a minha pena destemperava-se com frequência na destemperança de certas atitudes dos vizinhos. As coisas estiveram feias durante anos, as pazes foram feitas finalmente quando alguns jogadores de Valongo já estavam nas Antas (Vale, Alves, Vítor Bruno, Paupério) e com Camões (um dos grandes jogadores que alguma vez defenderam as cores do Valongo, mas com uma garra que levava tudo frente, fosse stick, homem, da cintura para baixo era bola, e com o cabo do aléu nas divididas nos ângulos do rinque é que era bom) e Américo (outro que tal), lá bebemos umas cervejas, no café Pax, ali para as bandas do Marquês.

E pude continuar a ver, agora já no pavilhão, a minha modalidade numa terra onde ela era e foi sempre de uma emoção superlativa. Depois de um interregno, longo como são todos os interregnos ainda que, formalmente possam não ser, a AD Valongo transpôs o limbo, não sem que antes tivesse descido aos infernos, para regressar à divisão maior e, paulatinamente, reassumir o seu lugar identitário da terra, ao lado da regueifa, da lousa e do brinquedo. Aconselho, vivamente a lerem o que se diz aqui, para percebermos não só o que este desporto representa para Valongo, mas também para o que foi a sobrevivência de tantos clubes em condições que nem nos passam pela cabeça, de tão difíceis.

Mas, hoje, 60 anos volvidos, a equipa mais representativa do desporto valonguense, com a sua incrível assistência enquadrada por mais de seis dezenas de agentes da autoridade, vai bater o recorde de espectadores no Pavilhão Municipal.

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Uma hora e picos depois de Reinaldo Ventura e Miguel Viterbo se cumprimentarem e trocarem galhardetes, como capitães do FC Porto e da AD Valongo, teremos campeão nacional de hóquei em patins. Eu aposto no empate: o FC Porto será campeão e a AD Valongo poderá ser vice, dependendo, no entanto, do resultado do SL Benfica, que joga com o HC de Braga. Acho que os valonguenses merecem, pelo menos, o segundo lugar, até pela diferença de argumentos financeiros com as duas superpotências do hóquei luso.

Mas, como nestas coisas de hóquei, entre portistas e valonguenses nada vale sem umas alfinetadas, o que vocês fizeram, segunda-feira, na Luz não se faz. Apresentar os miúdos, apanharem uma abada de dúzia, ficou-vos muito mal. Esquecem-se de que, não jogando o habitual, os atletas, normalmente, não são os mesmos no jogo a seguir? A ver vamos.

Também compreendo que, à sua maneira, os valonguenses tenham apostado as fichas todas no jogo de hoje. Entre ser o primeiro ou o segundo dos vencidos, pouco importa.

E a porta da história está mesmo ali, ao lado, às 18 horas de hoje. É só entrar para o encontro com ela.

Primeiro de uma equipa, ou 14.º de um capitão, o Rei, ou, mais prosaicamente, a Locomotiva 66? Ganhe quem ganhar, o título fica no Norte. Em exclusivo, este ano, para o Grande Porto.

Comments

  1. h457 says:

    “o título fica no Norte”

    mais um complexadinho…

  2. Com esse nickname até eu era… Muito Obrigado, mas é verdade: o título fica no Norte, como muitos outros outros hão-de ficar. Temos pena, como dizia o outro, mas daqui houve nome Portugal.

    • h457 says:

      uma pessoa cosmopolita, culta, universalista, fraterna, sensata, nunca diria “o título fica no Norte. Em exclusivo (…) para o Grande Porto”.
      é uma questão de personalidade e em particular de um complexo de três ou quatros concelhos à volta do Porto. em mais nenhum sítio do país se ouvem esses regionalismos tacanhos.

      (a ver se o comentário não é apagado desta vez..)

      • Dá-se o caso de não ser cosmopolita, culto, universalista, fraterno nem sensato. Por isso, poderia mandá-lo perfeitamente para onde me apetecesse.
        Mas não me apetece, Estou-me nas tintas. Se lhe apagam os comentários,imagino como serão. Eu não apago, por uma razão: não é um qualquer, armado à besta, que me incomoda. Sobretudo hoje, porque, mau grado o meu clube não ter ganhado (eu escrevi ganhado, não escrevi ganho) o campeonato, não foi desta ainda que os mouros o retiraram da área metropolitana do Porto. Temos pena…
        Finalmente, e parafraseando o Almirante Pinheiro de Azevedo, bardamerda para os regionalismos tacanhos na sua versão. Ou: o que tu queres, sei eu!

  3. Enquanto apreciador de hóquei em patins, fiquei satisfeito pelo título ir para o Valongo, clube que sempre deu bons jogadores à modalidade, penso que os antigos campeões Alves e Vítor Bruno foram formados nessa escola, se a memória não me atraiçoa e não fui pesquisar. De resto ficaria igualmente satisfeito se tivesse sido ganho por Barcelos, Oliveirense, mas também por Alenquer ou Paço de Arcos. A Norte ou a Sul existem vários emblemas que formaram os jogadores que projectaram alto a equipa nacional, bem como os principais emblemas.

  4. Quantas vezes e quando foi Portgal campeão europeu de hokey em patins ?? E Montreux ?’

  5. Data a partir da qual passou a ser sempre Espanha não foi ??

  6. Julgo que Portugal ainda lidera o ranking de títulos europeus e está empatado nos mundiais com a Espanha. Montreaux perdeu importância, sendo hoje disputado por selecções mais jovens em vez das principais. O torneio quase rivalizava com o Europeu. Onde sempre fomos perdedores foi nas competições europeias de clubes, com destaque para a taça dos campeões, agora liga. Há uma década que a Espanha domina completamente a modalidade. Desde a geração anterior à actual selecção e mesmo com eles… A Itália eclipsou-se por completo. Portugal está ao nível da Argentina, sempre atrás de nuestros hermanos. Volta e meia conseguimos vencer um torneio de clubes ou competição de menor importância em selecções… Tudo isto está relacionado com a perda de espectadores. Longe vão os tempos em que os pavilhões enchiam. Cheguei a ir várias horas antes do jogo, para conseguir assistir a jogos importantes…

  7. António says:

    Geograficamente, pode-se dizer que a equipa do Sul perdeu!

    O fulgor do hoquei em patins nacional perdeu-se quando o Sporting desinvestiu nesta modalidade! Miudito eu, recordo-me da grande equipa, para mim a Equipa, que venceu o Mundial em Barcelos: (vou dizer de cor sem ir ao google) Ramalhete, Sobrinho, Xana, Fanã e Livramento! – a equipa do Sporting, houve outra melhor?

    • Ramalhete, Fernando Pereira, Sobrinho, Chana e José Leste, Franquelim, José Carlos, Vítor Rosado, Virgílio e Cristiano.
      António Livramento e Júlio Rendeiro já haviam saído da selecção. Vítor Hugo entraria a seguir.

    • Se houve, não estou a ver, tirando a de Moçambique com o Moreira, o Adrião, o Bouçós… mas esses já quase não vi jogar…
      E havia um senhor na secção do Sporting, o Sr. Gonzaga…
      Posso ser portista, ou talvez por isso, gosto do que é bom

    • Não concordo. Já sem Sporting houve um período muito forte do nosso campeonato, até pela captação de grandes valores internacionais. Um período em que tínhamos o Óquei de Barcelos dos Silvas e dos italianos, o Porto de Bosch, Santos e dos Alves, o Benfica dos Velasquez e Gaidão, o Infante de Sagres da então nova geração espanhola (Pedro Gil, Masoliver) e o Paço de Arcos com a sua tradicional formação a dar cartas.

  8. De clube, a melhor equipa portuguesa que vi jogar foi a do Sporting em 1977, com António Ramalhete, Júlio Rendeiro, João Sobrinho, Chana e Livramento. Assisti à meia-final da taça dos campeões diante do até então poderoso Voltregá, a final depois foi um passeio. No ano seguinte começou a ascenção do F.C.Barcelona, com equipas fabulosas, que domina a modalidade até aos nossos dias, com breves interregnos, pois ninguém ganha sempre. O Livramento já vi poucos anos, pelo que é sempre difícil entrar em comparações, mas Vítor Hugo para mim era genial, vi-o fazer coisas que mais ninguém conseguia. Quanto ao campeonato, nessa altura existia uma zona sul e zona norte. Porque vivia em Lisboa, lembro as temíveis equipas da A.D.Oeiras, que chegou a vencer competições europeias, bem como o Sesimbra, campo onde se criava um ambiente hostil ao adversário e regra geral todos perdiam. Também o Parede chegou a criar problemas aos adversários. Quando o campeonato passou a ser disputado todos contra todos, as equipas a Norte começaram alguma hegemonia. É desse tempo o aparecimento da Juventude Viana, Óquei de Barcelos. A Oliveirense há muito que andava por ali. Penso que o problema da modalidade foi mesmo não ser olímpica, foi tentado em Barcelona 92. A partir daí existiu desinvestimento, por exemplo em Itália. Um menor mediatismo levou à concentração. Mas continuam a existir bons jogadores, só que o entusiasmo diminuiu drasticamente. Para o Armindo, além do sr. Gonzaga no Sporting, também o FCP tinha um excelente dirigente da secção de hóquei, que decidiu tornar o clube campeão nacional, à época ainda não tinham ganho um, mas a contratação de Vítor Hugo, antecipando-se ao Sporting que o disputava, mudou o rumo das coisas…

  9. António says:

    É pena ver, a perda de fulgor que esta modalidade vai, paulatinamente, sofrendo, pois é a “modalidade portuguesa” por excelência. As novas gerações não estão para aí viradas, se não forem para o futesal é a grande concorrência! É pena!

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