Segredos da máquina mediática de Bruxelas

 Nikos Sverkos

Na política, dizem os insiders dos órgãos de comunicação políticos, está sempre em vantagem quem melhor conseguir influenciar os media internacionais para que veiculem as suas posições. E isto não acontece apenas durante os períodos de campanha eleitoral: na União Europeia, o poder de decisão depende não apenas da força da economia de um dado parceiro, mas também do modo como ele lida com os órgãos de comunicação internacionais.

Não é segredo que em Bruxelas existe uma máquina de comunicação bem oleada que consegue distribuir informação às principais agências de comunicação numa questão de horas. Esta máquina, que aumentou a sua influência desde o início da crise financeira em 2008, opera com base na manutenção do anonimato das fontes jornalísticas que a alimentam – um dos princípios mais sagrados da ética jornalística.

No entanto, este princípio de anonimato tem sido também utilizado para proteger a própria máquina mediática de Bruxelas e garantir que a mesma permanecerá oculta da opinião pública. Nenhum jornalista na capital Belga está preparado para arriscar o seu emprego expondo o modo como o sistema funciona, preservando e reproduzindo, assim, um ‘código de silêncio’ em torno deste assunto.

O Núcleo duro

O grupo com maior influência sobre a máquina mediática de Bruxelas é constituído pelo ‘núcleo duro’ da Eurozona. Nele se incluí a Representação Permanente da Alemanha, sediada em Bruxelas e assistida pelos países-satélite (em termos políticos e financeiros) daquele país – Espanha, Portugal, Eslováquia e os estados do Báltico (entre os quais a Letónia, que ocupa presentemente a Presidência da União Europeia). A França e a Itália possuem claramente menos acesso e influência neste sistema.

Em termos da recolha e distribuição de notícias os principais intervenientes no sistema são os três maiores órgãos de comunicação a nível Europeu: as agências noticiosas Reuters e Bloomberg e o jornal Financial Times. O que quer que este grupo noticie é de imediato reproduzido por todos os outros órgãos de comunicação europeus. Assim – de forma mais ou menos intencional – os artigos publicados pelo grupo são difundidos rápida e amplamente.

A informação que alimenta a máquina mediática de Bruxelas provém de três fontes principais: os indivíduos que trabalham dentro do aparelho burocrático da UE e que acompanham as reuniões centrais (e.g. tradutores, intérpretes, secretários administrativos); os próprios políticos (ou os seus assessores) e os altos funcionários das instituições Europeias. Estas fontes são utilizadas para satisfazer as necessidades de cobertura oportuna e exclusiva dos acontecimentos, o que torna os jornalistas extremamente competitivos na busca de informação relativa aos assuntos discutidos naquelas reuniões.

As formas de comunicação mais frequentes entre estas fontes e os jornalistas são as SMS. No entanto, quando se trata de fugas de informação com carácter mais detalhado, os jornalistas dos três grandes intervenientes na cena mediática da UE (em conjunto com outros, sobretudo de meios de comunicação Alemães e Britânicos) são convidados para conferências de imprensa não oficiais. Tem sido este o caso dos últimos meses.

Nestas reuniões, a pessoa que geralmente passa a informação é um funcionário que trabalha também nos Serviços de Porta-voz da Comissão Europeia. De origem alemã, este homem põe de lado a etiqueta da UE e a neutralidade que, teoricamente, a sua posição profissional exige.

Um exemplo recente, que ilustra como este sistema funciona bem, foi o que se passou na  recente reunião do Eurogrupo , em Riga. No dia 23 de Abril, o ministro grego das Finanças – Yanis Varoufakis – participou, com os seus colegas, num jantar destinado a preparar os assuntos a serem discutidos na reunião. Tudo se passou normalmente. Mas, no dia seguinte, os meios de comunicação ‘revelaram’ que, durante a reunião do Eurogrupo, existiram discursos muito agressivos contra Varoufakis por parte dos seus congéneres.

O Extraterrestre

O mesmo alto funcionário da Comissão Europeia, momentos depois da conclusão da reunião do Eurogrupo, convidou oito jornalistas para a ‘tradicional’ conferência de imprensa informal. “Houve muita raiva para com a delegação Grega”, disse-nos um jornalista sediado em Bruxelas e que pediu o anonimato. “Quando perguntámos sobre a posição de Varoufakis na reunião, o funcionário disse-nos ‘esse homem vive noutro planeta!’ e fez gestos depreciativos. Não é nada que já não tenhamos visto anteriormente, nem por parte dos funcionários da UE, nem desta pessoa em particular”.

Um update idêntico foi feito por dois outros funcionários da UE, um que trabalha no Eurogrupo e outro numa missão diplomática de um país do Sul da Europa. “Eles foram também muito agressivos, tentando apresentar Varoufakis como um ‘extraterrestre’”, disse o jornalista que esteve presente durante as discussões. “Quando chegámos ao cerne da questão relativamente à economia Grega, as ‘fontes’ recusaram-se a dizer o que quer que fosse. Apenas responsabilizaram Varoufakis”. Estas informações foram seguidas de duras declarações por parte de vários ministros, fazendo eco das posições do governo alemão.

Esta informação específica acerca dos acontecimentos da reunião do Eurogrupo em Riga foi publicada pelos três principais órgãos de comunicação mencionados, dando a impressão que durante a reunião se tinha instalado um ambiente de guerra e quebrando a regra implícita de manter uma distância profissional e não utilizar palavras duras. Na sequência destes acontecimentos, a delegação grega decidiu que Varoufakis não estaria presente no jantar, já planeado, de dia 24 de Abril, no sentido de expressar o seu desagrado pelo modo como aquele ministro e a própria Grécia haviam sido tratados pelos restantes participantes. No entanto, a ‘agressividade’ por parte dos ministros, dos funcionários da UE e dos órgãos de comunicação social não diminuiu. Pelo contrário, a Reuters apresentou Varoufakis como estando “isolado”, simplesmente pelo facto de não ter comparecido ao jantar e sem sequer ter procurado obter uma declaração da delegação grega. Os jornais também comentaram abundantemente a decisão de Varoufakis de não usar gravata

O sinal verde para esta última campanha de difamação foi dado através de uma SMS enviada por um funcionário alemão a um jornalista de um dos órgãos de comunicação do ‘grupo dos três’. O jornalista telefonou seguidamente a algumas das suas fontes em Atenas para as por ao corrente do que se iria passar.

O Muro

Durante as reuniões do Eurogrupo no passado mês de Fevereiro, o governo grego tentou quebrar o aparentemente impenetrável ‘muro mediático’ que foi construído à sua volta. “O facto de o rascunho da ‘decisão’ de Jeroen Dijsselbloem ter chegado aos meios de comunicação social através da delegação grega, subvertendo assim completamente o debate, indignou muita gente em Bruxelas”, disse-nos o jornalista. “Foi declarada guerra e a partir desse momento as posições gregas foram repetidamente passadas a Peter Spiegel do Financial Times”, acrescentou.

“Será que Varoufakis conseguirá sobreviver à pressão?” pergunta o jornalista. “Pelo menos Tsipras ainda confia nele”, respondemos. “Então informe o governo e o povo grego que podem esperar ataques crescentes”, disse o jornalista.

Nikos Sverkos é jornalista, editor e produtor do Efimerida ton Syntakton, Jornal dos Editores, cooperativa formada por trabalhadores do extinto jornal Eleftherotypia
(Publicado originalmente em I Efimerida por Ton Syntakton ; traduzido para o inglês por  Dionisis Antonopoulos  e editado por Mehran Khalili – traduzido para português a partir de The Press Project por Elisabete Figueiredo)

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