Castas à prova de austeridade

Tacho Laranja

Escrevo estas palavras depois de ler o artigo de hoje da Carla Romualdo que me deixou ainda mais céptico relativamente às movimentações em Portugal e Espanha no sentido de reforçar o combate ao terrorismo (que por cá simplesmente não existe e, a existir, Durão Barroso seria com certeza o maior culpado: prendam-no) através de medidas que visam sobretudo amputar liberdades, abafar a crescente contestação social e proteger as castas que instrumentalizam o regime em função das suas ambições e da vontade daqueles que os sustentam e lhes garantem confortáveis cadeiras nos conselhos de administração das empresas frequentemente brindadas com isenções fiscais e outros privilégios garantidos com o dinheiro dos nossos impostos.

Apesar da letargia que impera em Portugal, a Europa está já em processo de mudança. O Syriza está no poder na Grécia, o Podemos e a Frente Nacional estão a um passo de lá chegar em Espanha e França, e, entre outros fenómenos como o britânico UKIP, os blocos centrais do Velho Continente estão verdadeiramente cercados e em sério risco de se tornarem oficialmente obsoletos, o que explica em parte a forma como se está a tentar destruir e denegrir a acção do novo governo grego recorrendo à chantagem e a práticas suicidas que podem precipitar ainda mais a Europa no abismo, perante o latir daqueles que se erguem nas patas traseiras. A importação dessa aberração norte-americana chamada Homeland Security é apenas mais um passo no sentido de serenar e domesticar as massas num momento em que as danadas estão particularmente efusivas na demonstração do seu descontentamento.

Claro que isto não surge num momento qualquer. Quem acha que isto tem alguma coisa que ver com terrorismo que faça o favor de bater com a cabeça na mesinha de cabeceira e acordar. Isto para aqueles que ainda têm mesinha de cabeceira e que conseguem dormir claro! Aquilo a que agora assistimos mais não é do que um conjunto de medidas preventivas que não coloque em causa a imunidade das castas, nomeadamente no que diz respeito à bolha com 100 milhões de L. Casei Imunitass anti-austeridade que os vai protegendo da vicissitudes do mundo cruel. Senão vejamos: crise? Pelos vistos não é mesmo para todos. Segundo o INE, o fosso entre ricos e pobres não parou de aumentar nos últimos 5 anos. Significa isto que, enquanto a esmagadora maioria dos portugueses vê os seus rendimentos serem diminuídos à mesma velocidade com que se privatizam serviços e se destrói o Estado Social, a casta que beneficia das tais isenções fiscais, pagas em cadeiras laranjas, rosas e azul-táxi, os desafogados vêm os seus rendimentos crescer e multiplicar-se.

Protegida que está a aristocracia, olhemos agora para aqueles que os servem. No universo boy, a austeridade não está na guest list e fica à porta. Entre tantos casos por onde poderia pegar, dos filhos dos chernes ao homem que não queria ser eleito para dar emprego aos amigos, novas revelações sobre os portugueses que vivem verdadeiramente acima das suas possibilidades emergiram por estes dias. Segundo dados da Síntese Estatística do Emprego Público (SIEP), revelados pelo Jornal de Notícias, e apesar dos cortes brutais que têm caracterizado a relação entre a Administração Pública (AP) e o governo liderado pelo mentiroso compulsivo, ficamos ontem a saber que os sectores da AP onde as clientelas abundam viram as suas remunerações mensais aumentar todos os anos desde 2011, altura em que este governo chegou ao poder. O poder legislativo (leia-se deputados e respectivos apêndices) viu o seu rendimento crescer 8,2% desde 2011 enquanto que, no caso dos dirigentes de topo da AP (onde se incluem os boys com que Passos e Portas têm vindo a enxamear o sector), o aumento se fixou nos 2%. No caso dos legisladores, o números do organismo apontam um aumento de 150€ no vencimento base o que, acrescido das restantes mordomias, resulta num aumento real médio de 220€ no final do mês. Retratos do país de Luís Montenegro, onde cada vez mais portugueses lutam para pagar medicamentos e a conta da luz.

Ao contrário daquilo que veicula a propaganda do regime pela boca de um político sem escrúpulos, que enche o peito para falar de responsabilidade mas que não hesitou um segundo em atirar o país para as mãos dos especuladores quando decidiu encenar o conto de crianças da irrevogabilidade demissionária, obtendo um reforço do seu poder pessoal a troco de alguns milhões de euros de aumento da dívida do país, a dignidade dos portugueses tem sido mais do que beliscada. Tem sido humilhada, pisada e violada em função de uma agenda ideológica e das ambições políticas de políticos invertebrados cuja palavra vale menos que uma pastilha elástica colada na sola do sapato: não vale nada e ainda causa transtorno. E enquanto alguns começam a assumir o pecado original, o desorientado que nos governa vai tocando a mesma cassete, agarrado à saia da sua chanceler e rosnando, radical, a quem ousa colocar em causa o diktat do terrorismo financeiro.

Comments


  1. Então e os amigos governantes que nos levaram a banca rota e aplanaram o caminho para estes agora terem justificação para nos explorar mais, ainda são mais pulhas. E se for provado que o Socrates tem culpas até me envergonha ser dum país com tal 1º ministro.


  2. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

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  1. […] as castas estiverem satisfeitas e a revolta do povo teimar em não atravessar a fronteira virtual da […]


  2. […] do que corrigir injustiças fiscais e garantir a igualdade de oportunidades, este pastor de castas à prova de austeridade que não honra os seus compromissos não passa de uma fraude. Um contador de histórias que […]


  3. […] parágrafo poderá ser substituído por “os portugueses viveram acima das suas possibilidades”. Excepto as castas que, como devem imaginar, integram o grupo dos únicos portugueses a levar uma vid…, longe da nossa fúria consumista feita de frigoríficos, refeições de carne e idas ao […]


  4. […] a viver do ataque ao despesismo socialista. A infinita lata dos recordistas na nomeação de castas à prova de austeridade liderados pelo sujeito desonesto que não queria dar emprego aos […]


  5. […] fiel a uma tradição de recordes na nomeação de boys à prova de austeridade que nem Cavaco, Guterres, Durão ou Sócrates conseguiram igualar, há novas panelas que nos […]


  6. […] pelos inúmeros assessores recrutados directamente nas fileiras da JSD e da JP que partilham a imunidade face à inevitável austeridade e que se passeiam em boas máquinas de alta cilindrada, com o alto patrocínio de um povo cada vez […]

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