Postcards from Scotland #12 (Edinburgh)

‘Wanna be lonely with me?’* or ‘There will be no miracles here’**

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Edimburgo é agora a cidade mais bonita do mundo. Agora que mal a conheci e me despeço já dela. Edimburgo tem recantos que me comovem e se acontecer que me perguntem a razão, na verdade não saberei dizer porquê. Mas Edimburgo só é a cidade mais bonita do mundo quando consigo abstrair-me das multidões que de manhã à noite percorrem, por estes dias do Fringe, as suas ruas. É um exercício difícil, mas aprende-se também a abstração como, na realidade, se aprende tudo. Até a gostar da cor cinzenta e fria que tinge os prédios, do sol intermitente, dos pingos de chuva que nos atingem, grossos e pesados, quando menos esperamos. Das quatro estações numa hora.

Acordei tarde porque ontem fiquei até às tantas na conversa com o Estevan (e não Estebán, como havia escrito no último postal) e com o Manu. Hoje de manhã ainda não eram 9 horas toca a campainha insistentemente e ouço vozes a falar muito alto. As vozes calam-se e eu volto a dormir por mais duas horas. Saio de casa antes do meio dia e tomo um pequeno almoço de fruta e café no Costa aqui na esquina. A seguir vou tentar perceber onde é a paragem do autocarro (41 ou 13) para a Galeria de Arte Moderna. Caminho por isso pela South Bridge, depois pela North Bridge e por quase toda a Princes Street até encontrar a paragem dos autocarros que me interessa. Acordei com as grossas pingas de chuva a cair na janela por cima da minha cabeça. Passado um bocado já brilhava o sol e o céu estava azul. Quando saio de casa chove novamente, mas pouco depois está calor até. Em menos de uma hora as quatro estações, como já disse. Nas ruas que referi a multidão é imensa. As pessoas caminham como se não vissem as outras, como se fossem cegas e andassem sempre em frente, aos encontrões se necessário. Na realidade é mesmo assim. Como se fossem cegas, aos encontrões. Faz-me muita impressão esta gente toda e tento abstrair-me tanto quanto possível, respirando fundo e olhando para cima, para os prédios altos e tão bonitos, para as nuvens, para as copas das árvores.

O autocarro 13 vai, no entanto, praticamente vazio. Deixa-me mesmo à entrada da Galeria de Arte Moderna, ou deveria dizer mais adequadamente das Galerias – Modern One e Modern Two – que ficam frente a frente, ainda que separadas pela estrada. Saio do autocarro e caminho para a esquerda. Quase à entrada da Modern Two e mesmo em frente à passadeira que, se a atravessar, me conduzirá à entrada da Modern One, encontro-o e nem quero acreditar ao princípio que o encontro, enterrado no asfalto até à altura do peito, na expectativa do mar. Do mar de Crosby Beach, Liverpool, fitando o horizonte. Está sozinho. Como sozinhas, afinal, estão as outras 100 esculturas, todas idênticas, de Antony Gormley, em Another Place. A mesma solidão desamparada. A mesma expectativa. Mas o asfalto em vez do mar. Comovo-me, quando finalmente acredito que o encontro, em frente à Modern Two. Comovo-me porque hoje é o último dia que estou em Edinburgh e porque o vi tantas vezes repetido mas único, em outro lugar, um dia depois de ter chegado ao Reino Unido, há 16 dias.

Vê-lo ali recorda-me tudo o que senti naquele dia em Another Place. Sozinha como estavam sozinhas as 100 estátuas espalhadas pela enorme praia. Sozinha num dia de chuva em Crosby Beach. Sozinha e afinal não, como escrevi. Vê-lo ali, enterrado no asfalto recorda-me que é um mundo pequeno este, onde até estátuas de 650 quilos se reencontram noutro lugar. Vê-lo ali solitário, sem que muita gente nele repare ou o reconheça, faz-me pensar que tudo faz sentido. Comecei esta viagem de verdade em Another Place e parece-me agora tão lógico que um pouco desse lugar tenha vindo ter comigo agora que a viagem terminou. No grande relvado em frente à Modern One há uma instalação que diz ‘there will be no miracles here’ mas, diante da escultura de Gormley, noutro lugar, atrevo-me a discordar completamente. Mas tudo depende do que se entende por milagre.

Animada pelo reencontro atravesso a estrada e entro na Modern One. Há pessoas sentadas em bancos que almoçam. Sozinhas. Há uma escultura fantástica de Eduardo Paolozzi à entrada – Master of the Universe – solitária, também ela. Entro na Galeria e como sempre a entrada é livre, à exceção de algumas exposições temporárias, como é o caso de ‘The Amazing World of M.C. Escher’. Pago o bilhete e vou rever alguns quadros que já tinha visto duas vezes no Geementemuseum em Haia (em 2007 e em 2009). Escher era holandês, embora tenha vivido muitos anos em Itália, na Suíça e na Bélgica. Em Haia há um museu inteiro devotado a Escher que, lamentavelmente, nunca consegui visitar. Ainda. Vejo assim e recordo ainda agora os seus títulos, ‘White cat’, ‘Verbum’, ‘Metamorphosis II’, ‘Moebius Strip with red ants’, ‘Cycle’, ‘Liberation’, ‘Relativity’, ‘Three Worlds’ e os meus favoritos nesta tarde em que um encontro tão importante ainda agora me aconteceu: ‘Encounter’, ‘Bond of Union’ e ‘Other World’. Gosto muito de Escher, acho que já o tinha referido por aí num dos postais de Londres, escritos em fevereiro passado.

Na Modern One, além desta exposição e por causa dela, estão organizadas algumas outras, com peças da coleção permanente da Galeria de Arte Moderna da Escócia. Assim vejo trabalhos que nunca tinha visto, ao vivo e a cores, de Dali, Magritte, Picasso, Giacometti, entre muitos outros. No fim da visita atravesso a estrada, digo um olá silencioso à figura meio enterrada no asfalto, e entro nos jardins da Modern Two. Uns jardins soberbos, acrescento. A Modern Two é ainda mais bonita que a sua vizinha da frente. Além da exposição de Roy Lichtenstein, de que gostei muito, vejo algumas obras da exposição permanente e encontro de novo Picasso, Magritte e ainda Picabia, Stiglitz, Munch, Miró… e tantos outros outra vez. Desço ao piso zero para almoçar na bela cafetaria que tem uma bonita esplanada que hoje, no entanto, não utilizo. Está imenso frio apesar de a chuva ter parado. O almoço é basicamente vegetariano com legumes cultivados ali mesmo. Depois do café regresso aos jardins e à paragem do autocarro, não sem antes me despedir do meu amigo solitário que, no asfalto, vê o mar e observa o horizonte. Tenho a certeza que eu, cada vez que me sentar a ver o mar e o horizonte, hei-de pensar agora em Another Place.

Quando saio na Princes Street a confusão contrasta com a calma de onde venho. Milhares de pessoas estão nas ruas de Edinburgo. Hoje é o ‘Military Tattoo Festival’ e chegam autocarros de outras partes que despejam gente, sem cessar, em muitos pontos da cidade. Avanço entre a multidão, fingindo que estou sozinha em Another Place. Que sou uma escultura, a centésima primeira, olhando o mar e esperando não sei que coisa do horizonte. Entro numa loja para comprar umas coisas e dirijo-me à Guthrie Street para as pousar antes de voltar a sair. O meu ‘companheiro de casa’, como ele se chama a si mesmo, pergunta-me o que fiz e conto-lhe, especialmente do reencontro. Fala muito ele, já o disse antes. E pergunta mais. Faz-me perguntas estranhas, acho eu, relacionadas com a ‘minha solidão’. Como é que me sinto melhor, quando tenho companheiro ou quando não tenho? Respondo: quando não tenho. Olha-me de frente e atira: porquê? O que é que achas que muda em ti? Digo-lhe que para lhe responder talvez precisasse de vários dias e, seguramente, que ele entendesse tão bem como eu a minha língua. De qualquer maneira concordamos ambos qual é a situação ideal. Alone Together. Um standard de jazz bestialmente conhecido e interpretado de imensas formas, desde a voz de Chet Baker, ao saxofone de Sonny Rollins, ao trompete de Miles Davis e ao piano de Stefano Bollani e cito apenas alguns para não vos maçar. Talvez a ideia ‘wanna be lonely with me?’* seja difícil de entender, receio bem que seja, sim, e eu não tenho tempo, nem vontade, de a explicar, mas aparentemente estamos os dois de acordo nisto. Não que isso signifique, neste caso concreto, alguma coisa. Mas é apenas bom, basicamente, que aqui e ali, sejamos entendidos.

Quando o meu ‘companheiro de casa’ transitório começa a levar a conversa para patamares que, sejamos honestos, agora não temos tempo de abordar, resolvo dizer-lhe que a minha ideia era basicamente pousar as coisas que comprei e voltar a sair. E assim faço. Tomo o sentido contrário ao que costumo tomar na Guthrie Street, ou seja, viro à direita em vez de virar, como habitualmente, à esquerda. Encontro a Cowgate que percorro até à Grassmarket. Há muita animação. Pessoas que dançam e tocam e cantam. Sento-me num banco a observar tudo aquilo. Alone Together, portanto. Ligo o Facebook e vejo uma memória de há quatro anos. Alguém, um italiano, no dia 26 de agosto de 2011, me disse, na ilha de Creta, ‘ma tu fai una famiglia!’, referindo-se à minha alegada capacidade de arrastar gente comigo em muitas situações e, sobretudo, de ir juntando sempre mais gente. ‘Io faccio una famiglia’ e, no entanto, não tenho, raramente tive, vontade de ter uma eu mesma, mesmo quando tê-la parecia natural, como o amor.

Motivada pela memória de uma frase dita, na Grécia, por um italiano, entro num restaurante chamado ‘My Italy’. Peço uma Moretti ‘alla spina’ uma bruschetta e uma pizza ‘quattro formaggi’. Quando a bruschetta chega vem com um molho escuro por cima da rúcula e do parmesão e eu digo, em italiano, ao empregado que esperava ‘una vera bruschetta’ e não aquele molho. Responde-me, igualmente em italiano, que tiveram de adaptar a comida ao gosto dos habitantes do Reino Unido e eu começo a temer pela pizza. Mas, vá lá, a pizza é bastante boa. O café igualmente. Quando saio do ‘My Italy’ refaço, em sentido contrário, o caminho. O ‘companheiro temporário’ ainda está acordado, claro, e nota a minha energia. Ainda há dias, outro italiano que não o de Creta, em Aberdeen me disse exatamente o mesmo. Não sei, penso sempre, a que energia se referem. Não sou enérgica. Sou apenas entusiasmada. Principalmente quando estou sozinha. E quando reconheço que há encontros e reencontros e milagres em toda a parte.

Assim seja. ‘Everything is going to be alright’.***

*título de uma peça de Valdemar Pustelnik, apresentada no Fringe (Pleasance Courtyard)
** título de uma instalação nos jardins da Scottish National Gallery of Modern Art (Modern One)
*** instalação de Martin Creed, na frente do edifício da Modern Two.

Comments

  1. Diogo Da Veiga says:

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