Grandes Questões do nosso tempo*: Quem foi mesmo que chamou a Troika?

Troika

Tenho um palpite para o debate da próxima Quinta-feira na TSF, entre Pedro Passos Coelho e António Costa: o centro nevrálgico da argumentação do primeiro-ministro – José Sócrates – será substituído pela mais recente e suposta tentativa socialista de reescrever a história. A menos que Passos Coelho seja estúpido e pretenda ser novamente trucidado, o que não seria estranho para quem consegue atrair tantos eleitores com tendências masoquistas.

Mas regressemos ao debate Passos vs Costa da passada Quarta-feira e ao início da polémica sobre quem chamou a Troika, que começou com António Costa a afirmar que

É altura de parar com a mistificação sobre a troika. O senhor quis a troika. Tenho aqui, aliás, uma declaração sua de 30/4/2011, no Jornal de Notícias, onde o senhor diz ‘A troika está cá a nosso pedido’.”

Convenhamos que Costa não acusou o PSD de chamar a Troika. O líder do PS limitou-se a dar eco a declarações de 2011 em que Pedro Passos Coelho afirmava que a Troika estava no país a seu pedido. O primeiro-ministro, vislumbrando na intervenção de Costa uma possibilidade de explorar um tema caro aos socialistas, contra-atacou:

Oh doutor António Costa, não leve a mal… Mistificação? O senhor sabe quem é que chamou a assistência para Portugal? Foi o ministro das Finanças do Governo socialista. Não venha inverter as coisas. Então foi a oposição que chamou a troika?

Na verdade, e ainda que a sua intenção pudesse ser essa, António Costa não disse que foi o PSD a chamar a Troika, apenas que quis a sua vinda. E Passos Coelho aproveitou o pretexto para encarnar um papel que conhece bem, o de vítima.

Mas afinal quem chamou a Troika? Quem formalizou o pedido à Troika foi o governo de José Sócrates, quanto a isso não restam dúvidas. E António Costa, para enorme tristeza dos PàF’s, não chegou sequer a integrar o segundo executivo Sócrates, durante o qual teve início o assalto a intervenção. Mas será que todo este processo se resumiu a um mero formalismo?

Sobre o tema, Paulo Pena escreveu no Público uma peça muito interessante, que nos remete para factos que ultrapassam o pedido formal endereçado pelo governo socialista à Comissão Europeia, BCE e FMI, a 6 de Abril de 2011. Antes disso, a 31 de Março, Pedro Passos Coelho e Miguel Macedo endereçaram uma carta a José Sócrates e a Cavaco Silva onde defendiam o pedido de resgate. No dia seguinte é a vez de Carlos Costa seguir às pisadas do PSD e, dois dias depois, era Paulo Portas quem declarava à comunicação social o seu apoio à intervenção. Seguiu-se uma comitiva de banqueiros, composta por Salgado, Ulrich, Amado, Santos Ferreira e Faria de Oliveira, que a 4 de Abril foram ao Ministério das Finanças pressionar Teixeira dos Santos, a 5 reuniram com Passos Coelho e a 6 foram recebidos em Belém. Até Mário Soares, homem versado em intervenções externas, instou José Sócrates a fazer o pedido.

Feitas as movimentações, e a poucas horas do anúncio formal de José Sócrates, o Jornal de Negócios publicava declarações de Teixeira dos Santos que referiam a inevitabilidade da intervenção externa. E às 20:38 do dia 6 de Abril de 2011, José Sócrates entrava pelas nossas casas dentro anunciando o calvário que estava para vir. Cinco dias depois, na RTP, Pedro Passos Coelho reitera a posição do seu partido: “O PSD já disse que apoiava o pedido de ajuda.

Sim, foi o governo socialista quem colocou o processo em marcha e são mais que muitas as suas culpas no cartório, ainda que existam outras variáveis que tenham contribuído decisivamente para o desfecho. Mas isso não invalida que a cúpula do PSD e Pedro Passos Coelho quisessem a Troika em Portugal e que tenham pressionado nesse sentido. O insuspeito António Lobo Xavier chegou mesmo a afirmar, no programa Quadratura do Circulo, que PSD e CDS forçaram a entrada da Troika em Portugal, um esforço liderado por um “aprendiz de feiticeiro”, referindo-se a Pedro Passos Coelho. O PS pode ter dado a machadada final nas contas públicas e carregado no botão mas a oposição à direita fez o que pôde para precipitar a intervenção. O bloco central será sempre o bloco central.

*Roubei meio título aos Gato Fedorento. Creio que não levarão a mal.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Mas é mesmo importante saber QUEM CHAMOU A TROIKA?
    Continua a tentativa de encarreirar e encarneirar os votantes e estes – ou pelo menos, alguns deles – deixam-se levar no carreiro, como verdadeiros carneiros. E vão continuar a votar nos que há 40 anos nos vêm comendo.
    Mas onde está o debate sobre as RAZÕES QUE OBRIGARAM A TROIKA A ENTRAR?
    Este é o género de pergunta que não convém, porque discutir este ponto era apurar responsabilidades sobre o dinheiro que veio da Europa e que foi aplicado em abates de barcos, abandono de campos, abate de gado, construções de Expo, estádios de futebol fantasmas, formações fantasma, CCB’s, derrapagens astronómicas de projectos como o Metro do Porto, auto estradas duplas, Fundações de amigos, SWOP’s, BPN e associados, dívidas de autarquias …
    Convenhamos que é muito mais simples e divertido tentar saber quem chamou a Troika e continuarmos com o ar de carnaval que sempre animou a política portuguesa.
    É que assim até podemos ouvir os irresponsáveis políticos dizerem que a Troika veio cá porque os portugueses viveram acima das suas possibilidades. E há quem bata palmas …
    E tem sido esta a mistificação constante de políticos – a que se associam estas perguntas angelicais (Quem chamou a Troika?) – que nos têm levado às cordas e transformado num país onde uma boa parte da população vive em regime de terceiro mundo.
    E os votantes, claramente eleitores de alterne, onde a grande maioria – aquela que dá quatro maiorias a Cavaco Silva, uma maioria a Sócrates e outra a Passos Coelho – vota um partido ou o outro, sabendo perfeitamente que estão a votar no mesmo. O problema é sair da zona de conforto, algo que é tipicamente português e que conduz também aos 50% de abstenção sistemática.
    Não, o problema não é saber quem chamou a Troika.
    Qualquer português no seu juízo perfeito quer é saber porque é que alguém foi obrigado a chamá-la.
    Chamar a Troika e uma decisão que compete a quem governa. Goste-se ou não, é um acto de governação, sendo normal.
    Ter que chamar a Troika carece de explicação e análise e os motivos estão bem à vista: depredação de dinheiros públicos de forma abusiva, irresponsável e criminosa.
    Julgamentos, apuramento de responsabilidades, onde estão?
    Sobre isto os políticos não querem falar e nós deixamos trazendo o debate público uma pergunta que, para os portugueses, não deveria ter qualquer valor acrescentado, pois sabemos que mentir é a grande arte dos políticos.
    E assim não vamos muito longe para perceber porque chegamos a este ponto: De um lado, pela hipocrisia deste povo votante que não acredita nestes políticos, mas que neles vota sempre. Depois pela imaturidade da análise que é feita, sempre no sentido de uma tomada dos problemas pelo lado do facilitismo e nunca se questionando as causas de raiz.
    Parem, por favor, com perguntas angelicais.

  2. Rui Moringa says:

    fui eu, fui eu…


  3. Porque é que não se questiona se foi ou não necessário chamar a troika?

  4. ecozeus says:

    Quer dizer que um governo que se preze deve andar a reboque da oposição … se na altura a oposição (incluindo Mário Soares) fez pressão para que o governo chamasse a troika o PS só tem que agradecer, porque se tal não tivesse vindo a ser feito a catástrofe tinha sido bem maior!


    • Não quer dizer nada. O que aqui se quer dizer (pelo menos eu, claro), é que PSD e CDS fizeram o que puderam para que a Troika viesse e agora assobiam para o lado como se não fosse nada com eles. Simples não?

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