Olhares sobre as legislativas 2015: O que as sondagens nos escondem

António Duarte

Para encontrarmos uma campanha eleitoral tão manipulada como a actual, teremos talvez de recuar até à recta final das presidenciais de 1980, marcadas pela morte trágica do primeiro-ministro Sá Carneiro três dias antes das eleições, quando a direita então no poder não se coibiu de transformar o funeral do seu líder numa indecorosa manifestação que prolongou a campanha pelo dia de reflexão: andaram durante cinco horas a passear o morto pelas ruas de Lisboa, com direito a transmissão televisiva, esperando obter com isso uma reviravolta eleitoral. Se era este o intuito, saiu gorado, pois Ramalho Eanes venceu contundentemente Soares Carneiro, o promitente corta-fitas escolhido à medida das ambições políticas de Sá Carneiro, com quase um milhão de votos de diferença.

Hoje os tempos são outros, o pessoal já não se entretém com funerais nem carnavais e o condicionamento da opinião pública faz-se de formas mais variadas e subtis, que passam pela gestão do noticiário eleitoral e, muito particularmente, pela indústria das sondagens, que cumpre o papel de fabricar vantagens e empates técnicos e de transformar a disputa eleitoral numa corrida a dois que só um pode ganhar, criando a dinâmica bipolarizadora do voto útil, em que a cada um dos potenciais votantes só é dada uma hipótese de escolha, a de apoiar o líder que está ou votar no único adversário que o poderá remover do lugar.

Ainda assim, creio que nem as sondagens mais manipuladoras conseguem disfarçar o facto de a coligação de direita, podendo embora ganhar as eleições, nunca alcançará a maioria absoluta, a única que serve os seus objectivos de conservação do poder. Ou, por outras palavras, que as próximas eleições irão gerar uma maioria parlamentar de esquerda.

Já o PS, ganhando ou ficando em segundo lugar, tornar-se-á quase de certeza o maior partido do futuro parlamento, pois há que não esquecer que os votos na PaF terão de ser convertidos em mandatos dos dois partidos que formam a coligação.

Ora com uma maioria de esquerda no Parlamento, um governo PSD/CDS só seria viável com o apoio do PS, que assim se veria obrigado ao compromisso com as políticas da direita, o que, na lógica situacionista da troca de favores em que se baseia a política portuguesa, seria a forma de retribuir ao PSD o apoio envergonhado ao segundo governo de Sócrates.

A alternativa seria o PS inviabilizar o governo da direita e formar governo à esquerda, situação inédita na democracia portuguesa. Não a maioria de esquerda, que o nosso povo, desde que o deixam votar, tem tido quase sempre a propensão para votar maioritariamente nas forças políticas que identifica como alinhadas à esquerda, mas a possibilidade de o PS, o PCP e mais recentemente o Bloco de Esquerda, ultrapassarem divergências e sectarismos e comprometerem-se com uma solução governativa.

Chegados a este ponto, e duvido muito que o PS aqui queira chegar, abandonando a sua zona de conforto – o socialismo eternamente na gaveta, a promoção dos negócios, interesses e clientelas que giram à sua volta e os correspondentes benefícios para o partido e os seus dirigentes – percebe-se a ânsia do PS em crescer eleitoralmente, não para chegar à maioria absoluta que sabe impossível, mas para suplantar em votos a coligação de direita e ganhar assim legitimidade indiscutível para formar governo.

Um governo minoritário do PS é também o que melhor serve os interesses da direita derrotada eleitoralmente e das forças e poderes para quem os resultados eleitorais são indiferentes, pois os seus interesses estão assegurados por qualquer um dos partidos. Um governo deste tipo contaria com o apoio do PSD, como já sucedeu no passado, e conferiria legitimidade ao PS para governar à direita, pois poderia sempre justificar-se com a necessidade de fazer cedências em troca de apoio parlamentar.

E já agora, convém pensar um pouco porque é que o PSD não descarta um futuro apoio a um governo minoritário do PS. Em primeiro lugar porque não pode contrariar o desejo de “estabilidade” de todas as troikas, internas e externas, e depois porque sabe que um PS próximo da maioria absoluta poderia facilmente ir buscar esse apoio ao CDS, o partido mais oportunista e camaleónico da cena política, como já no passado sucedeu.

Perante isto, parece-me que não estão a ver bem a coisa os que acham que uma maioria de esquerda se constrói reforçando eleitoralmente o PS. Pelo contrário, quanto mais crescer eleitoralmente o PS à custa dos partidos à sua esquerda mais força será dada à tese das eleições ganhas ao centro e da governação situacionista em torno dos consensos do centrão que conduziram o país à situação em que nos encontramos.

O que a esquerda portuguesa precisa é de reforçar eleitoralmente, em votos e em mandatos, os partidos à esquerda do PS, sobretudo aqueles que, em cada círculo eleitoral, estiverem mais bem posicionados para eleger deputados. Pois o PS já sabemos como governa, tanto sozinho como coligado, concretizando as políticas que servem os interesses da direita. Falta saber como se comportará no dia em que se sentir obrigado a cumprir o socialismo que traz no nome, sob pena de seguir pelo mesmo caminho que tornou politicamente irrelevantes o PASOK e outros partidos ditos socialistas.

Da mesma forma que não achei, em 2011, que a alternativa à política de direita de Sócrates fosse votar ainda mais à direita, também em 2015 não encontro a alternativa de esquerda de que o país necessita no programa político que o PS apresentou, nem nas pessoas que lhe dão rosto, nem nos acordos e compromissos que irão condicionar a conquista e o exercício do poder.

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“Olhares sobre as legislativas 2015”  é uma série de perspectivas diferentes, políticas ou não, num espaço de temática marcadamente política. Escreva-nos.

Comments

  1. Humberto Barbosa says:
  2. MJoão says:

    É, exactamente, o que eu penso.

  3. JgMenos says:

    Se não fora estarmos tão na merda, até eu gostava de uns meses de uma maioria de esquerda a governar, na condição que lá estivesse toda a molhada.
    Além do divertimento ficar-nos-ia a vacina para umas décadas.

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