O problema dos unicórnios

– Compreenderá que isto de andarem unicórnios à solta na escola, D. Alda, é aborrecido e pode dar muito mau resultado. Imagine que um unicórnio morde uma criança. Imagine que desata a galopar por aí e atropela alguém. Imagine que os outros pais descobrem que temos aqui unicórnios à solta e vêm apurar responsabilidades.

A D. Alda imaginou tudo isso e mais. A vergonha de aparecer no noticiário da TVI, a avó desleixada que não consegue impedir a neta de desenhar unicórnios, o repórter em directo a mostrar os desenhos da Joaninha, imaginou o filho, pai da Joaninha, a censurá-la: “Francamente, mãe, a única coisa que te pedi foi que afastasses a miúda dos unicórnios”. Os olhos muito azuis iam-se-lhe abrindo de terror e começavam a incomodar o professor Tomé. Era um homem jovem, de barba muito bem aparada, e sistema nervoso frágil. Tentava parecer tranquilo mas a situação estava a deixar-lhe os nervos esfrangalhados.

– Eu sei que a senhora não tem culpa de nada. Eu sei que a Joaninha gosta de desenhar os unicórnios e não o faz por mal. Ela também não tem culpa que os bichos saltem do papel assim que ela os desenha e andem por aí. Mas a escola não pode permitir que isto continue. É a segurança de todos que está em causa!

O professor Tomé já estava a falar com voz fininha, sinal seguro de que se tinha exaltado. A D. Alda dizia que sim com a cabeça, compreendia tudo, realmente era inadmissível, esta pouca-vergonha dos cavalos à solta no recreio, os miúdos a quererem passear-lhes no lombo, e a Joaninha a desenhar uns atrás dos outros sem parar…

E enquanto o professor Tomé falava, atrás dele, pela janela que dava para o recreio, a D. Alda via um novo unicórnio, de um azul iridescente, a comer as ervas daninhas atrás do escorrega. Ai se ele olhasse para trás… ainda ficava mais irritado.

A Joaninha estava na sala do lado, de castigo, à espera que a avó fosse buscá-la. Era um amor de miúda, amiga de fazer vontades, obediente na hora de ir para a cama, meiguinha, só tinha aquela pancada dos unicórnios, pronto. E não era por falta de bons conselhos.

– Ó Joaninha – dizia-lhe a avó, toda dengosa – por que é que não fazes antes um coelhinho? São tão amorosos… Ou um esquilinho, com aqueles dentinhos grandes? Também podes desenhar passarinhos, não gostas de passarinhos? Sacodem as asinhas e fazem piu-piu, piu-piu…

Mas a miúda só gostava da bicharada esquisita e na altura do Natal, quando foi passar as férias com a avó, houve três reuniões de urgência no condomínio por causa das criaturas que a miúda fez aparecer no prédio. A última foi o urso polar no elevador, que por sorte só foi visto pela D. Cândida e já há muito tempo que ninguém liga nenhuma àquilo que a D. Cândida diz. Foi então que tiveram aquela conversa séria e a miúda prometeu deixar os desenhos. Mas não conseguiu, coitadinha.

– Ó professor, tem toda a razão, mas a  minha neta não consegue controlar-se, aquilo é mais forte do que ela, percebe? Eu peço-lhe para ela desenhar florzinhas e corações, mas a miúda gosta é da bicharada e quanto mais esquisita melhor, não há nada a fazer.

– Não há nada a fazer?! – o professor Tomé saltou da cadeira, como que impulsionado pelo guinchinho que tinha soltado, tal era a sua fúria. E foi então que a porta da sala caiu, com um estrondo insuportável, e o ogre, de cabeça descomunal, orelhas sujas e dentes amarelos a sair da boca mal fechada, entrou directo ao professor, pegou nele, atirou-o para as costas como um saco de roupa velha e saíram os dois, a grandes passadas, o professor Tomé de cabeça para baixo, aos gritos, o ogre impassível e fedorento.

– Ai credo, que desagradável – murmurou a D. Alda enquanto compunha a saia.

À Joaninha, agora, ninguém a apanhava desprevenida. Sempre com papel e lápis escondidos no bolso, sempre pronta para todas as ocasiões.

Foto: Chema Madoz

Comments


  1. Escreve muito bem.

  2. João Soares says:

    Rezemos para que a Joaninha não se ponha a desenhar o Sócrates !

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.