Que a Alemanha reembolse a Grécia já!

Kai Littmann

Bundesarchiv_Bild_101I-164-0389-23A,_Athen,_Hissen_der_Hakenkreuzflagge
© Bundesarchiv via Wikimedia Commons

[Nos anos 1980, o alemão Kai Littmann passou um ano na ilha grega de Creta, numa aldeia recôndita onde não havia electricidade. Um dia, um velhote grego mostrou-lhe um cemitério onde haviam sido enterrados 150 resistentes gregos, fuzilados pelos nazis durante a Segunda Grande Guerra, e explicou-lhe alguns factos da História. As gerações alemãs (mas nem só) nascidas depois da Grande Guerra ignoram muita coisa que aconteceu, incluíndo os crimes de guerra perpetrados pelos nazis na Grécia, que não figuram nos manuais escolares de História. Não admira por isso que ninguém perceba muito bem do que falam os gregos quando agora, pela mão do Governo recentemente eleito, reclamam o pagamento de uma dívida que os alemães têm para com eles. Uma dívida que, ao contrário do que tem sido sugerido pelos media que chegam a Portugal, não corresponde a reparações de guerra. S.A.]

Para perceber de que dívida se trata (essa mesma cuja urgente liquidação o actual Governo grego reclama) é preciso saber que em 1942 os nazis obrigaram o Banco da Grécia a acordar-lhes um “crédito” de valor equivalente a 476 milhões de marcos da época, o que hoje, acrescido de juros de mora, soma algo que pode ascender aos 70 mil milhões de euros. Uma dívida que a Alemanha afirma ter honrado em 1960, quando transferiu para os cofres do Tesouro grego a quantia de 115 milhões de marcos. Sucede que esse valor foi na verdade pago a título de indemnizações às vítimas do nazismo na Grécia, que foram muitas, e não tem nenhuma relação com a dívida de que aqui é questão.

Ora, uma das perguntas que está a animar o debate entre os juristas [servindo claramente os interesses mais pequeninos da Alemanha, pela confusão que cria relativamente aos termos de fundo da discórdia] é a seguinte: é ou não a República Federal da Alemanha herdeira legal da Alemanha nazi? É ou não a RFA responsável pelos crimes nazis? Segundo o tratado ‘4+2’ de 1990, relativo à Reunificação alemã, a Alemanha não tem, a contar dessa data, nenhuma responsabilidade jurídica sobre eventuais reparações de guerra que sejam reclamadas. Interessante será precisar que falamos de reparações relativamente às quais a Alemanha e os Aliados tomaram a liberdade de definir cláusulas sem o consentimento do conjunto de países visados. Alguém perguntou à Grécia se concordava em apagar para sempre essa dívida da Alemanha?

Mas a dívida em questão neste texto não tem nada que ver com reparações da História, repetimo-lo uma vez mais. Se é certo que o Direito e a Moral, i. e., a Lei e a Ética, nem sempre caminham juntos, certo é também que a responsabilidade moral dos alemães deveria levar a Alemanha a devolver à Grécia esse “crédito” a que os nazis a obrigaram em 1942, tanto mais que a Alemanha beneficiou muito com a recente crise grega no plano financeiro. O debate jurídico arrisca-se a durar décadas, apesar de a Grécia não ter esse tempo. Deitada por terra por uma crise humanitária gerada pelos anos de austeridade, a Grécia exige agora à Alemanha que ponha a mão na consciência: não defendendo a imposição de mais austeridade, nem dando conselhos avulsos sobre a melhor forma de gerir o país dos gregos, antes abrindo os cordões à bolsa para pagar o que deve à Grécia: dinheiro subtraído ao Banco da Grécia pelos nazis durante a Guerra.

Um tal gesto evitaria não apenas um litígio jurídico que tem custos elevados e não honra a Alemanha, mas constituiria também um gesto de solidariedade, de fraternidade e de coerência europeia.

Tenho vergonha que o meu país, em 2015, se comporte como se a Segunda Grande Guerra não tivesse passado de «um pormenor técnico da História»(*).

(*) Alusão a uma famosa afirmação de Jean-Marie Le Pen sobre as câmaras de gás de matar judeus nos campos nazis.

Kai Littmann é um dos fundadores da publicação on-line franco-alemã Eurojournalist.
Texto originalmente publicado por Mediapart, numa tradução livre com reedição de Sarah Adamopoulos.

Comments


  1. Portugal também devia ser indemnizado pelas invasões francesas.


    • Claro, tem tudo a ver. O facto de não existir nenhum acordo nesse sentido feito após a Guerra Peninsular, de esta dívida só ter sido “perdoada” pela URSS/EUA em 1991, também tem.
      Quando não há argumentos manda-se uma boca, e já está.

    • celesteramos.36@gmail.com says:

      Portugal também devia ser indemnizado por 3 invasões francesas e pelos roubos do que levou e dos bens a que deitou fogo por não conseguir sacar e transportar esses “despojos de guerra” bem como de 70 anos de ocupação filipina, fora o que roubaram e mentiram e ainda trazem algumas para exibir em Lisboa no Museu das Janelas Verdes (2015) e mais aqule bicadinho de terra e vila do lado de lá de Portalegre e preparam-se para se apossar das Ilhas Selvagens fora o que não vem nos jornais – adorável – em agronomia o sr JUNOT tem lá um banco com o seu nome onde meditava descansava e olhava o Tejo – também pode levar o banco Os meninos de hoje já não se interessam por história recente qu7ando mais desse tempo Tornaram-se “europeus”


      • Olhe, fale com vários brasileiros ou africanos acerca da presença portuguesa nesses países e pergunte o que eles acham e o que aprenderam na escola. O que estes velhinhos de hoje, que tiveram a boa velha educação patriota salazarenta, não percebem é que se vamos andar a vasculhar na história “recente” talvez encontremos franceses e nazis em cada esquina.


    • Por acaso portugal foi indemnizado pelas invasões francesas.

      Mas repare-se que não se pede á alemanha que pague indeminzações de guerra mas sim que pague um emprestimo que esta “pediu” ao governo grego durante a ocupação.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.