Olhares sobre as legislativas 2015: Nesta campanha valeu tudo!

Isabel Atalaia

Amnésia, tracking polls, crucifixos, ameaças, retratos salazarentos das mulheres, ameaça de caos, o espectro do senhor engenheiro e números, muitos números, números escondidos, números mentirosos, números torcidos. Tantos números que fiquei com a cabeça à roda. Incorrigível vi os debates, as reportagens de campanha, ouvi alguns “opinadores”, não todos… Sou eleitora, mas não mártir.  Li os programas eleitorais, de todos os partidos com representação parlamentar,  na parte que diz respeito à cultura. A minha doidice chega a este ponto.  Com honrosas excepções – só generalidades.
Da campanha  e da comunicação social estiveram ausentes os debates – sobre a Europa, sobre o crescimento das desigualdades, sobre o nosso maior défice – a educação. Não as letras e as contas, aquele microscópio que reduz a educação a algumas funcionalidades. A Educação – processo contínuo que ajuda  os cidadãos a melhor pensar a sociedade que integram. E,  este é para mim o Grande Défice. Na minha geração poucos se sentaram na escola mais do que seis anos. Começaram a trabalhar aos dez, onze anos e para esta geração que tanto deu a este país nada foi feito no que concerne à educação, a não ser uns “programazitos” com dinheiros da Europa que de pouco ou nada serviram. Sobre isto silêncio.
As televisões e os jornalistas de uma maneira geral mandaram a neutralidade às urtigas. Prefiro mil vezes a tradição anglo-saxónica em que os órgãos de informação tomam uma posição clara, ninguém vai ao engano, nem somos forçados a assistir a números de contorcionismo penosos. Há muito enviesamento do nosso sistema constitucional – Não, não elegemos um primeiro-ministro. Não, não elegemos um governo,  custa ouvir tanta gente a dizer esta barbaridade. Elegemos um órgão  de soberania com poder legislativo – Assembleia da República. E,  neste fórum quanto mais pluralidade melhor.  Bem sei que os partidos do “arco da governação” (expressão detestável) muito fizeram para que o nosso sistema parlamentar esteja tão desprestigiado. Contínuo a acreditar que  os deputados são os representantes do Povo. Gosto desse conceito que me remete sempre para os versos do Zeca Afonso. Respeito as escolhas do Povo, mesmo quando não coincidem com as minhas. Quantas vezes estas escolhas foram fruto de uma campanha mentirosa… Mas isso já são outros quinhentos.
Desde que fiz 18 anos que voto, excepto dois anos vividos na Bélgica mas estando no “noir” não estava registada no Consulado, falhei portanto as eleições legislativas de 1980 e 1983. A primeira vez que votei foi no longínquo ano de 1979. Sempre fiquei em minoria, sempre não,  houve um referendo onde o “meu lado” ganhou.
Felizmente passei estes valores ao meu filho, que fez coincidir as férias com as eleições e chegou hoje da Holanda. Alguma coisa fiz bem feita.
O meu exercício do direito de voto tem duas ordens de razões, por um lado escolher, por outro prestar tributo a gerações e gerações de mulheres que lutaram árdua e incansavelmente para que eu hoje possa por a  cruzinha no papelinho. Chapeau a todas as sufragistas! Honro-as votando.
Nesta campanha para as legislativas parecia que nos davam a escolher entre os irmãos Dupond e Dupont. Normalmente as pessoas tendem a escolher o original e não a cópia, ou como dizem os ingleses – “choose the devil you know”. Talvez isso explique os resultados das sondagens.
Pela minha parte – nunca fui sondada, não estou indecisa e abomino a expressão  – voto útil – não sei porquê penso sempre em electrodomésticos. Acredito em convicções, em escolhas informadas, em pensamento crítico. Claro  que há momentos em que estou desiludida,  desanimada, desalentada. Mas continuo a perseguir  e lutar por uma sociedade mais justa e livre.
Dia 4 de Outubro vou votar e em família. Na noite eleitoral que agora acaba às onze da noite, teremos, como é tradição,  a nossa mesa cheia de amigos para falar, trocar opiniões, beber uns copos e voltar a falar.  Dia 5 de Outubro  para o bem ou para o mal – “é o primeiro dia do resto das nossas vidas”.
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“Olhares sobre as legislativas 2015” é uma série de perspectivas diferentes, políticas ou não, num espaço de temática marcadamente política. Escreva-nos.

Comments

  1. Ana Moreno says:

    VIVA! Subscrevo TUDO! Bem haja e que hajam MUITOS mais assim!

  2. Ana A. says:

    “Respeito as escolhas do Povo, mesmo quando não coincidem com as minhas.”
    Infelizmente, com os níveis de abstenção que temos tido, tanto para as legislativas como para a presidência, as escolhas do Povo, não serão bem uma “escolha”, será mais uma roleta russa!


  3. Tenho de lhe gabar a pachorra de ter lido todos os programas dos partidos com representação parlamentar.
    Desculpe lá a perguntita:
    Então não sabe o que querem os fascistas? (e vigaristas?)
    Então não sabe ainda o que queres os comunistas?
    Os restantes, bem, são uma lástima…

  4. omaudafita says:

    Só existem três escolhas este domingo:
    Votar na coligação PAF e continuar a comer do mesmo.
    Votar no PS por convicção ou por «voto útil» e correr com este governo.
    Votar em qualquer um dos restantes partidos é continuar a comer o pão que o Passos e o Portas amassaram.
    O resto é conversa da treta.

    • Nightwish says:

      Claro que sim, não é que o TO que o PS é a favor imponha pesados cortes nem nada, nem que as propostas económicas do PS não fazem sentido.


  5. De todas as formas, é necessário correr com a corja, ou seremos um país de bananas governados por sacanas…